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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Tolices! - disse Luísa corando um pouco.

- Tolices! Por quê?

Ai! Era sempre com saudades que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciúmes! Que delírio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida!

- Nunca - exclamou -, nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pelaJoaninha!... Pois podes crer...

Um olhar de Luísa deteve-a. - A Juliana! Diabo! Tinha-se esquecido! Constrangia-se muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito chato, o tique-taque dos metálico dos tacões.

- E que foi feito da Joaninha? - perguntou Luísa.

- Morrera tísica - e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doença bem triste, não era? Masnão lhe tinha medo, ela! Batia no seio, bem formado:

- Isto é rijo, isto é são!

Juliana saiu, e Luísa observou logo:

- Vê no que falas, filha! Tem cuidado!

Leopoldina curvou-se:

- Ah! A respeitabilidade da casa! Tens razão! - murmurou.

E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação!

- Bravo! Está soberbo!

Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco toscado, abrindo em lascas.

- Tu verás - dizia ela. - Não te tentas? Fazes mal!

Teve então um movimento decidido de bravura, disse:

- Traga-me um alho, Sra. Juliana! Traga-me um bom alho!

E apenas ela saiu:

- Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me importa!... Ah! Obrigada, Sra. Juliana! Não hánada como o alho!...

Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau de um fio mole de azeite, com gravidade. - Divino! - exclamou. Tornou a encher o copo; achava aquilo uma pândega.

- Mas que tens tu?

Luísa com efeito parecia preocupada. Tinha suspirado baixo. Duas vezes, endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta:

- Parece que tocaram a campainha, vá ver.

Não era ninguém.

- Quem havia de ser? Não esperas teu marido, decerto.

- Ah! não!

E então Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito atenta, lascazinhas de bacalhau:

- E teu primo veio ver-te?

Luísa fez-se vermelha.

- Sim, tem vindo. Tem vindo várias vezes.

- Ah!

E depois de um silêncio:

- Ainda está bonito?

- Não está feio...

- Ah!

Luísa apressou-se a perguntar se tinha encomendado o vestido de xadrezinho? Não. E começaram a falar de toaletes, fazendas, lojas e preços... Depois, de conhecidas, de outras senhoras, de boatos - perdendo-se numa conversa de mulheres sós, miudinha e divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens.

Viera o assado. Leopoldina já ia tendo uma cor quente nas faces. Pediu a Juliana que lhe fosse buscar o leque; - e recostada, abanando-se, declarou que se sentia como um príncipe. E ia bebericando golinhos de vinho. Que boa idéia, jantarem juntas!...

Apenas Juliana dispôs os pratos de fruta, Luísa disse-lhe logo que chamaria para o café, que podia ir. Foi ela mesmo fechar a porta da sala, correr o reposteiro de cretone:

- Estamos à vontade, agora! Faço-me velha só de olhar para esta criatura! Estou morta por a verpelas costas!

- Mas por que a não pões na rua?

Jorge que não queria, senão...

Leopoldina protestou. Boa! Os maridos não deviam ter vontade!... Era o que faltava!...

- E o teu, então? - disse Luísa, rindo.

- Obrigada! - exclamou Leopoldina. - Um homem que faz quarto à parte!...

De resto detestava os homens que se ocupam de criadas, de róis, de azeites e vinagres...

- Que lá o meu cavalheiro até pesa a carne! - Sorriu, com ódio. - Também é o que vale, senão!... Eu só de ir à cozinha me dão enjôos...

Quis deitar vinho, mas a garrafa estava vazia.

Luísa acudiu:

- Queres, tu champanhe? - Tinha-o muito bom, que o mandava a Jorge um proprietário deminas.

Foi ela mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a do seu papel azul; - e com risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as; olhavam os copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se de saber abrir muito bem o champanhe; falava vagamente de ceias passadas...

- Em terça-feira gorda, há dois anos!...

E toda recostada na cadeira, com um sorriso cálido, as asas do nariz dilatadas, a pupila úmida, olhava com sensualidade os globulozinhos vivos que subiam, sem cessar, no copo esguio.

- Se fosse rica, bebia sempre champanhe - disse.

Luísa não, ambicionava um cupê; e queria viajar, ir a Paris, a Sevilha, a Roma... Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos: invejava uma larga vida, com carruagens, camarotes de assinatura, uma casa em Sintra, ceias, bailes, toaletes, jogo... Porque gostava do monte. - dizia fazia-lhe bater o coração.

(continua...)

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