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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

-Ora, ora... Um homem tão esperto, tão expedito, que fazia tanta honra ao progresso! Tudo para Espanha!... E mandaste vir?

-Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, estou saboreando esta delícia de me erguer pela manhã, e de Ter só uma escova para alisar o cabelo.

Considerei, cheio de recordações, o meu amigo:

-Tinhas umas nove.

-Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhação, não me bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas ocupações; tanto me sobrecarregavam, que nunca fui útil!

-Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhação, não me bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas ocupações; tanto me sobrecarregavam, que nunca fui útil!

De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes daquela Quinta rica, que, através de duas léguas, ondula pôr vale e monte. Não me encontrara mais com Jacinto em meio da Natureza, desde o remoto dia de entremez em que ele tanto sofrera no sociável e policiado bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurança e idílico amor se movia através dessa Natureza, de onde andara tantos anos desviado pôr teoria e pôr hábito! Já não receava a humildade mortal das relvas; nem repelia como impertinente o roçar das ramagens; nem o silêncio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era com delícias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada, que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como no seu elemento natural e paterno; sem razão, deixava os trilhos fáceis, para se embrenhar através de arbustos emaranhados, e receber na face a carícia das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, imóvel, retendo os meus gestos e quase o meu hálito, para se embeber de silêncio e de paz; e duas vezes o surpreendi atento e sorrindo à beira dum regatinho palreiro, como se lhe escutasse a confidência...

Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo dum convertido, ávido de converter:

-Como a inteligência aqui se liberta, hem? E como tudo é animado duma vida forte e profunda!... dizes tu agora, Zé Fernandes, que não há aqui pensamento...

-Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...

-Pois é uma maneira de refletir muito estreira e muito grosseira...

-Ora essa! Mas eu...

-Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro doutor...

-Que não sou!

-A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e naquele pedaço de terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de forças que se revelam, e que atingem a sua expressão suprema, que é a Forma. Não, essa tua filosofia está ainda extremamente grosseira...

-Irra! Mas eu não...

-E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa diversidade de formas... E todas belas!

Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com reverência. Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as idéias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... a mesmice – eis o horror das Cidades!

-Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. Há três semanas que cada manhã o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as nuvens, a chuva incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e nova, sempre interessante. Nunca a sua freqüentação me poderia fartar...

Eu murmurei:

-É pena que não converse!

O meu Príncipe recuou, com olhares chamejantes, de Apóstolo:

-Como que não converse? Mas é justamente um conversador sublime! Está claro, não tem ditos, nem parola teorias, ore rotundo. Mas nunca eu passo junto dele que não me sugira um pensamento ou me não desvende uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas... Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é isenta de trabalho, da ansiedade, do esforço que a vida humana impõe; não tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova ou se inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta majestade. Pois não achas?

Eu sorria, concordava. Tudo isto era decerto rebuscado e especioso.Mas que importavam as requintadas metáforas, e essa metafísica mal madura, colhida à pressa nos ramos dum castanheiro? Sob toda aquela ideologia transparecia uma excelente realidade – a reconciliação do meu Príncipe com a Vida. Segura estava a sua Ressurreição depois de tantos anos de cova, de cova mole em que jazera, enfaixado como uma múmia nas faixas do Pessimismo!

(continua...)

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