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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- Oh Gade, aos trinta anos o Rabi não é casado! Qual é o seu trabalho? Onde está o campo que lavra? Alguém jamais conheceu a sua vinha? Vagabundeia pelos caminhos e vive do que lhe ofertam essas mulheres dissolutas! E que outra cousa fazem esses moços sem barba de Sibáris e de Lesbos, que passeiam todo o dia na Via Judiciária, e que vós outros, essênios, abominais de tal sorte, que correis a lavar as vestes numa cisterna, se um deles roça por vós?... Tu ouviste Osânias, filho de Beotos... Só Jeová é grande! E em verdade te digo que, quando Rabi Jeschoua, desprezando a lei, dá à mulher adúltera um perdão que tanto cativa os simples, cede à frouxidão da sua moral e não à abundância da sua misericórdia!

Com a face abrasada, e atirando os braços ao ar, Gade bradou:

- Mas o Rabi faz milagres!

E foi o famoso Manassés, com um sereno desdém, que respondeu ao essênio:

- Sossega, Gade, outros têm feito milagres! Simão de Samaria fez milagres. Fê-los Apolônio, e fêlos Gabieno... E que são os prodígios do teu galileu comparados aos das filhas do GrãoSacerdote Ánio, e aos do sábio Rabi Quequiná?

E Osânias escarnecia a simpleza de Gade:

- Em verdade, que aprendeis vós outros, essênios, no vosso oásis de Engada? Milagres! Milagres até os pagãos os fazem! Vai a Alexandria, ao porto do Eunotos, para a direita, onde estão as fábricas de papiros, e vês lá magos fazendo milagres por uma dracma, que é o preço de um dia de trabalho. Se o milagre prova a divindade, então é divino o peixe Oanes, que tem barbatanas de nácar e prega nas margens do Eufrates, em noites de lua cheia!

Gade sorria com altivez e doçura. A sua indignação expirara sob a imensidão do seu desdém. Deu um passo vagaroso, depois outro, e considerando, apiedadamente, aqueles homens enfatuados, endurecidos e cheios de irrisão:

- Vós dizeis, vós dizeis, vãos à maneira de moscardos que zumbem! Vós dizeis, e vós não o ouvistes! Em Galiléia, que é bem fértil, bem verde, quando ele falava era como se corresse uma fonte de leite em terra de fome e secura: até a luz parecia um bem maior! As águas, no Lago de Tiberíade, amansavam para o escutar; e aos olhos das crianças que o rodeavam, subia a gravidade de uma fé já madura... Ele falava; e como pombas que desdobram as asas e voam da porta de um santuário, nós víamos desprender-se dos seus lábios, irem voar por sobre as nações do mundo, toda a sorte de cousas nobres e santas, a caridade, a fraternidade, a justiça, a misericórdia, e as formas novas, belas, divinamente belas, do amor!

A sua face resplandecia, enlevada para os céus, como seguindo o vôo dessas novas divinas. Mas já do lado, Gamaliel, doutor da lei, o rebatia com uma dura autoridade:

Que há de original e de individual em todas essas idéias, homem? Pensas que o rabi as tirou da abundância do seu coração? Está cheia delas a nossa doutrina!... Queres ouvir falar de amor, de caridade, de igualdade? Lê o livro de Jesus, filho de Sidrá... Tudo isso o pregou Hilel; tudo isso o disse Esquemaia! Cousas tão justas se encontram nos livros pagãos que são, ao pé dos nossos, como o lodo ao pé da água pura de Siloé!... Vós mesmos, os essênios, tendes preceitos melhores!... Os rabis de Babilônia, de Alexandria, ensinaram sempre leis puras de justiça e de igualdade! E ensinou-as o teu amigo Iocanã, a quem chamais o Batista, que lá acabou tão miseravelmente num ergástulo de Maqueros.

- Iocanã! - exclamou Gade, estremecendo, como rudemente acordado da suavidade de um sonho.

Os seus olhos brilhantes umedeceram. Três vezes, curvado para o chão, com os braços abertos, repetiu o nome de Iocanã, como chamando alguém dentre os mortos. Depois, com duas lágrimas rolando pela barba, murmurou muito baixo, numa confidência que o enchia de terror e de fé:

- Fui eu que subi a Maqueros a buscar a cabeça do Batista! E quando descia o caminho, com ela embrulhada no meu manto, ainda a outra, Herodíade, estirada por sobre a muralha como a fêmea lasciva do tigre, rugia e me gritava injúrias!... Três dias e três noites segui pelas estradas de Galiléia, levando a cabeça do justo pendurada pelos cabelos... Às vezes, detrás de um rochedo, um anjo surgia todo coberto de negro, abria as asas e punha-se a caminhar ao meu lado...

De novo a cabeça lhe pendeu, os seus duros joelhos ressoaram nas lajes; e ficou prostrado, orando ansiosamente, com os braços estendidos em cruz.

Então Gamaliel adiantou-se para o sábio Topsius; e, mais direito que uma coluna do templo, com os cotovelos colados à cinta, as mãos magras espalmadas para fora:

(continua...)

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