Por Adolfo Caminha (1893)
— Oh!... Estava admirando a grandeza do Criador... Você assim mesmo tem gosto, seu Loureiro, você é um danado, homem! Sim senhor, isto aqui é um maná! Faz vir água à boca...
— Escolhi este local por ser muito isolado da civilização. Detesto o ruído da cidade...
— Tens também a tua veia poética, hein?
— Qual veia poética! Isso de versos não é comigo. Tenho até horror à poesia.
O que eu quero é o sossego, o bem-estar, o conforto...
— Fazes muito bem, filho, não há nada como se viver no seu cantinho, com a sua mulher e os seus filhos, comendo com o suor de seu rosto. Eu, se pudesse, fazia o mesmo — desertaria da capital, do centro da civilização, para viver comodamente, bem longe de toda essa porcaria que se chama sociedade. Fazes muito bem. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.
— E você, como vai?
— Homem, assim mesmo: nem para diante nem para trás, remando contra a maré... Têm me aparecido umas dorzinhas do lado esquerdo... — Por que não usa você o vinho de caju?
O guarda-livros fez a apologia do vinho de caju, citando casos de curas assombrosas produzidas pelo uso quotidiano desse depurativo. Ele mesmo, Loureiro, tinha-se curado radicalmente de um dartro na perna esquerda. Na sua opinião o vinho de caju era muitíssimo superior à salsa, ao iodureto e a quanta panacéia receita-se por aí sem resultado.
O amanuense, porém, afirmou que o seu mal era no pulmão, que já tinha consultado ao Dr. Melo.
— Não te fies em médicos do Ceará, que dão cabo de ti. Olhe o Calado, conferente da Alfândega: diagnosticaram-lhe lesão cardíaca, e o pobre homem, coitado, estirou a canela no Rio de Janeiro, com uma enfermidade nos rins. Uns ignorantes, seu João, uns magarefes da humanidade é o que eles são. Meta-se no vinho de caju, que é o grande remédio para as moléstias do sangue.
Enquanto os dois, sentados no sofá, de pernas trançadas, iam discutindo banalidades, Lídia e Maria do Carmo comunicavam-se como boas amigas, numa intimidade franca e expansiva, abrindo-se mutuamente em confidências de colegiais felizes. Primeiro tinham percorrido toda a casa. Lídia mostrara à outra todos os seus confortos e todas as suas jóias desde a cama de casados, ampla e fresca, até o presente de noivado, um magnífico jogo de pulseiras cravejadas de pérolas, em forma de serpente, o guarda-vestidos, os vidros de essências, os chapéus, as toalhas de labirinto, feitas no Aracati e tudo mais que o Loureiro comprara com aquela bondade ingênua que o caracterizava.
Maria via tudo aquilo embasbacada, com surpresas no olhar, falando por monossílabos, examinando com inveja cada objeto que seus olhos deparavam, achando tudo muito bom, muito fino, de muito bom gosto. E a outra: olha isto, vê lá, aqui está o meu relógio de algibeira, comprado no Jaques, tu ainda não viste a minha cinta de tartaruga; é verdade, e o meu tinteiro de prata, presente do Carvalho, e o meu leque de plumas...
Foram sair na sala de jantar, e aí, uma defronte à outra, em cadeiras de balanço, Lídia entrou indiscretamente a falar no Zuza.
— Ainda o amas muito? Então fica para a volta?...
Maria não compreendeu a pergunta.
— Como fica para a volta?
— Sim, de certo, creio que vocês não se casaram...
— Não te compreendo...
— Olha a engraçada!... Quer um peitinho?!
— Por Deus como te não entendo...
— Pergunto se o casamento é quando o Zuza voltar, não te faças de tola...
— Quando o Zuza voltar?
— E então?...
— Mas voltar de onde?...
— Estás hoje muito misteriosa, minha espertalhona.
Maria teve um pressentimento: — “E o Zuza tinha ido embora?”
— Pois não embarcou anteontem?
Olhavam-se as duas sem se compreenderem, como se estivessem jogando o disparate.
— Para onde?
— Para o Recife, ora adeus! para onde havia de ser?... A estas horas anda ele bem longe do Mucuripe.
Maria do Carmo empalideceu, como se acabasse de saber uma notícia funesta.
— Estás gracejando, murmurou com voz trêmula.
— Não sabias?
— Não, não sabia...
— Pois a Província deu a notícia. — Infame!
E Maria não pôde resistir à comoção que lhe sufocava, os olhos umedeceram-se-lhe de lágrimas, e desatou a chorar com o rosto mergulhado no lencinho de rendas.
— Que é isso, criatura? Tolice!
Lídia não contava com esse pieguismo da amiga. Ora adeus, o rapaz havia de voltar, que asneira!
Era preciso paciência para tudo, e então? Ela mesma, Lídia, não esperara pelo Loureiro quase um ano? Tolice...
— Deixa-te disso, filha, vamos tocar piano. Estás nervosa.
Inclinada sobre a pobre rapariga, que soluçava como se lhe tivesse morrido alguém, Lídia procurava carinhosamente arrancar-lhe o lenço dos olhos alisando-lhe os cabelos, comovida.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.