Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
Duas horas depois serviu-se o almoço. Mas durante essas duas horas, que se passaram muito depressa, Augusto teve de agradecer as obsequiosas atenções da avó de Filipe, que dizia ter por ele notável predileção, e também de reparar com esmero e minuciosidade no objeto de seus recentes cultos. Em resultado de suas observações concluiu que d. Carolina estava bonita como dantes, porém mais lânguida; que às vezes reparava suas indiscrições e que outras, quando mais parecia ocupar-se com seu alegres trabalhos, olhava-o a furto, com uma certa expressão de receio, pejo e ardor, que a embelecia ainda mais.
Durante o almoço a conversação divagou sobre inúmeros objetos; finalmente teve de ir bulir com um pobre lencinho que estava na mão de d. Carolina e que, se aí não estivesse, passaria despercebido.
— Eu julgo que ele está trabalhoso e perfeitamente marcado, disse Augusto.
— E ir muito longe, respondeu a menina; aí o tem, observe-o de perto, e repare que barafunda vai por aqui.
Ora, eu acho tudo o melhor possível; ao muito, poder-se-ia dizer que este X foi marcado por mão de moça travessa.
— Quer dizer que foi pela minha? adivinhou.
— Tem uma bela prenda, minha senhora. Que é muito comum.
— E nem por isso merece menos.
— Eu não entendo assim; aprecio bem pouco o que todo o mundo pode ter.
Quem não sabe marcar? Eu, minha senhora.
— E porque não quer.
— E porque não posso; eu não me poderia haver com uma agulha na mão.
— Um dia de paciência lhe seria suficiente.
— Querem ver, acudiu Filipe, que minha maninha resolve Augusto a aprender a marcar?
— Então, seria isso alguma asneira?
— Não, por certo; maninha pode mesmo dar-te algumas.
— Nada, respondeu a menina; sou muito raivosa e à primeira linha que ele rebentasse, eu o chamaria a bolos.
— Se é uma condição que oferece, eu a aceito, minha senhora; ensine-me com palmatória.
— Veja o que diz!...
— Repito-o.
— Pois bem, palmatória não, porque, enfim, podia doer-lhe muito; mas, de cada vez que eu julgar necessário, dar-lhe-ei um puxão de orelha.
— Menina! disse a sra. d. Ana.
— Mas minha avó, eu não estou pedindo a ele que venha aprender comigo.
— Porém podes ensinar-lhe com bons modos.
— E o que pretendo fazer.
— Ele há de aproveitar muito.
— Terá os meus elogios.
— E se por acaso errar alguma vez?
— Levará um puxão de orelha.
Se me é permitido, disse Augusto, aceito as condições.
— Pois bem, respondeu d. Carolina, está o senhor matriculado na minha aula de marcar e daqui a uma hora principiaremos a nossa lição.
E então ele não passeia comigo? perguntou Filipe.
— Depois da lição, respondeu a mestra, fazendo-se de grave; antes não lhe dou licença.
Levantaram-se da mesa, e algum tempo foi destinado a descansar; Filipe desafiou Augusto para uma partida de gamão e incontinente foram travar combate na varanda. Filipe derrotou seu competidor em três jogos consecutivos; estavam no começo do quarto, e tocou na sala uma campainha; os dois estudantes não deram atenção a isso e continuaram; o jogo tornou-se duvidoso, e qualquer dos dois podia dar ou levar gamão; Augusto acabava de lançar um dois e ás, que desconcertaram seu antagonista, quando d. Carolina apareceu e, dirigindo-se ao seu discípulo, disse com engraçada seriedade:
O senhor não ouviu tocar a campainha?
— Então isso era comigo?
— Sim, senhor, são horas de lição, e espero que para outra vez não me seja preciso chamá-lo.
Aceito a admoestação, minha bela mestra, mas rogo-lhe o obséquio de consentir que termine esta partida.
— Não, senhor.
— E uma mão de honra!
— Pior está essa!
Ora é boa! acudiu Filipe; então quer você...
— Não tenho a dizer-lhes o que quero, nem o que não quero; são horas da lição, vamos.
E preciso obedecer, concluiu Augusto levantando-se.
Daí a pouco estava tudo em via de regra; Augusto, sentado em uma banquinha aos pés de sua bela mestra, escutava, com olhos fitos no rosto dela, as explicações necessárias. As vezes d. Carolina não podia conservar imperturbável sua afetada gravidade e então os sorrisos da bela mestra e do aprendiz graciosamente se trocavam; ela se mostrava mais pacífica e ele menos atento do que haviam prometido, porque era já pela quarta vez que a bela mestra recomeçava suas explicações e o aprendiz cada vez a entendia menos.
Filipe apareceu na sala, pronto para ir caçar, e convidou o seu amigo para com ele partilhar do mesmo prazer. Todo o mundo adivinha que Augusto disse que não; ele poderia responder que não queria caçar, porque estava pescando, mas contentou-se com dizer:
— Minha bela mestra não dá licença.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.