Por Bernardo Guimarães (1872)
Soltaram a canoa e a tangeram rio abaixo pelo remanso de que falamos. Carlito preparou o seu anzol e o lançou na água. Estava em pé no meio da canoa, com a vara em punho e os olhos fitos no rio. Por detrás dele Quirino assentado à popa manejava o remo. Quem os visse então, havia de notar o extremo antagonismo que havia na expressão daquelas duas fisionomias. Carlito com olhar tranqüilo, que revelava a placidez de sua alma tão serena como a torrente mansa sobre que resvalava, tinha a atenção presa aos movimentos da linha de seu anzol, e um meio sorriso como de uma satisfação íntima lhe pairava pelos lábios. Quirino com os olhos torvos e espantados olhava com inquietação ora para uma ora para outra margem; ora apalpava a faca e fitava olhar sinistro e desvairado sobre o adolescente que estava diante dele, ora deixava por instantes cair a fronte sobre o peito em profundo e sombrio abatimento. Seu espírito debatia-se entre os estertores da mais violenta e angustiosa luta.
Aquele mocinho tão novo, tão esbelto e garboso, com a alma tão serena, tão cheia de risonhas visões e doces sonhos de esperança; aquela criança descuidosa, que nenhum mal lhe fizera, que a ele se abandonava com tão sincera e ingênua confiança, ter de cair vítima do seu punhal, ir servir de pasto a esses mesmos peixes que procurava atrair ao seu anzol, e com que esperava regalar-se!... O coração do mancebo fraqueava, e tinha ímpetos de arrojar ao rio a faca que lhe dera Jupira, e dizer ao seu companheiro: – fujamos; Carlito, fujamos; um grande perigo aqui nos ameaça!
Mas para logo surgia ante o seu espírito a linda e voluptuosa imagem de Jupira, que como o anjo do mal conjurava todos aqueles escrupulosos impulsos.
O beijo de fogo, que lhe dera, ardia-lhe ainda nos lábios, e lhe fervia no coração como um filtro peçonhento que lhe queimava o sangue, e lhe escaldava o cérebro em delírios de volúpia. – Oh! pensava ele ainda contemplando com olhos cheios de inveja e de ciúme as esbeltas e bem talhadas formas e o encantador semblante do imberbe adolescente; – oh! este menino!... este menino!... e ela o amava!... por mais que diga que o odeia, esse ódio não pode durar muito... e no fim de contas, se eu o poupar... quem sabe... será ele o feliz amante, que há de vir a gozar de todos aqueles mimos, que eu há tanto tempo cobiço com todo o ardor de minha alma!... oh! não? mil vezes não! já agora, Jupira, ainda que te arrependas mil vezes, ainda que venhas me pedir de joelhos por ele, tem de morrer! é preciso absolutamente, que eu te livre a ti e a mim desse rapazinho que estorva a nossa felicidade... eia! ânimo!... antes que se arrependa...
E a canoa vinha suavemente resvalando à mercê da torrente serena; Carlito, com semblante plácido e risonho, em pé com a vara na mão, refletindo na água límpida do rio os contornos de sua gentil figura, cismava nos sorrisos e beijos de Rosália, à espera que o peixe lhe viesse morder no anzol, e por detrás dele hirto, medonho, sombrio, o vulto de Quirino com a faca em punho se ia erguendo sinistra e vagarosamente.
Capítulo X
Jupira passara a noite entre penosas insônias e sonhos pavorosos, entregue à mais horrível agitação. Apenas adormecia via a figura de Quirino com os olhos torvos e abrasados, hirtos os cabelos, e nos lábios um feroz sorriso de triunfo, com as mãos e o punhal banhados no sangue de Carlito, vir correndo a ela pedir-lhe o cumprimento de suas promessas. Outras vezes era Carlito que lhe aparecia pálido, triste, abatido, com um punhal cravado no coração, e que com voz dorida vinha acabrunhá-la com o peso de maldições e terríveis imprecações. Mil outras hediondas visões se atropelavam em seu espírito, e os remorsos torturavam-lhe o coração.
Mal despontou a primeira barra do dia que ela ansiosamente esperava, ergueu-se e quis sair; mas seu pai tinha o costume de guardar cuidadosamente todas as chaves das portas de fora, e foi-lhe forçoso esperar, na mais angustiosa impaciência, que despertasse e se levantasse. Apenas pôde sair, foi direta correndo a casa onde Quirino costumava hospedar-se. Já não estava em casa; soube que tinha saído ao romper do dia.
– Ai de mim! – disse ela na mais extrema aflição;– Deus sabe o que terá acontecido... meu Deus!... meu Deus!... será já tarde!
Dali correu imediatamente ao seminário, onde Carlito morava. Um criado disse que tinha saído muito cedo, e que não sabia para onde tinha ido.
– Ai! meu Deus! meu Deus! que será dele!... desgraçada de mim! – saiu a menina exclamando na maior consternação, e dali se foi sempre a correr a casa de Genoveva. Esta e sua filha acabavam de chegar da missa, e perguntando-lhes Jupira se não tinham visto Carlito.
– Esteve conosco ainda agora, lhe disseram, na missa da madrugada, e nos disse que dali ia para o Rio Verde passar o dia e pescar com o sr. Quirino, que estava junto com ele.
Com esta notícia a aflição e angústia da rapariga subiram ao último ponto, cobriu-se de palidez mortal, cambaleou, e foi preciso encostar-se à parede para não ir ao chão.
– Para que banda foram eles, perguntou ela ainda com ar tão inquieto
e perturbado que surpreendeu as duas mulheres.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.