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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— São saudades do Dr. Ângelo. Ela tem-lhe muito amor. Não se pode esquecer dele. Coitada de Sinhazinha!

— Tens pena de Sinhazinha, Virgínia?

— E por que não hei de ter? Mamãe bem sabe que eu gosto muito Sinhazinha; ela é uma das minhas melhores amigas. Se estivesse em minhas mãos dar-lhe o que mais deseja, eu não hesitaria um momento. Ela é tão boa, tão meiga, tão sincera.

— Acreditas na sua amizade?

— Acredito, sim. Quantas vezes ela me consolou nas minhas tristezas, antes do meu casamento, quando me parecia que ele não havia de realizar-se! Quantas vezes me disse, vendo-me chorar: “Não chore, Virgínia. Tenha confiança em Deus. O Sr. Paulo há de ser seu marido. Que tem que Iaiazinha tenha muitos contos de réis, seja prima do Sr. Paulo, e D. Carolina mostre desejo que eles se casem? Tudo isto não lhe há de fazer mal nenhum. Não desanime.” Quem fazia isto comigo, quem me dava tanta coragem, quando eu sentia meu espírito abatido, quem queria do meu coração a minha felicidade não me deve merecer muito, muito?

Estas palavras foram agudos punhais desferidos contra o coração de Maurícia, que se sentiu depois disso ainda menos forte pata levar a efeito a sua resolução.

— Não escreverei — disse, levantando-se. Custar-me-á, talvez, a vida este passo, mas hei de ter forças para dá-lo.

Sem compreender o que dissera sua mãe, Virgínia olhou para ela atônita e confusa; e no seu rosto, por onde lhe corria em bagas o pranto, buscou em vão ler o natural sentido daquelas palavras.

— Meu Deus! — exclamou a menina ao cabo de um momento, em que lobrigava muito ao longe nuvem cheia de tempestades no horizonte, por ora sem fogos e sem vulcões destruidores, da vida de Maurícia. — A quem ia escrever, mamãe? Se minhas palavras concorreram para que a senhora mudasse de uma resolução que lhe era agradável, não se importe com elas. Faça o que for melhor.

Era tarde. Estava resolvido o sacrifício.

CAPÍTULO XIX

Longe do Recife, numa vila de costumes primitivos, de vida quase rudimentar no alto sertão, o amor de Ângelo por Maurícia requintara. Dia e noite, o bacharel trazia na lembrança a bela imagem dessa mulher, umas vezes a modo assustada, outras mostrando rápidos ciúmes, outras indiferentes às suas exaltações. Maurícia de feito passara por todos estes estados espirituais, que se alternavam e sucediam ao sabor das circunstâncias ou dos acontecimentos de sua vida agitada por forças diferentes, contraditórias ou reciprocamente hostis. Qualquer que fosse, porém, a face dessa imagem que se reproduzisse no pensamento do jovem bacharel, tinha sempre ele para ela as mais distintas preferencias.

Nos primeiros tempos, Ângelo sentiu-se inteiramente arrependido do passo que dera; esteve ainda para pedir demissão, tamanho foi o seu descontentamento, e tão incompatíveis se lhe afiguraram com sua índole e educação costumes e sentimentos tão primários de mistura com sentimentos e costumes inocentes e singelos; mas, dominando os receios de desgostos e sobretudo, desanimado ante o pensamento de continuar a sofrer no Recife os tormentos silenciosos de sua paixão contrariada, logrou perder a idéia de voltar. Todo o seu espírito começou a revoar em torno dessa imagem imperecedoura, dessa ideal criação, que distante do original, se tornava cada vez mais espiritual, mais fantástica, mais poética, e por isso mais rica de atração pelos eu prestígio quase divino. Enfim, a idéia fixa de Ângelo era esta: que Bezerra havia de morrer primeiro que ele e Maurícia, e que, esta lhe pertenceria. Imagine-se, por isso, com que mostras de satisfação interior não leu ele no jornal a notícia da morte daquele infeliz homem. Quanto o amor é perverso!

Não leu uma vez só, releu muitas vezes a notícia de cuja veracidade ao princípio pareceu duvidar, mas em que acreditou, por último, visto que era irrecusável a evidência. Ocorreu-lhe, então, o pensamento de voltar ao Recife, procurar Maurícia e dizer-lhe: “Eis-me aqui, belo anjo. Cessaram todos os obstáculos que cavavam entre nós abismo intransponível.” E a sua imaginação de poeta concluía este como cântico de ressurreição com um verso de Martins, que andava muito em voga e se repetia entre moças e rapazes no retiro literário da estrada:

“Sejamos, meu anjo, sejamos um só”

O primeiro correio que partira da vila, depois da chegada da notícia consoladora, trouxe a um amigo de Ângelo que o era também do presidente da província - o mesmo que obtivera a nomeação - um pedido de licença para vir tratar de sua saúde na capital. Por essa ocasião o bacharel escreveu também a D. Matilde e a Martins, mas nada lhe disse a respeito do passo que dera.

O seu empenho em fazer surpresa a Maurícia era tamanho que ele recomendou àquele amigo toda a reserva. A licença não foi publicada.

(continua...)

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