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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

O padre Augusto sentia-se com efeito logrado. Em casa dos Amados queixou-se com uma resignação amarga. Falou mesmo em promessas muito explícitas...

– E um pascácio, sempre o disse – rosnou afogado em indigestão o bestial magistrado, pai de Virgínia.

O coronel, esse fanático do novo ministério, o ministério da militança, não duvidou dizer que não tornava a pôr os pés em casa de Alípio, e insinuou mesmo que nele, aquela recusa, aquela reserva, não era política – era medo. «Aí têm os senhores o que é: é muito medo naquelas entranhas!».

Fradinho declarou que Alípio «era todo palavriado, mas nenhum tacto político». Ele aconselhara-o, mas desde que o pedante se queria regular pela sua cabeça, abandonava-o... E vocês o verão chafurdar!

Na quinta-feira seguinte a sala dos Abranhos estava deserta. Veio apenas, fielmente, o Doutor. Mas parecia mais lúgubre, a casimira do fato, a pelica das luvas, mais negras, de um negro amargo.

Vendo aquela solidão, D. Virgínia, despeitada, foi choramingar para o quarto da ama – e Alípio, só, muito ofendido do abandono, toda a noite, defronte do Doutor taciturno, folheou com secura a Revista dos Dois Mundos.

E ao outro dia, depois de algumas entrevistas com os homens eminentes do seu partido, em que fez soar bem alto o seu rasgo de lealdade política, retirou-se para Campolide, a esperar, no remanso do campo, a próxima crise.

Foram três meses longos, penosos, arrastados. Esse Verão, se bem recordam, foi ardente. A estiagem e o ministério pareciam a Alípio Abranhos eternos.

A sua ambição, como uma cobra entorpecida, fora vivamente sacudida, despertada por aquela rápida visão de uma pasta e desde então não sossegava, inquieta, retorcendo-se com fúria, com as goelas escancaradas, ávida da presa. Os dias sucediam-se na monotonia do mesmo céu tórrido, azul-ferrete, da mesma folhagem imóvel no seu verde crestado, sob um véu de poeira: e o ministério lá estava, imperturbado, gozando as suas férias, na dispersão providencial da oposição pelas quintas e pelas praias.

Campolide, segundo uma expressão muito dele, «secava-o mortalmente».

Tinha saudades – o termo é correcto – da verbosidade jovial de Fradinho, da presença do coronel, da grande cauda da bela D. Luísa nas soirées das quintas-feiras; faltava-lhe mesmo a figura sombria do Doutor taciturno.

Sua sogra, quando os vinha ver, tornava-se odiosa, dizendo com escárnio:

– Em lugar de estar aqui às moscas, podia agora muito bem estar no poleiro! E é que temos ministério para anos.

E era esta uma ideia que às vezes passava, com um suor de agonia, pelo espírito do estadista, apesar das cartas animadoras dos amigos do partido, que lhe afirmavam

«que o trabalhinho por baixo de mão ia bom, que o General estava todo minado por baixo...» Porém as palavras do coronel – apesar de, no fundo, o considerar um boçal – perturbavam-no: «se ele quiser, ninguém o deita abaixo!» E era possível, caramba! O

General tinha o exército, quieto, decerto, mas como um cão de fila que dormita: se sentisse que lhe vinham tirar sorrateiramente o poder, bastava-lhe despertar a fera: e logo, mal ela rosnasse, oposição, jornais, poderes do Estado, Carta, tudo se agachava, com as pernas a tremer!

Mas, finalmente, a crise veio – ou antes, findou.

Seria nestas memórias uma redundância, contar o desenlace inesperado e doloroso. Quem não se lembra desse dia – um dia abafado, de céu plúmbeo e canicular – em que se espalhou a notícia de que o General estava a expirar? Tínhamo-lo visto, havia dias, subir o Chiado a cavalo, como costumava, e ali estava agora, agonizando, entre o terror dos que a ele tinham ligado as carreiras e as fortunas, e a esperança daqueles que por dever oficial lhe cercavam o leito, mas ansiavam por herdar o poder de que ele se apossara.

Quem não recorda esses grupos, reunidos diante do seu palácio, à Estrela, ávidos de notícias, atravessados a cada momento por oficiais, por correios, em cujos rostos se sentia uma súbita desorientação moral?

Lisboa esqueceu os erros desse homem, para só recordar a sua personalidade cativante e o brilho da sua carreira.

Eu, buscando notícias para o Estandarte, lá estava entre esses grupos, ouvindo já nos comentários do povo formar-se a legenda daquela personalidade, em que havia traços de herói. Vi parar à porta a berlinda vermelha do Sr. Cardeal Patriarca, que vinha trazer-lhe a Extrema-Unção. A porta abriu-se com grande ruído e o venerável sacerdote desapareceu na sombra do pátio que já tinha alguma coisa de funerário, com o seu passo rápido de padre, arrastando a cauda escarlate.

Depois era outra carruagem que chegava, chapéus que se erguiam aqui e além, e o Rei que penetrava no antigo palácio, a despedir-se do velho servidor.

(continua...)

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