Por Coelho Neto (1906)
Mamede andava infeliz, pedia-lhe dinheiro, deixava-o só com a rapariga horas e horas, como se a entregasse, e ela, sempre risonha, toda se lhe rendia, dengosa, retribuindo-lhe os beijos, falando-lhe em tom de queixume, d'olhos amortecidos, lânguida. Não, aquilo não podia continuar. O melhor era tomar um cômodo ali perto, na Lapa; o mulato que se arranjasse! e riu, antegozando a vitória daquela traição. Demais, Ritinha já lhe havia confessado que não gostava de Mamede — vivia com ele por viver; era um bruto, principalmente quando bebia. Às vezes entrava em casa cambaleando, nojento. E eram sempre amofinações, desassossego, vergonhas: gente à porta a reclamar dinheiro, ameaças de denúncias, rusgas com os vizinhos, um inferno! Não era homem para ela.
Voltou-se na cama, com um travesseiro entre os braços, fechou os olhos e ficou a balançar a perna, gozando a tepidez dos lençóis. Como seria feliz se ela ali estivesse, muito chegada ao seu corpo, enlaçando-o com os braços, excitando-o com a umidade quente da sua boca, falando-lhe baixinho, em arrulho amoroso, toda dele, nua e insaciável, fazendo-se pequenina, mimosa, para que ele a levantasse, beijasse, despertando-a do torpor lúbrico em que ficava, com um sorriso parado, olhos enlanguescidos, os braços abertos e abandonados, os peitos empinados, rígidos de sensualidade.
O mar estourava d'encontro às pedras do cais, e, de quando em quando, com um rumor que crescia e morria, tiniam campainhas de bondes.
Adormeceu por fim e teve sonhos bizarros. Acordou, de repente, pensando em ladrões. Abriu muito os olhos na treva, pôs-se a tatear procurando a caixa de fósforos. Sentia gente no quarto, ouvia passos surdos, distinguia vagamente um vulto junto à porta. Riscou um fósforo e, ao trêmulo vislumbre, relanceou espavoridamente o olhar pelo aposento: a porta estava fechada. Para maior segurança levantou-se, deu volta à chave. Lá fora só havia o estrondo das ondas. E impaciente, ansioso pela manhã, querendo desforrar-se da timidez da véspera, suspirou rolando na cama que o seu corpo aquecia.
Eram dez horas da manhã quando acordou com a cabeça pesada, como se houvesse bebido copiosamente na véspera. Pareceu-lhe ouvir vozes na sala.
Levantou-se, pé ante pé, encostou-se à porta, cujos vidros tinham uma empanada de metim vermelho, e reconheceu a voz esganiçada do Fábio. Murmurou entredentes: "Canalha!" e ficou à escuta, muito interessado.
Dona Júlia defendia-o: "Que sim, ela mesma lembrara aquele recurso. Ele estava desempregado, fizera grandes despesas, por isso, coitado! recorrera a um amigo. A quem havia ele de pedir?" O velho interrompeu-a: "Pois sim, mas por que não fora ele mesmo ao Engenho Novo? Não — mandara Mamede, um
vagabundo..."
— Vergonha, compadre.
— Qual vergonha! Orgulho, tolices...
— É vergonha, compadre. Depois do que aconteceu ele tem vergonha de aparecer a todos os conhecidos. Eu mesma, o senhor vê? eu mesma não procuro ninguém, meto-me no meu canto, curtindo calada os meus desgostos. Deixe lá, compadre! — suspirou enclavinhando as mãos.
Paulo mal distinguia os dois vultos como sombras levemente esfumadas numa tela. Rilhava os dentes. O seu desejo era escancarar a porta, entrar arrebatadamente na sala, atirar-se ao velho às bofetadas.
Parecia um senhor a repreender uma escrava. Revoltava-se contra a paciência humilde de Dona Júlia. Devia ser mais enérgica, devia repelir o idiota. Repentinamente o coração bateu-lhe com força. Chegou-se mais à porta: a velha rejeitava o dinheiro que o compadre oferecia.
— Não, obrigada. Sempre é uma dívida e eu agora não sei quando poderei pagar. Ele arranjou. Fez-se silêncio. Orgulho? Pobre de mim! Se eu dantes não tinha, quanto mais agora. Arranjou, palavra! — Então... resmungou o velho.
E Paulo, satisfeito, ria acenando de cabeça, a aplaudir. Endireitou-se, de mãos nos rins, cansado da posição que mantivera. Sentou-se a mesa com muito cuidado e, tomando o lápis, recomeçou os cálculos pensando em números da roleta.
Longe, a sereia de um paquete reboava soturna. Ficou a encher de somas as folhas de papel rabiscadas até que ouviu a porta da rua guinchar e a voz do Fábio, a despedir-se. Pouco depois Dona Júlia bateu no vidro, chamando-o.
— Já vou. — Enfiou apressadamente as calças e, em mangas de camisa, arrastando chinelas, saiu do quarto, dizendo logo, com ódio:
— Veio falar de mim, essa besta...
— Não, não falou.
— Ora! não falou... Eu ouvi tudo, mamãe.
— Ficou aborrecido porque mandaste Mamede.
— Sim... Queria que eu fosse para pregar-me um dos tais sermões. A senhora fez bem em não aceitar o dinheiro. Que o guarde, não precisamos de esmolas. Pensava, sem dúvida, que íamos morrer à mingua. A mim é que ele não engana. — E foi caminhando para a sala de jantar.
O dia estava enevoado e triste; o ar frio picava. Paulo, a olhar o quintalejo, esfregava os braços voluptuosamente e, quando Felícia apareceu com o café, sentou-se trincando o pão com apetite. Cantavam na vizinhança e a voz, fresca e aguda, vibrava em trilos alegres.
— Onde estão os jornais?
— Em cima da mesa, — disse Felícia do corredor.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.