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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Se me perdoarás, tu, a enfermidade passageira e misteriosa, cuja história eu ponhoconfiadamente nas tuas mãos, pedindo-te, não o bálsamo da cura para uma chaga que está fechada para sempre, mas o sorriso da benevolência e do perdão para a vaga e sobres saltada melancolia do convalescente ajoelhado aos teus pés! Como quer que tenha de ser, minha noiva, eu entendo cumprir perante a minha consciência um dever sagrado contando-te, sem omissões e sem reticências, tudo, absolutamente tudo, quanto se passou por mim. A verdade é que te amo! que te amo, e quete amei sempre! Outra imagem, incoercível, vaporosa, vaga, perpassou por mim, mas esvaiu-se como a sombra de um sonho doentio, va rada sempre pelo teu olhar cândido que através dela se fixava e se embebia constantemente no meu.Uma noite, há dois meses, recolhendo-me por volta das nove horas a minha casa, que fica situada em um dos bairros excêntri cos de Lisboa, encontrei parada uma carr uagem depraça, cujo cocheiro altercava grosseiramente com uma senhora, que estava em pé junto do trem, vestida de preto e coberta com um grande véu de renda. Esta senhora trocou algumas palavras com outra mais idosa que a acompanhava e disse ao cocheiro com uma vozsingularmente fina, trémula, delicada, musical, como nenhuma até então ouvida por mim:

— Onde quer que lhe mande pagar?... Não trago mais dinheiro.- Importa-me pouco isso — respondeu o cocheiro. — Quem não tem dinheiro anda a pé. Já lhe disse à senhora quanto é que me deve pela tabela. Se não paga o resto, chamo um polícia. Se não traz dinheiro, dê-me um penhor.Ela então bateu impacientemente com o pé no chão, ergueu a parte do véu que lhe cobria o rosto, e principiou a descalçar convul sivame nte uma luva. Supus que iria tirar umanel. O cocheiro apressou-se a passar as guias pela grade da almofada e apeou. Ti nhame, no entanto, aproximado, e no momento em que ele dava o primeiro passo, impelido por uma forte comoção nervosa, estendi-lhe com as costas da mão uma bofetada que o fez cambaleare cair de encontro à parelha. E dando-lhe em seguida uma libra, que trazia no bolso:

— Aí tem pela bofetada; contente-se como que lhe deram pe la corrida. Diria que alguém por trás de mim sugerira estas palavras românticas, a tal ponto aindahoje pasmo de as ter eu mesmo inventado como solução de efeito oratório, para semelhante contingência!O cocheiro levantou a moeda, examinou-a à luz da lanterna, subiu outra vez à almofada, e partiu dizendome:

— Boa noite, meu amo!Eu atarantado, confuso, tirei maquinalmente o chapéu, e titu beei algumas palavras vagas, não sabendo como despedir-me da pessoa que tinha ao meu lado.Era a primeira vez que me achava perto de uma dessas formo sas senhoras da sociedade, tenra, fina, delicada, como nunca vi ninguém! Tinha uma carnação láctea e aveludada, como a pétala de uma camélia — prodígio de mimo só comparável ao de umaoutra mulher que não conheço, e que uma noite passou por mim no salão de S. Carlos, encostada no braço de um homem e envolta em uma grande capa branca de listas cor-de-rosa.

Aqueles que as conhecem, que as vêem e lhes falam todos os dias, é possível que se não impressionem como aspecto destas cria turas transcendentes. Para quem as encontra deperto pela pri meira vez em sua vida não há coisa no mundo que mais perturbe. Homens habituados a arrostar com as mais violentas comoções, a olharem denodadamente para operigo, para a desgraça ou para a glória, tremem diante destas simples coisas: o primeiro contacto de uma mulher elegante! Daí vem o velho prestigio magnético das rainhas sobre os pajens, das castelãs sobre os menestréis. É uma sensação única. O ser humano bestificadoconverte-se por momentos num vegetal que vê.

Eu ficara imóvel e mudo.Ela correu-me de cima a baixo com um olhar rápido, e dizendo-me obrigada com umacomoção trémula, estendeu-me de entre a nuvem negra das suas rendas a mão de que tinha descalçado a luva.

Entreguei a minha grossa mão a essa mão delicada, magnéti ca, convulsa e fria, e se nti percorrer-me todos os nervos um estre mecimento eléctrico despedido do shake-hands que ela me deu de um só movimento sacudido, fazendo tinir os elos de uma grossa ca deia quelhe servia de bracelete.

Obrigado a dizer alguma coisa, soltei instintivamente as pala vras monstruosas de uma fórmula que se usa em Viseu, mas que estou bem certo nunca até esse dia haviam sidoouvidas por tal criatura, e que certamente lhe produziram o efeito do grito estrí dulo de um animal selvagem, escutado pela primeira vez entre ma tos desconhecidos.Vergonha eterna para mim! Essas palavras, que eu desgraça damente conservara no meu ouvido de provinciano e que a minha boca deixou bestialmente cair, foram estas:

— Para o que eu prestar, estou sempre às ordens.E dizendo isto, tendo-o ouvido com horror a mim mesmo, vol tei rapidamente costas, e afastei-me a passos largos. Ia vexado, envergonhado, corrido, como se houvesse proferidouma obscenidade sacrílega. Dava-me vontade de me meter pelas paredes ou de me sumir pela terra dentro! Não me atrevia a olhar para trás, mas parecia-me que ia envolto em gargalhadas fantásticas, que não ouvia. Figuravase-me que tudo se ria de mim, oscandeeiros, os cães noctívagos, as pedras da rua, os números das portas, os letrei ros das esquinas, os aguadeiros que passavam uivando com os seus barris, e os caixeiros quepesavam arroz sobre o balcão ao fundo das tendas.

Entrei precipitadamente em casa, subi as escadas, fechei-me por dentro e pus-me a passear às escuras no meu quarto.Nas trevas apareciam-me iluminadas por um clarão satânico essas duas mãos que pela primeira vez acabavam de se apertar na rua — a minha e a dela — uma trigueira, áspera e quente, a outra branca, nervosa e gelada. Depois entravam a reconstruir-se à minha vista osvultos completos das pessoas.



(continua...)

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