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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Aves inteiras saltavam das travessas; os leitões, à unha, hesitavam entre dois reclamos igualmente enérgicos, dos dois lados da mesa. Os criados fugiram. Aristarco, passando, sorria do espetáculo como um domador poderoso que relaxa. As garrafas, de fundo para cima, entornavam rios de embriaguez para os copos, excedendo-se pela toalha em sangueira. Moderação! moderação! clamavam os inspetores, afundando a boca em aterros de farofa dignos do Sr. Revy. Alguns rapazes declamavam saúdes, erguendo, em vez de taça, uma perna de porco. À extremidade da última das mesas um pequeno apanhara um trombone e aplicavase, muito sério, a encher-lhe o tubo de carne assada. Maurílio descobriu um repolho recheado e devorava-o às gargalhadas, afirmando que era munição para os dias de gala. Cerqueira, ratazana, curvado, redobrado, sobre o prato, comia como um restaurante, comia, comia, comia como as sarnas, como um cancro. Sanches, meio embriagado, beijava os vizinhos, caindo, com os beiços em tromba. Ribas, dispéptico, era o único retraído; suspirava de longe, anjo que era, diante dos reprovados excessos da bacanal.

Em meio do tumulto ebrifestante, ouviram-se palmas. À cabeceira da mesa principal, apresentavam-se de pé Aristarco e o empertigadinho e cúprico Professor Venâncio. Era a poesia! Venâncio de Lemos costumava improvisar, mais ou menos previamente, estrofes análogas nas festas campestres...

Outros professores, que tinham concorrido ao piquenique, davam-se à faina grosseira de jantar. Ele, não.

Havia um quarto de hora que andava misteriosamente por uma aléia de bambus, esfiapando as barbicas, a gaforina, palpando a testa, arrancando inspiração ao couro cabeludo, passando, nervoso, repassando, espiado furtivamente pela nossa admiração. Ninguém ousava acercar-se, temendo perturbar a elaboração do gênio.

Muxoxos adoráveis das brisas, que andais pela mata, gemedoras fontes, que desfiais à toa as lágrimas de vossos penares, amáveis sabiás cantores, que viveis de plantão na palmeira da literatura indígena, sem que vos galardoe uma verba da secretaria do império, vinde comigo repartir o segredo do vosso encanto! Sedutoras rolinhas, um pouco da vossa ternura! Vividos colibris, a mim! que sois como os animados tropos no poema frondoso da floresta... E as inspirações vieram. Primeiro, cerimoniosamente, à altura, volteando espirais de urubu sobre a carniça; depois, de chofre, caindo-lhe às bicadas sobre o estro. O estro entorpecido acordou. Fez-se hipogrifo um asno morto. O poeta foi registrando as estrofes.

Quadras de rima fácil de particípios, espancados pelo camartelo contundente dos agudos.

Sustou-se em toda a linha o furor gastronômico dos rapazes. Ficamos a ouvir, surpresos.

Murmuraram as brisas; as fontes correram; tomaram a palavra os sabiás; surgiram palmeiras em repuxo; houve revoadas de juritis, de beija-flores; todas essas coisas, de que se alimentam versos comuns e de que morrem à fome os versejadores. Súbito, no melhor das quadras, exatamente quando o poeta apostrofava o dia sereno e o sol, comparando a alegria dos discípulos com o brilho dos prados, e a presença do Mestre com o astro supremo, mal dos improvisos prévios! desata-se das nuvens espessadas uma carga-d’água diluvial, única, sobre o banquete, sobre o poeta, sobre a miseranda apóstrofe sem culpa.

Venâncio não se perturbou. Abriu um guarda-chuva para não ser inteiramente desmentido pelas goteiras e continuou, na guarita, a falar entusiasticamente ao sol, a limpidez do azul.

Não querendo desprestigiar o estimável subalterno, Aristarco fingia acreditar no improviso e, indiferente, deixava cair o aguaceiro. As abas do chapéu de palha murchavam-lhe ao redor da cabeça, o rodaque branco desengomava-se em pregas verticais gotejantes.

Para os rapazes a chuva foi novo sinal de desordem. Deixou-se o poeta com a sua inspiração arrebatadora de bom tempo; recomeçou a investida aos pratos.

A abóbada de folhagem que nos cobria, em vez de atenuar a violência das águas, concorria para fazer mais grossos os pingos. Pouco importava. A filosofia impermeável do diretor servia-nos também de capa. Que chovesse! Era o molho dos manjares que nos faltava. As frutas lavadas luziam com um verniz de frescura que o próprio outono não possui. O vinho estendia-se pela toalha encharcada numa generalização solene de púrpura. O banho oportuno do banquete vinha temperar a demasiada aridez das farinhas de recheio. “Acabamos pela sopa, descobriu Nearco, o penetrante, por onde o vulgo principia!”

Qual acabávamos! Ninguém acabou. Sucedeu que, com os fundilhos molhados, ninguém quis mais sentar-se. Girou o atropelo ao redor das mesas; os bancos foram repelidos a pontapés. Repartia-se o doce sem eqüidade; quem não avançava a tempo ficava sem ele. Dois inspetores, João Numa e o Conselheiro, a pretexto de decidir uma contenda, arranjaram-se com uma caixa de pessegada e desapareceram.

A chuva desculpava a bebida. Era inacreditável o consumo de brindes. Brindes a Aristarco, brindes aos companheiros, ao Silvino, ao poeta, ao sol, aos temporais, ao trovão escandinavo; inimigos figadais, no transporte do prazer, reconciliaram-se; Barbalho saudou-me fogosamente. Rômulo, já tonto, afastado das mesas, brindava o copeiro que lhe arranjara uma garrafa; depois brindou a noiva; o criado, bebendo também, tocou-lhe o copo.

Como escurecia, o diretor fez o clarim chamar à forma.

Debaixo do aguaceiro que não cessava, o colégio alinhou-se como bem pôde. Muitos, queixando-se de saúde delicada, obtiveram dispensa desta inoportuna disciplina de equilíbrio; seguiram adiante para o portão abrigado do jardim... Após, fomos os outros, em marcha regular, pingando de molhados. A fita vermelha dos gorros desbotava-se-nos pelo rosto em fios sangüíneos.

(continua...)

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