Por Eça de Queirós (1888)
- V. ex.ª tem boa memoria, sr. Maia?
- Tenho uma rasoavel memoria.
- Inapreciavel bem de que goza!
A condessa voltara-se para a platéa, coberta com o leque, com o ar constrangido, como se aquellas palavras pueris do marido a diminuissem, a desfeiassem... Carlos então fallou da opera. Que bello escudeiro huguenote fazia o Pandolli! A condessa não aturava o Corcelli, o tenor, com as suas notas asperas e aquella obesidade que o tornava buffo. Mas tambem (lembrava Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande raça dos Marios, homens de belleza, de inspiração, realisando os grandes typos lyricos. Nicolini era já uma degeneração... Isto fez lembrar a Patti. A condessa adorava-a, e a sua graça de fada, e a sua voz semelhante a uma chuva d'ouro!...
Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o cabello crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno d'ella errava, no calor do gaz e da enchente, um aroma exagerado de verbena. Estava de preto, com uma gargantilha de rendas negras, á Valois, affogando-lhe o pescoço onde pousavam duas rosas escarlates. E toda a sua pessoa tinha um arsinho de provocação e de ataque. De pé, callado, grave, o conde batia a coxa com a claque fechada.
O quarto acto começara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a condessa e fallando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar dolente e vago.
- Nós recebemos ás terças feiras, disse a condessa a Carlos - e o resto da phrase perdeu-se n'um murmurio e n'um sorriso.
O conde acompanhou-o fóra, ao corredor.
- É sempre uma honra para mim, dizia elle caminhando ao lado de Carlos, fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma cousa n'este paiz... V. ex.ª é d'esse numero, bem raro infelizmente.
Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda:
- Não o lisongeio. Eu nunca lisongeio... Mas a v. ex.ª podem-se dizer estas cousas, porque pertence á elite: a desgraça de Portugal é a falta de gente. Isto é um paiz sem pessoal. Quer-se um bispo? Não ha um bispo. Quer-se um economista? Não ha um economista. Tudo assim! Veja v. ex.ª mesmo nas profissões subalternas. Quer-se um bom estofador? Não ha um bom estofador...
Um cheio de instrumentos e vozes, d'um tom sublime, passando pela porta da frisa entreaberta, cortou-lhe umas ultimas palavras sobre a defficiencia dos photographos... Escutou, com a mão no ar:
- É o coro dos punhaes, não? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto com proveito. Ha philosophia n'esta musica... É pena que lembre tão vivamente os tempos da intolerancia religiosa, mas ha alli incontestavelmente philosophia!
VI
Carlos, n'essa manhã, ia visitar de surpreza a casa do Ega, a famosa «Villa Balzac», que esse phantasista andára meditando e dispondo desde a sua chegada a Lisboa, e onde se tinha emfim installado.
Ega dera-lhe esta denominação litteraria, pelos mesmos motivos porque a alugára n'um suburbio longiquo, na solidão da Penha de França, - para que o nome de Balzac, seu padroeiro, o silencio campestre, os ares limpos, tudo alli fosse favoravel ao estudo, ás horas d'arte e d'ideal. Por que ia fechar-se lá, como n'um claustro de lettras, a findar as Memorias d'um Atomo! Sómente, por causa das distancias, tinha tomado ao mez um coupé da companhia.
Carlos teve difficuldades em encontrar a «Villa Balzac»: não era, como tinha dito Ega no Ramalhete,logo adiante do largo da Graça um chaletsinho retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores. Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se n'uma vereda larga, entre quintaes, descendo pelo pendor da collina, mas accessivel a carruagens; e ahi, n'um recanto, ladeada de muros, apparecia emfim uma cazota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de pedra á porta, e transparentes novos dum escarlate estridente.
N'essa manhã, porém, debalde Carlos deu puxões desesperados á corda da campainha, martellou a aldrava da porta, gritou a toda a voz por cima do muro do quintal e das copas das arvores o nome do Ega: - a «Villa Balzac» permaneceu muda, como deshabitada, no seu retiro rustico. E todavia pareceu a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de rolhas de Champagne.
Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados, que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de Nesle...
- Vae lá ámanhã, se ninguem responder, escala as janellas, pega fogo ao predio, como se fossem apenas as Tulherias.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.