Por Eça de Queirós (1925)
A calçada estava coberta de saibro e havia um perpétuo ranger de passos subtis sobre a areia áspera. E as faces consternadas contemplavam as três janelas do quarto, por trás das quais os médicos davam, havia três dias, uma batalha desesperada à morte!
E quem não se recorda ainda, daí a dias, do sumptuoso funeral, caminhando devagar, com paragens solenes: a mórbida monotonia da música fúnebre, o arrastar grave de espadas, essa marcha funerária de um exército, e, adiante, entre tochas que levantavam alto as chamas lívidas, a complicada estrutura do féretro, coberto de crepes e de dourados, marchando numa oscilação lenta; e atrás, o longo e negro cortejo, solene, cadenciado, desprendendo-se de toda aquela multidão silenciosa, para o azul-ferrete de um esplêndido dia de Setembro, uma sensação difusa de luto e de morte!
O esplendor sombrio desse luto, comparei-o eu, no meu artigo do Estandarte, à magnificência lúgubre com que Roma chorou César. E lamentei não ter a pena de Tácito para contar as pompas dos funerais de Augusto!
Apenas se dispersou o fumo das últimas descargas, os personagens ilustres, vendo fechar-se sobre o General as portas do jazigo, onde ele ficava bem aferrolhado no seu triplo caixão de chumbo, tiveram uma sensação de imenso alívio. Um ufá! colossal, de quem respira em paz, a pulmões cheios, saiu dos tórax fardados de S. Ex.as : o grande perturbador estava enterrado! Enfim!
O ministério nessa tarde, depôs a sua demissão nas mãos de El-Rei, e os regimentos voltaram aos quartéis, despidos do seu prestígio e do terror que inspiravam, como se, com o desaparecimento da influência que os movia, tivesse morrido a força que os tornava temerosos.
Alípio Abranhos, desde a notícia da doença do General, viera imediatamente para Lisboa, e tivera o gosto de ver os seus amigos voltarem, mais fiéis, mais dedicados, mais devotos, a tomarem a sua chávena de chá no salão de repes azul.
Na tarde do dia em que se enterrara o General, soube-se que El-Rei encarregara a formação do ministério a Guedes Navarro, chefe do partido Nacional.
Em casa de Alípio Abranhos, porém, sabia-se com mais precisão que Guedes Navarro fora chamado ao Paço às sete horas da tarde: e desde as sete e meia todos os amigos começaram a afluir.
Que soirée! Fradinho confessou-me muitas vezes que nunca tivera «tantas cólicas». Pelo relato circunstanciado que ele me fez, e por informações colhidas de outras testemunhas presenciais, eu pude reconstituir em todos os seus detalhes os pormenores dessa noite histórica, que marca um momento decisivo na carreira do Conde d'Abranhos. Todos na casa sabiam que existiam compromissos antigos, pelos quais, se os Nacionais fossem ao poder, a pasta da Marinha seria dada a Abranhos.
Esse pacto datava do dia em que Alípio, com grande brilho e pompa, se separara dos
Reformadores; mas nem por isso se podia esquecer que ele era apenas, segundo a frase de Fradinho, «um Nacional da véspera!» Guedes Navarro tinha no seu partido homens com longos serviços, amigos de anos, Nacionais de tradição; teria ele a força de dispor de uma pasta a favor de um novo, de um principiante, de um intruso? Era decerto um intruso de génio, mas quem considera o génio quando se trata de recompensar a.76 amizade? Além disso, a sua mesma passagem para os Nacionais, tão brusca, num salto de clown, tornava-o suspeito, e era, para os velhos do partido, um argumento já pronto para afastar aquela nova ambição. Se Guedes Navarro tinha compromissos com
Abranhos, não os teria decerto menores com outros: havia sobretudo o famoso Torres, que já fora duas vezes ministro da Marinha com Navarro; aquela pasta parecia pertencer-lhe como um património: tinha por si a experiência ganha, o seu talento de orador, a sua posição literária como um dos nossos mais estimados dramaturgos! Era um colosso! E iria Guedes Navarro substituir-lhe Alípio Abranhos?
Estas considerações que Fradinho fazia e que comunicava aos amigos da casa, não escapavam ao espírito penetrante de Alípio.
Quando sobreviera a doença do General, uma alegria furiosa revolvera-o. Enfim! Morto o personagem, o poder caía por lei, por praxe, nas mãos sofregamente estendidas dos Nacionais: e houve um momento em que se sentiu ministro! Mas, depois reflectiu; e o seu espírito, debatendo-se entre a dúvida e a esperança, foi como um campo devastado pelas hastes de dois veados rivais. Havia um sintoma terrível: no dia do enterro, no Cemitério dos Prazeres, Alípio aproximara-se de Guedes Navarro, e dissera-lhe:
– É uma grande desgraça. Mas enfim, le Roi est mort, vive le Roi! Creio que posso dar os parabéns a V. Exª.
E Alípio, com aquela frase hábil, esperava obter esta resposta–lógica, desde que havia compromissos formais – «também eu lhos posso dar, amigo Abranhos!»
Porém Guedes Navarro, em lugar dessa resposta natural, tivera apenas um vago encolher de ombros e dissera, recusando-se:
– Tudo depende de El-Rei... A vontade de El-Rei é que há-de dizer...
– Decerto, decerto – murmurou Alípio.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.