Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Um brinde! gritou Casusa, levantando-se e suspendendo o copo à altura da cabeça. Ao belo madamismo maranhense, que hoje nos honra!

— Hup! Hup! bangüê!

— Aproveito a ocasião, meus senhores, para agradecer o obséquio que me fazem, e à minha sogra, comparecendo a esta nossa velha festa da família!

Era Manuel que falava. Seguiu-se um inferno de vivas e hurras que se prolongaram em medonha berraria. Os caixeiros do autor do brinde, já um pouco

eletrizados pelo vinho, gritaram familiarmente: “Viva o Manuel!” Houve uma voz indiscreta que gritou: - Manuel Pescada.

Mas restabeleceu-se a ordem, e só se ouvia, além do rumor dos talheres e dos queixos, a voz avinhada do Cordeiro, que gritava para a sua vizinha da direita com uma solicitude exagerada:

— Beba! beba, D. Amancinha! Ataque-lhe pra baixo, que é o que se leva desta vida!

E batia-lhe no ombro, revirando os olhos, em que o álcool pusera faiscas.

— Credo! O senhor quer m'embebedar?!...

E, como o Cordeiro insistisse em servi-la de Lisboa, Amância retirou o copo e o vinho derramou-se-lhe no prato, pela mesa e sobre as pernas.

— Ui! fez ela, arredando súbito a cadeira, e gritou: — Que selvageria, Virgem Santíssima!

— Farinha! Farinha seca, D. Amância! Farinha seca! receitavam de todos os lados.

O Cordeiro, já pronto, tomou a cuia da farinha e despejou-a em cheio sobre a pobre velha, que entrou a tossir muito sufocada. Foi um gargalhadão geral e prolongado.

— Cruzes! Valha-me Deus, com os diabos! berrou Amância, quando pôde falar, e a sacudir-se toda, muito enfarinhada Arre! Aqui mesmo não me sento mais!

— Vem cá, pro meu lado, perdição! dizia Casusa, convidando Amância entre o riso da mesa inteira

— Se a farinha e o antídoto cure-se agora com este! aconselhou Raimundo por pilhéria.

— Até você?! esbravejou Amância, cega de raiva. Ora mire-se! Quer um espelho?!...

— Preferia uma escova, minha senhora, para limpar-lhe a roupa

As gargalhadas repetiam-se já sem intervalo, contagiosamente, sem precisar de mais nada para as provocar.

— Vinho derramado — sinal de alegria! decidiu Freitas, preocupado a esbrugar uma canela de frango, sem querer lambuzar os bigodes.

Serviu-se a sobremesa e reformou-se a bebida. Veio Porto em cálice.

— Uma saúde! exigiu Cordeiro, mal podendo ter-se nas pernas.

Criou-se logo silêncio, em que se destacavam estas frases:

— Mau!... Temos carraspana?...

— Cabeça fraca de rapaz!...

— Esse bruto a teima em beber! Forte birra!

— Diabo do homem não pode ir a parte alguma!

— Vai já tudo isto raso!

— Pscio... pscio!...

— Meus senhores... e minhas senhoras, de ambos os sexos! Eu vou beber à saúde do melhor... sim! do melhor por que não?! do melhor patrão que todos nós temos tido, aquele que está me olhando, o Manuel Pescada!

Houve um sussurro de repreensão.

— Ou da Silva! emendou o orador. É um homem sem aquelas! E um mel!...

para um serviço... quer dizer, quando a gente precisa dele pode falar, que é o mesmo! Mas...

O sussurro aumentou.

— Cale-se! dizia baixo o Vila Rica, a puxar o paletó do Cordeiro. Cale-se com os diabos! Você está servindo de bobo!

— Mas! berrou o espingardeira, sem fazer caso das advertências do colega, o que eu não posso admitir, é a porção de picardias e desaforos, que ele me está a fazer constantemente!...

O sussurro transformou-se em um coro de protestos, que apagava os berros do orador; as mocas atiravam-lhe bolas de miolo de pão; Manuelzinho, muito vermelho, possuía-se de uma hilaridade excepcional; Vila Rica puxava com ambas as mãos o paletó do Cordeiro.

— Solte-me! roncou este. Solte-me, com todos os diabos! ou vou-lhe aos queixos! Meta-se lá com a sua vida, e deixe-me, quero desabafar! Sebo! Não me calo, entende?! Não me calo, porque não quero! não me calo! não me calo! — Sim!

continuou em tom de discurso, não admito os seus desaforos!... Ainda outro dia...

— Viva o Manuel! gritou um.

— Vivô! respondia o coro.

— Seu Manuel! à sua!

— A sua!

— Hup! hup! hurra!

— Bangüê! gritou Cordeiro, e quebrou o copo na mesa é de quebrar.

— Só se fosse a tua cabeça, grandíssimo borracho! resmungou o Sena, muito maçado.

— Atenção! atenção, meus senhores!...

Em a voz do Faísca, acompanhada de palmas.

— Atenção!

E tirou da algibeira uma folha de papel.

Fez-se algum silêncio, e o Faísca, depois de puxar os punhos, começou a falar, com uma voz aflautada, cheia de afetações e com a minuciosa dos míopes; a cabecinha inquieta muito arrebitada, os olhos esticados, procurando alcançar o vidro das lunetas; a boca aberta e as ventas distendidas.

— Meus senhores!... Em tal dia... eu não podia deixar de fazer... uma poesia!...

— É verso! E verso! declarou Bibina, a bater palmas, contente.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5253545556...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →