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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Correndo por esta ponta de entre ambos os rios acima com a mão direita ao longo da terra, da ponta duas léguas pelo rio acima, é a terra fraca, que não serve senão para lenha dos engenhos; daqui para cima uma légua da cachoeira deste rio, é tudo povoado de canaviais e fazendas de moradores, até onde a água salgada se mete por dois esteiros acima, onde se ajuntam com ele duas ribeiras de água, nas quais estão dois engenhos, os quais deixemos estar para dizermos primeiro do rio de Irajuí, que vai por este meio um quarto de légua para cima, povoado de canaviais e fazendas em que entra uma casa de meles de muita fábrica de Gaspar de Freitas, além da qual, junto à cachoeira, está situado o engenho de Diogo Correia de Sande, que é uma das melhores peças da Bahia, porque está mui bem acabado, com grandes aposentos e outras oficinas, e uma fresca igreja de Vera Cruz.

E tornando abaixo ao esteiro da mão direita, que se chama Caípe, indo por ele acima, está um soberbo engenho com casas de purgar e de vivenda, e muitas outras oficinas, com grande e formosa igreja de S. Lourenço, onde vivem muitos vizinhos numa povoação que se diz a Graciosa. Esta é muito fértil e abastada de todos os mantimentos e de muitos canaviais de açúcar, a qual é de Gabriel Soares de Sousa; e deste engenho ao de Diogo Correia não há mais distância que quatrocentas braças de caminho de carro, e para vizinharem se servem os carros de um engenho ao outro por cima de duas pontes, e atravessam estes rios e ficam os engenhos à vista um do outro.

E tornando ao outro esteiro que fica da outra banda do rio Irajuí, onde se mete a ribeira que se diz de Jaceru, com a qual mói outro engenho que agora novamente fez o mesmo Diogo Correia, o qual está mui bem acabado e aperfeiçoado com as oficinas necessárias; todo este esteiro está povoado de fazendas de moradores com formosos canaviais; e descendo por este rio abaixo ao longo da terra da mão direita, andando mais de uma légua, vai a terra povoada da mesma maneira, onde este rio é como o Tejo de Vila Franca para cima.

E daqui até em direito da ponta que divide este rio de Jagua-ripe é a terra fraca, onde há três esteiros que entram por ela dentro duas léguas, nos quais se metem ribeiras com que se podem moer engenhos; mas a terra não é capaz para dar muitos anos canas. E abaixo deste esteiro está uma ilheta que chamam do Sal, porque o gentio, quando vivia mais perto do mar, costu-mava-o fazer ali, defronte da qual está outra ilheta no cabo da ponta de ambos os rios. Desta ilha até a ponta da barra haverá uma légua, tudo terra de pouca substância.

Desta terra à ilha de Fernão Vaz é perto de uma légua, e entre esta ilha e a de Taparica e a terra firme fica quase em quadra uma baía de uma légua, onde se mete a barra que se chama de Jaguaripe, de que se faz já menção.

C A P Í T U L O XXX

Em que se declara a terra que há da boca da barra de Jaguaripe até Juquirijape, e daí até o rio de Una.

Da ponta da barra de Jaguaripe ao rio de Juquirijape são quatro léguas ao longo do mar, à feição de enseadas, quase pelo rumo de norte e sul, cuja terra é baixa e fraca, com pouco mato, pelo qual atravessam das campinas quatro ribeiras de pouco cabedal, a qual terra não serve para mais que para criações de vacas. Este rio de Juquirijape tem a barra pequena e baixa, por onde não podem entrar mais que caravelões de costa por ter uma légua na boca que a toma toda; da barra para dentro até a cachoeira é muito fundo, por onde podem navegar navios de cem tonéis e de mais; e de uma parte a outra pode haver quatro léguas. Este rio é tão formoso como o de Guadiana, mas tem muito mais fundo; e tem, indo por ele acima, de uma banda e da outra até duas léguas, a terra fraca e pela maior parte de campinas, com muitos alagadiços, terra boa para vacas; e tem, indo por ele acima mais avante dois esteiros, nos quais se podem fazer dois engenhos.

Do esteiro mais do cabo, para a banda da cachoeira uma légua toda de várzea, e terra mui grossa para canaviais; da outra banda é a terra mais somenos, e junto desta cachoeira se vem meter uma ribeira com grande aferida, onde Gabriel Soares tem começado um engenho, no qual tem feito grandes benfeitorias, e assentado uma aldeia de escravos com um feitor que os manda. Na barra deste rio tem uma roça com mantimentos, e gente com que se granjeia. Este rio é muito provido de pescado, marisco e muita caça, e frutas silvestres.

(continua...)

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