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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Quando chegamos ao portão, já nos esperavam os bondes especiais. Do outro lado da rua, à entrada do conhecido restaurante, apareceu a família do Aristarco com alguns professores, que lá tinham jantado. D. Ema, pelo braço do Crisóstomo, a Melica altivamente só e distanciada.

No colégio, tivemos ordem de subir a descanso nos dormitórios. Preventivo louvável de prudência, depois dos excessos e da tempestade sofrida. O descanso foi simplesmente um prolongamento da pândega do passeio. Para cessar a desordem, tocou-se a estudo... Baixamos ao salão geral. Aristarco, reassumindo a dureza olímpica da seriedade habitual, apresentou-se e perguntou asperamente se pretendíamos que a vida passasse a ser agora um piquenique perpétuo na desmoralização. Tacitamente negamos e a tranqüilidade normal entrou nos eixos.

Não sabíamos que, a essas horas, preparava o segredo da alta justiça uma trama de intrigas, que devia estragar em terrores a lembrança do grande passeio.

A hora da ceia, na mesma porta em que se lia a gazetilha das aulas, sombrio como nunca, vagaroso como os compassos de réquiem, tétrico como o Juízo Final, entrou o diretor.

Pausa preliminar, frêmito de sensação pelo refeitório: “Tenho a alma triste”, começou, cavernosamente. Uma cinta de trovões no horizonte, restos da tormenta da tarde, faziam fundo às palavras em coro esquiliano.

“Tenho a alma triste. Senhores! A imoralidade entrou nesta casa! Recusei-me a dar crédito, rendi-me à evidência...” Com todo o vigor tenebroso dos quadros trágicos, historiou-nos uma aventura brejeira. Uma carta cômica e um encontro marcado no Jardim. “Ah! mas nada me escapa... tenho cem olhos. Se são capazes, iludam-me! Está em meu poder um papel, monstruoso corpo de delito! assinado por

um nome de mulher! Há mulheres no Ateneu, meus senhores!” Era uma carta do Cândido, assinada Cândida.

“Esta mulher, esta cortesã fala-nos da segurança do lugar, do sossego do bosque, da solidão a dois... um poema de pouca-vergonha! É muito grave o que tenho a fazer. Amanhã é o dia da justiça! Apresento-me agora para dizer somente: serei inexorável, formidando! E para prevenir: todo aquele que direta ou indiretamente se acha envolvido nesta miséria... tenho a lista dos comprometidos... e que negar espontâneo auxilio ao procedimento da justiça, será reputado cúmplice e como tal: punido!”

Este convite era um verdadeiro arrastão. Remexendo a gaveta da consciência e da memória, ninguém havia, pode-se afirmar, que não estivesse implicado na comédia colegial dos sexos, ao menos pelo enredo remoto do ouvi dizer. Ouvir dizer e não denunciar logo, era um crime, dos grandes na jurisprudência costumeira. A devassa prometida fazia alarma geral. Como prever as complicações do processo? Como adivinhar o segredo tremendo da lista?

Aristarco ufanava-se de perspicácia de inquisidor. Sob a saraivada das perguntas, ameaças, promessas, o interrogado perturbava-se, comprometia-se, entregava-se e traia os outros; nos processos do gabinete, os fatos floresciam em carimbo, frutificavam em cacho; a pesquisa de uma culpa descobria três, sem contar as ramificações da cumplicidade de outiva.

Ao retirar-se, o diretor deixou na sala uma estupefação de pavor.

Eu, particularmente, tinha valiosos motivos de sobressalto. A guerra latente que já me ligava ao diretor, como as conjunções disjuntivas, exacerbara-se com um episódio gravíssimo, rompimento decisivo.

A caminho da biblioteca, no mesmo lagar do infeliz encontro com o enorme Rômulo, achei-me inesperadamente com o Bento Alves.

As simpatias do excelente companheiro não tinham diminuído. Durante as férias, fora ver-me em casa, travando relações com a minha família Fui recomendado insistidamente ao amigo, que me valesse, nas dificuldades da vida colegial, contra o constante perigo da camaradagem perniciosa. Durante o mês de janeiro não nos vimos. Por ocasião da abertura das aulas, notei-lhe um calor novo de amizade, sem efusões como dantes, mas evidentemente testemunhado por tremores da mão ao apertar a minha, embaraços na voz de amoroso errado, bisonho desviar dos olhos, denunciando a relutância de movimentos secretos e impetuosos.

Às vezes mesmo, um reflexo assustador de loucura acentuava-se-lhe nos traços.

Interessava-me aquela agonia comprimida. Estranha coisa, a amizade que, em vez da aproximação franca dos amigos, podia assim produzir a incerteza do malestar, uma situação prolongada de vexame, como se a convivência fosse um sacrifício e o sacrifício uma necessidade.

(continua...)

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