Por Franklin Távora (1879)
Uma tarde, Virgínia subiu banhada em lágrimas ao aposento de Maurícia. Esta foi ao seu encontro sobressaltada e aflita. A menina trazia na mão um jornal, onde vinha publicado, entre as notícias no Norte, a de ter sido assassinado Bezerra na Paraíba, num ajuntamento de povo, por ocasião de uma festa de arraial. Dera lugar ao homicídio a represália de Bezerra a uma provocação de um valentão afamado que bulira com Janoca. Não era duvidosa a notícia. O fato estava narrado pelo miúdo, e os nomes não deixavam a menor incerteza. No fim de um mês, a dor de Virgínia estava curada e para Maurícia começaram a raiar os alegres dias. Quando pela primeira vez depois da lúgubre notícia, elas pôs as mãos ao piano para tocar, foi uma música de escolhidas harmonias, que rebentou em notas animadas, daquele gigante cofre de suas predileções.
Estava neste momento presente uma senhora de sua amizade que lhe pediu cantasse. Maurícia cantou um dos mais belos pedaços do seu repertório. A felicidade voltara ao seu espírito; astro risonho começara a surgir acima do horizonte de seu coração, onde tinha reinado até então merencórias sombras. “Eu vos agradeço, meu Deus, a misericórdia que tivestes para mim”, dizia ela consigo nos longos solilóquios a que costumava entregar-se no aposento. Mas a felicidade não devera ficar somente na liberdade. Ela possuía certamente, o amor que lhe consagrava Ângelo. O pensamento de ser venturosa com ele rebentou pujante. Fora contrariado por suas declarações, que ele tomara a resolução de exilar-se para o centro da província. Tudo, pois, a levava a acreditar no sentimento do bacharel a seu respeito. Por isso, não podendo mais resistir ao mais natural desejo de ser feliz, assentou de escrever-lhe para que voltasse ao Recife, onde poderiam realizar o seu sonho de tantos meses.
Estava já com a pena na mão, quando vieram dizer-lhe que duas senhoras queriam falar-lhe. Maurícia desceu. e qual não foi a sua surpresa deparando-se Sinhazinha e D. Sofia, que vinham dar-lhe condolências pela morte de Bezerra.
Sinhazinha estava pálida, e quase disforme. A dor moral fizera da sua juventude uma ruína. Abraçando-se com Maurícia, a menina não pode suster as lágrimas.
— Oh! a amizade na terra é uma ilusão! Não há amizade verdadeira. O que se apresenta com este nome não passa de vã cortesia que praticam pessoas de educação.
— Não é tanto assim, Sinhazinha.
D. Sofia deu força ao pensamento da filha, acrescentando algumas palavras acerbas.
Foi curta a visita. Ao sair, Sinhazinha, por palavras impregnadas de ressentimento, deu a entender que suspeitava o amor de Maurícia, e que esse amor era o inimigo do seu. Maurícia, sem saber a princípio o que responder, pode, enfim, defender-se, dizendo que Sinhazinha estava enganada; que ela já não era para isso; que só na prosperidade de Virgínia fazia consistir a sua, nem queria outra ainda que lhe fosse fácil alcançá-la.
Maurícia subiu ao seu aposento, levando inesperadas amarguras na alma. Tinha passado alguns dias nos braços de uma ilusão inefável; algumas manhãs haviam surgido cheias de luzes e visões feiticeiras aos seus olhos; algumas noites tinha levado em claro, enamorada dos castelos, que a esperança lhe levantara na imaginação. Mas tudo caía por terra. A presença da filha de D. Sofia, seu emagrecimento, sua tristeza, seu desânimo, suas queixas, suas lágrimas, tinham destruído, como se fossem vendavais, as flores que estas manhãs se mostraram toucadas, como as jovens de Anacreonte. Por uma singular generosidade de sua alma, Sinhazinha se lhe afigurou uma segunda filha. O sentimento maternal que lograra alcançar a felicidade para Virgínia, ela o sentiu despertar no coração para favorecer aquela desconsolada menina, cujas qualidades morais tinha na melhor conta. Doeu-lhe que fosse ela que concorresse de qualquer modo para destruir o futuro da meiga criatura e aos seus próprios olhos envergonhou-se de pensar em ser feliz à custa do amor dessa mulher que no mais apertado transe procurara a sua proteção. Pareceu-lhe que, se levasse por diante a resolução, nenhuma senhora de sua amizade, ninguém que a conhecesse teria para ela outro epíteto que o de pérfida! Esta ordem de idéias acovardou Maurícia. Há, ainda, posto que sejam raros, como era o dela, caracteres que rejeitam riqueza, brilho, prazeres da vida, se para a aquisição de tais bens se exigir que eles sujeitem a uma imputação menos digna, que seria o seu perpétuo tormento, a sua túnica de Nesso.
Quando as suas vistas caíram sobre o papel, que ainda estava aberto na mesa, ela sentiu que os olhos se lhe arrasavam de lágrimas. Se a visita de Sinhazinha se realizasse no dia seguinte, ou talvez algumas horas depois, a carta teria seguido já os eu destino, e ela lograria, talvez, o que sonhava; mas a fatalidade, que a perseguia de há muito nãos e esquecera dela ainda esta vez.
Maurícia sentou-se defronte do papel
— Que devo fazer? — perguntou a si mesma. Devo escrever, ou devo, ao contrário, renunciar para sempre a esperança de ter completa na terra a mais nobre ambição de minha alma?
Passou alguns momentos em aflitiva hesitações, muda, o olhar gelado sobre a página branca. Sinhazinha não lhe saía da pensamento.
Quando estava nesta perplexidade, Virgínia entrou e começou a falar-lhe sobre o depauperamento e a tristeza da amiga.
— Mamãe, sabe por que é que Sinhazinha está assim?
— Por que é? - interrogou Maurícia por demais.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.