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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— Seja capricho da qualidade que V. Sa. quiser; porventura não posso ter eu os meus caprichos, contanto que não ofenda direitos de ninguém?... porventura V. Sa. não tem também o seu capricho de querê-la para si?... mas o seu capricho ofende os meus direitos, e eis aí o que não posso tolerar.

— Mas o meu capricho é nobre e benfazejo, e o seu é uma tirania, para não dizer uma vilania. V. Sa. mancha a sua vida com uma nódoa indelével conservando na escravidão essa mulher; cospe o desrespeito e a injúria sobre o túmulo de sua santa mãe, que criou com tanta delicadeza, educou com tanto esmero essa escrava, para torná-la digna da liberdade que pretendia dar-lhe, e não para satisfazer aos caprichos de V. Sa. Ela por certo lá do céu, onde está, o amaldiçoará, e o mundo inteiro a acompanhará na maldição ao homem que retém no mais infamante cativeiro uma criatura cheia de virtudes, prendas e beleza.

— Basta, senhor!.. agora fico também sabendo, que uma escrava, só pelo fato de ser bonita e prendada, tem direitos à liberdade. Pique também V. Sa. sabendo, que se minha mãe não criou essa rapariga para satisfazer aos meus caprichos, muito menos para satisfazer aos de V. Sa. a quem nunca conheceu nesta vida. Senhor Álvaro, se deseja ter alguma linda escrava para sua amásia procure outra, compre-a, que a respeito desta, pode perder toda a esperança.

— Senhor Leôncio, V. Sa. decerto esquece-se do lugar onde está, e da pessoa com quem fala, e julga que se acha em sua fazenda falando aos seus feitores ou a seus escravos. Advirto-lhe, para que mude de linguagem.

— Basta, senhor; deixemo-nos de vás disputas, e nem eu vim aqui para ser catequizado por V. Sa. O que quero é a entrega da escrava e nada mais. Não me obrigue a usar do meu direito levando-a à força.

Álvaro, desvairado por tão grosseiras e ferinas provocações, perdeu de todo a prudência e sangue-frio.

Entendeu que para sair-se bem na terrível conjuntura em que se achava, só havia um caminho, — matar o seu antagonista ou morrer-lhe às mãos, — e cedendo a essas sugestões da cólera e do desespero, saltou da cadeira em que estava, agarrou Leôncio pela gola e sacudindo-o com força:

— Algoz! — bradou espumando de raiva, — ai tens a tua escrava! mas antes de levá-la, hás de responder pelos insultos que me tens dirigido, ouviste?... ou acaso pensas que eu também sou teu escravo?..

— Está louco, homem! — disse Leôncio amedrontado. — As leis do nosso país não permitem o duelo.

— Que me importam as leis!... para o homem de brio a honra é superior às leis, e se não és um covarde, como penso...

—Socorro, que querem assassinar-me, — bradou Leôncio desembaraçando-se das mãos de Álvaro, e correndo para a porta.

— Infame! — rugiu Álvaro, cruzando os braços e rangendo os dentes num sorrir de cólera e desdém...

No mesmo momento, atraídos pelo barulho, entravam na sala de um lado Isaura e Miguel, do outro o oficial de justiça e os guardas.

Isaura estava com o ouvido aguçado, e do interior da casa ouvira e compreendera tudo.

Viu que tudo estava perdido, e correu a atalhar o desatino, que por amor dela Álvaro ia cometer.

— Aqui estou, senhor! — foram as únicas palavras que pronunciou apresentando-se de braços cruzados diante de seu senhor.

— Ei-los ai; são estes! — exclamou Leôncio indicando aos guardas Isaura e Miguel. Prendam-os!.. prendam-os!...

—Vai-te, Isaura, vai-te, — murmurou Álvaro com voz trêmula e sumida, achegando-se da cativa. — Não desanimes; eu não te abandonarei. — Confia em Deus e em meu amor.

Uma hora depois Álvaro recebia em casa a visita de Martinho. Vinha este

mui ancho e lampeiro dar conta de sua comissão, e sôfrego por embolsar a soma convencionada.

— Dez contos!... oh! — vinha ele pensando. — uma fortuna! agora sim, posso eu viver independente!... Adeus, surrados bancos de Academia!... adeus, livros sebosos, que tanto tempo andei folheando à toa!... vou atirar-vos pela janela a fora; não preciso mais de vós: meu futuro está feito. Em breve serei capitalista, banqueiro, comendador, barão, e verão para quanto presto!...

E à força de multiplicar cálculos de usura e agiotagem, já Martinho havia centuplicado aquela soma em sua imaginação.

— Meu caro senhor Álvaro, — veio logo dizendo sem mais preâmbulos, — está tudo arranjado à medida de nossos desejos. Pode V. Sa. viver tranqüilo em companhia da gentil fugitiva, que daqui em diante ninguém mais o importunará.

— De feito o procedimento de V. S.ª nesta questão tem sido muito belo e digno de elogios; é próprio de um coração grande e generoso como o de V. Sa. Não se dá maior desaforo! no cativeiro uma menina tão mimosa e tão prendada!...

— Agora aqui está a carta, que escrevo ao lorpa do sultãozinho. Prego-lhe meia dúzia de carapetões, que o hão de desorientar completamente.

(continua...)

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