Por Adolfo Caminha (1893)
— Mais nada, passei bem a noite.
João tomou-lhe o pulso com carinho.
— Pois bem, vista-se e vamos. Amanhã pode ir até à escola, não é assim?
E, noutro tom:
— Não vale a pena a gente se amofinar por qualquer coisa, filha. A vida é isto mesmo — andar para adiante sempre com cara alegre. Vamos, vá se vestir.
Ainda não tinha dado meio-dia no pêndulo. Maria foi ao quarto, abriu baús, mais consolada, escolheu o melhor dos seus vestidos de cretone, um azul de riscados brancos, em pouco saiu ao lado do padrinho, traçando o fichu, sem dar palavra a D. Terezinha.
Ninguém na rua do Trilho, deserta àquela hora como uma rua de aldeia.
Seguiram para a Praça do Ferreira a tomar o bonde de Pelotas. Pouca gente na praça ensombrada por suas enormes mungubeiras. Dois sujeitos, sentados um defronte do outro, jogavam silenciosamente o dominó no Café Java. Às portas da Maison Moderne famílias esperavam os bondes em pé, silenciosas, com ar de infinito aborrecimento. Dentro jogava-se bilhar. Muitas pessoas rodeavam uma das mesas para ver jogar o presidente, que, em colete, escanchado num ângulo da mesa, calculava o efeito das bolas. Maria teve um estremecimento ao vê-lo. Certo o Zuza também andava por ali... Instintivamente procurou-o com o olhar, mas ninguém que se parecesse com o estudante. O José Pereira tomava cerveja a um canto mais o Castrinho.
Os bondes iam chegando uns atrás dos outros, enfileirados.
Antes de subir para o de Pelotas, Maria lançou um último olhar à sala dos bilhares. O José Pereira sem o Zuza! Era realmente assombroso!
Mas daí a pouco o bonde rodava outra vez caminho do Benfica, e invadiu-lhe o coração uma melancolia sem causa, uma tristeza vaga que lhe deu vontade de estar só, de voltar à casa.
Lídia veio receber a amiga de braços abertos, muito alegre, de branco, com papelotes no cabelo e sandálias de cetim. — Ora, até que enfim! Já não a esperava mais, Sra. D. Maria. Noiva de fidalgo... pudera!
— Não diga isso, minha negra, não vim há mais tempo porque tenho andado adoentada. Tu não imaginas...
Cobriram-se de beijos.
Lídia mandou-os entrar para a sala de visitas.
— Como vai D. Terezinha, Sr. João? perguntou maliciosamente escancarando as janelas.
— Bem, respondeu o amanuense num tom seco, pondo o chapéu sobre uma cadeira. E logo: — Homem, isto está que nem um paraíso!
— Qual paraíso! Está nos debicando?...
— Não senhora, longe de mim tal pensamento. O que digo é a verdade: O Loureiro preparou isto à fidalga!
E ia examinando, através dos detestáveis óculos escuros, os quadros, o papel da sala, o piano, os bibelôs, com uma curiosidade infantil, estendendo o olhar de vez em quando até o interior da casa disfarçadamente.
Maria tinha-se sentado no sofá e por sua vez confirmava a admiração do amanuense. — Sim senhora, tudo muito bem arranjadinho, muito chique...
— Vejam só, vejam só a graça! repetia a outra, sentando-se ao lado da amiga.
“E o Sr. Loureiro, como ia?” inquiriu Maria.
— Bem, menina, muito atarefado com o emprego. É uma vidinha cansada, esta de guarda-livros. O Loureiro, coitado, não tem sossego de espírito. Vive na loja e ainda por cima trabalha em casa. Um horror! Tu é que estás magrinha; estou te achando tão abatida, tão pálida...
— Saudades tuas...
— Saudades, eu sei de quem...
Riram.
— Agora é que reparo, continuou Lídia muito amável, tira o fichu e vamos ver a casa.
E levantando-se:
— Preciso conversar muito contigo. Já não te lembravas de mim, hein?... Sr. João tenha a bondade de esperar um pouquinho — o Loureiro não tarda: está às voltas com a papelada.
— Oh! minha senhora...
João da Mata deliciava-se a observar os quadros e as estatuetas de terracota, de mãos para trás, como se estivesse numa exposição. Depois chegou à janela por onde entrava um arzinho puro impregnado de essência de resedás. Defronte enchia a vista o verde sombrio duma esplêndida floresta de cajueiros onde oscilavam pequenos pontos amarelos e vermelhos quebrando a monotonia da paisagem larga e igual, batida de sol. O palacete azul do Loureiro perdia-se num fundo de verdura. À direita, lá longe, na esquina de um grande sítio, passava a linha de bonde. E que frescura! Dava vontade à gente pecar muitas vezes por dia, como Adão no Paraíso, ali, assim, naquele pedacinho do Ceará, sem seca e sem política, entretendo relações sentimentais com a natureza agreste e sincera.
— Bom para se copiar um balanço, isto aqui, costumava dizer o ingênuo guarda-livros.
João pôs-se a contemplar, com um enlevo nalma, toda essa poesia selvagem iluminada por um sol implacável. De súbito:
— Olá, seu Mata, como vai você? Que milagre foi este?
Era o guarda-livros, em chinelos, calça branca e paletó de seda amarelo. João voltou-se.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.