Por Lima Barreto (1909)
Raul Gusmão, com aquela covardia moral que o caracterizava, logo que o soube tão relacionado nas Laranjeiras, com influência entre os colegas, falando familiarmente com deputados e senadores — gente influente para a glória e tudo o mais — começou a elogiá-lo pelo seu jornal. O Binóculo não cessava de acusar-lhe a passagem pela Rua do Ouvidor: o doutor Deodoro Ramalho, o fino conteur do O Globo. E ele, por sua vez, ecoava no jornal de Loberant: “o nosso amigo Florêncio Silva, cujo temperamento tumultuário foi um belo espetáculo para a geração atual, acaba, etc., etc.”.
E assim se foi fazendo uma celebridade, homem notável, admirado nos salões e houve (ele disse uma vez na redação) uma moça que o achou de qualquer modo parecido com o Pierre Weber, no estilo e na fisionomia. Ele perguntou então ao Floc quem era esse tal Weber.
— Oh! Não conheces?! É uma celebridade ultraparisiense, “parisianíssima”... Só lá pode haver destas... Nada de calhamaços, de coisas pantafaçudas e solenes; ligeireza, gauloiseries, um quase tudo e um quase nada, como disse alguém... É dos cinco reis do espirito francês atual: ele, o Tristan Bernard, o Courteline, o Alphonse Allais... Nunca leste — Vous m'en direz tant — dele e do Tristan Bernard?
— Nunca.
— Pois é preciso... Vocês levam-se voltados para o calhamaço, têm a mania livresca, e não conhecem a verdadeira literatura francesa... É o papá Flaubert e o vovô Hugo...
E, durante todo o seu curso, o jovem Deodoro Ramalho desovou contos, artigos, folhetins e tirou dezenas de distinções na Faculdade de Medicina. Na escola, as distinções vinham-lhe do seu prestigio de jornalista; no jornal, a sua superioridade partia das suas distinções na escola.
No dia do crime, porém, o diretor não poupou o seu folhetim engraçadíssimo. Ordenou que não saísse, pois queria página e meia sobre o crime; que se inventasse, que se dessem os menores pormenores, as suspeitas mais desarrazoadas; que se fizesse o histórico de Santa Cruz e da Estrada de Ferro Central do Brasil. Fosse com que fosse, ele queria página e meia e cinco mil exemplares para a venda avulsa.
Dividido o serviço, cada um dos repórteres e redatores ficou encarregado de uma parte das muitas em que se dividiu a notícia do crime sensacional. A primeira página, a página sagrada dos conselhos sisudos do austero Aires d'Ávila, da alta literatura do Veiga Filho, do ciciar amoroso da velha Pilar, foi literalmente cheia com o histórico de Santa Cruz (coluna e meia), a “cabeça” de Caxias, os retratos de Dom João VI, da rainha Dona Carlota, de Dom Pedro I, de José Bonifácio, do Visconde de Cairu. Os cadáveres, além das suas fotografias, vinham descritos com muita minúcia e larga fantasia e não se esqueceram de informar também que junto a eles havia fragmentos de “grés”, granito em decomposição, mas, “grés”, segundo a petrografia jornalística.
Os dicionários, os manuais, os indicadores de toda a sorte, andavam de mão em mão. A redação trabalhava sofregamente, quando veio interrompê-la no afã o jovem doutor Franco de Andrade, grande prêmio da Faculdade da Bahia, literato, alienista e clinico ao mesmo tempo. Viera na comitiva de um ministro baiano e já possuía quatro empregos. Além de lente substituto, era médico do Hospício, legista da Policia e subdiretor da Saúde Pública. Escrevera um volume de poesias místicas e espalhava nas aulas o mais vulgar materialismo. Era idealista em verso; em prosa, positivista. Com isso, era dono de umas maneiras delicadas, de uma amabilidade que cativava as redações em peso. Penetrou na sala sorridente, dizendo uma pilhéria a um, fazendo uma pergunta a outro. Alguém perguntou a sua valiosa opinião sobre o crime; o extraordinário sábio não se fez de rogado:
— Penso que o exame médico-legal não se deve limitar a uma simples autópsia... Convinha que se o fizesse mais amplo... A exemplo do que se procede na Índia, onde a confusão de raças é imensa e, portanto, a raça é um bom dado para identificar, seria bom que se fizessem mensurações antropológicas...
— Sem a cabeça, é possível doutor? perguntou Losque.
— Perfeitamente.
E o grande prêmio da Bahia, alternativamente Maeterlinck, Charcot e Legrand du Saule, tomou uns ares doutorais como convinha, e continuou:
— O professor Broca indicava trinta e quatro mensurações de primeira ordem; Topinard era de opinião que havia dezoito necessárias e quinze facultativas; mas Quetelet, na sua Anthropométrie, exige quarenta e duas.
A redação estava embasbacada. Todos deixaram de escrever para ouvir o sábio moço. O jovem medalhado passeou um instante pela sala o seu imenso olhar cheio de apetites e ambições, e emendou:
— Dessas, muitas são tomadas nos membros e no tronco: o talhe, a bacia, o fêmur, etc., etc. Demais, ainda se têm outros dados auxiliares: a seção dos cabelos, o exame microscópico do pigmento... Um operador hábil pode com tais meios indicar perfeitamente a raça e a sub-raça do indivíduo...
No dia seguinte, o jornal desenvolvia os conselhos do jovem e notável doutor Franco de Andrade; e a medida era tão sábia que, no mesmo dia, o chefe de polícia escalava-o para fazer o serviço médico-legal, exigindo-lhe o estudo antropológico dos cadáveres.
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.