Por Franklin Távora (1878)
- Ora qual, seu comandante. eu também estou doido por ver a minha gente.
A noite estava fria, mas clara. A solidão era profunda, e o mato, onde como fogos fátuos, luziam interpoladamente os pirilampos, soturno e medonho.
Mas por entre arvores ramalhudas, moitas bastas, barreiras nuas, mostrava-se a estrada a todas as vistas, figurando o leito arenosos de um riacho que secara.
O dia vinha rompendo, quando descobriram a massa sombria da mata de Bujari. O Cajueiro estava a menos de cem braças, oculto por um cotovelo que formava a estrada.
Sentindo o coração pular-lhe de contente, Francisco virou-se para Gil:
- Seu comandante, vossa senhoria dá licença que eu vá adiante acordar minha mulher e meu filho? Estou que não posso me conter.
- Pode ir, meu bom companheiro. Corra já. É natural a sua impaciência. A nossa casinha fica ali adiante, na beira do caminho, à direita, continuou Francisco. A que fica a esquerda é a de seu padre Antonio. Até logo, seu comandante.
Francisco esporeou o castanho, que, não obstante vir caindo de fome e enfado, se empinou, ainda debaixo das pernas do senhor, naturalmente por ter sentido o cheiro da manjedoura de casa, e, contornando o cotovelo da estrada, desapareceu quase de repente da vista dos que ficavam atrás.
- Estou cativo deste matuto, disse Gil, voltando-se para os companheiros.
- Este profundo amor da família, comandante, é um dos dotes naturais do nosso almocreve, disse Felipe Bandeira.
- Bem sei. Em minha longa vida poucos tenho encontrado que desmintam este modelo. Mas o que acho especial em Francisco é o desembaraço, a graça, a franqueza que põe em suas palavras e ações. É verdade, disse o alferes Teixeira. Quase sempre os matutos se tornam bisonhos, quando se acham com pessoas a quem devem respeito.
- Se tivesse meios, era capaz de obsequiar-nos com um lauto banquete. Assim parece. Mas... que vem a ser aquilo, comandante? perguntou Felipe Bandeira, apontando para frente.
- Tinham dado a volta do caminho e entravam no Cajueiro. A casa do padre Antonio apareceu logo aos olhos de todos, à esquerda, como dissera Francisco; mas no ponto onde se devia mostrar a casa deste, o que eles viram foi um montão de cinzas, de que se levantavam ainda fumo e restos de chama por entre algumas paredes, esburacadas e enegrecidas.
- O cavalo castanho, entregue de todo à fome que trazia, devorava, sem cavaleiro, a grama verde, que guarnecia a estrada. Grande desgraça houve por aqui! exclamou Gil.
E atirou-se para diante da tropa e com pouco chegou ao pé das ruínas fumegantes.
- Francisco? Francisco? Chamou ele, sem poder dominar a sua comoção. Que foi isto, meu amigo?
O matuto, quase a queimar-se nos barrotes e caibros que ainda ardiam por entre o barro caído das paredes, revolvia com um ferro de cova, semelhando visão fantástica, os paus e a terra abrasada. Ouvindo a voz de Gil, respondeu:
- Estou desgraçado, seu comandante. Puseram-me fogo na casa, como vê. Mas o que me aterra é pensar que podem estar debaixo destes torrões minha mulher e meu filho queimados!
- Não há de ser assim, Francisco.
Marcelina! Lourenço! Exclamava de momento a momento o matuto, cavando e revolvendo sempre os entulhos eriçados de lascas, algumas flamejantes, muitas reduzidas a carvão. Ninguém me responde, comandante. morreram todos! Morreram! Estou sem mulher, sem filho, sem casa. Só me deixaram a miséria e o luto.
As feições do matuto mostravam-se desfiguradas. Por cima de suas faces de quarenta anos, que há pouco pareciam de trinta, porque as refrescava o reflexo do jubilo intimo, obra da esperança que lhe assegurava veria ele com brevidade os entes prediletos de sua alma, escorriam agora lagrimas lentas, e nelas se lia, em vez do prazer, a dor, a aflição, o desespero. Foi fácil a todos os circunstantes conhecer a súbita mudança, porque a esse momento o dia estava claro, e a aurora iluminava o céu e a terra com reflexos que nenhum pintor pode ainda reproduzir na tela.
Gil, sentindo a gravidade daquela crise, correu ao matuto, lançou-lhe os braços sobre os ombros, e disse-lhe em face:
- Então, que é isso, Francisco? Estás a chamar a todo instante por teu filho e tua mulher? Não vês que não podem estar aqui?
- Mas então onde estão eles, comandante? Na casa do padre Antonio não há ninguém. Já cansei de bater na porte. Ninguém me falou de dentro. Oh! Meu Deus! Por aqui andou de certo o Tunda-Cumbe. Malvado! Malvado! Tu me pagarás.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.