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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

De repente Rytmel deu um pequeno grito: descuido, movimen to, ou irreprimívelimpulso de um coração que se revela, Rytmel deixara cair a pequena chávena ao tanque, entre as folhas dos ne núfares. A condessa ergueu-se, extremamente pálida, apertando com ambas as mãos o coração: e com os olhos marejados de lágrimas, disse para Rytmel:

— O rei de Tule ao menos esperou que ela morresse!Ele desculpava-se banalmente, como se todo o mal fosse per der-se aquela frágil preciosidade de Sevres. A condessa deu-me o braço um pouco trémula, e penetrámos na sala. Daí a dias foi a catástrofe. Outros que a contem. Eu deponho aqui a minha pena, com a consciência de que ela foi sempre tão dig na, quanto a minha intenção foi sincera .

AS REVELAÇÕES DE A. M. C.

I

Senhor Redactor. — Dirigindo-lhe estas linhas, submeto-me à sentença de um tribunalde honra constituído para julgar a questão levantada perante o público pelas cartas do doutor *** estampadas nessa folha. Obriguei-me a referir quanto se passou por mim como actordesse doloroso drama, e venho desempenhar-me deste encargo. Possam estas confidências, escritas com o mais consciencioso escrúpulo, conter a lição que existe sempre no fun do de uma verdade! A existência íntima de cada um de nós é uma parte integrante da grandehistória do nosso tempo e da humani dade. Não há coração que, desvendado nos seus actos, não ofereça uma referenda ou uma contestação aos princípios que regem o mundo moral.Quando o romance, que é hoje uma forma científi ca apenas balbuciante, atingir o desenvolvimento que o espera co mo expressão da verdade, os Balzacs e os Dickens reconstituirão sobre uma só paixão um carácter completo e com ela toda a psico logia de umaépoca, assim como os Cuviers reconstituem já hoje um animal desconhecido por meio de um único dos seus ossos.Sabem que sou natural de Viseu. Criei-me numa aldeia encra vada entre dois montes da Beira; açoitado de quando em quando por meu pai quando lhe esgalhava alguma árvore mimosa do quin teiro; abençoado por minha mãe como a esperança dos seus velhos anos;coberto de profecias de glória, como o pequeno Marcelo clã freguesia, pelo reitor, o qual algumas vezes depois de lhe ajudar à missa, aos dez anos de idade, me argumentava na sacristia as de clinações latinas. Era escutado este prodígio por um auditório composto dosacristão e do tesoureiro, que com os chapéus debai xo do braço, cocavam na cabeça e olhavam para mim arregalados e atónitos. A um recanto, minha mãe sorria, com os olhosbanhados de ternura, do fundo da caverna formada em redor do seu ros to pela coca de uma ampla e poderosa mantilha de pano preto.

Fiz depois os estudos preparatórios no liceu da cidade, e vim fi nalmente matricular-meem Lisboa na escola de medicina.

Vivo pobre, humilde e obscuramente, tenho a minha existência adstrita a uma pequenamesada, à convivência de alguns companheiros de estudo e ao trato de duas senhoras velhas e pobres, ir mãs de um capitão reformado, antigo aboletado de meu pai, em cu ja casa d e hóspedes eu tenho por módico preço a minha moradia na capital.A única luz que atravessava a sombra da minha vida de dester ro, de desconsolo e de trabalho, era a lembrança de Teresinha...Teresinha! A doce, a meiga, a querida companheira, à qual eu consagro principalmente estas páginas, que são o capítulo único da minha vida que ela não conhece, a confissão sincera, a história completa do único erro de que posso acusar-me perante a sua ino cência, asua bondade e o seu amor!

Teresinha! Adorada flor escondida entre as estevas dos nossos montes, que ninguémconhece, que ninguém viu, de quem nin guém se ocupa, e que no entanto inundas inefavelmente a minha mocidade e a minha vida com o sagrado perfume de um amor cas to, puro, imperturbável e calmo como a luz das estrelas.Se tu as entenderás, minha inocente amiga, estas palavras!



(continua...)

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