Por Eça de Queirós (1878)
- Ai! Estão insuportáveis! - Contou as exigências da Justina, os seus desmazelos. - E muitoagradecida ainda que ela se me não vá! Quando a gente depende delas... - E pondo pó-de-arroz no rosto, com uma voz lenta: - Lá o meu senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir jantar fora com...- Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luísa, mais baixo, com um tom alegre, muito sincero: - Mas olha, a falar a verdade, nem sabia onde, nem tinha dinheiro... Que ele coitado com a sua mesada mal lhe chega. Disse comigo: nada, vou ver a Luísa. Também os homens sempre, sempre, secam!... - Que tens tu para jantar? Não fizeste cerimônia, hem?
E com uma idéia súbita:
- Tens tu bacalhau?
Devia haver, talvez. Que extravagância! Por quê?
- Ai! - exclamou. - Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido detesta bacalhau! Aquele animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e alho! - Mas calou-se, contrariada - Diabo!
- O quê?
- É que hoje não posso comer alho...
E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastião, pô-la casa do corpete. Desejava ter uma sala assim - pensava, olhando em redor. Queria-a de repes azul, com dois grandes espelhos, um lustre de gás, e o seu retrato a óleo de corpo inteiro, decotada, ao pé de um rico vaso de flores...
Sentou-se ao piano, bateu rijamente o teclado, tocou motivos do Barba-Azul.
E vendo Luísa entrar:
- Mandaste arranjar o bacalhau?
- Mandei.
- Assado?
- Sim.
- E atirou, com a sua voz mordente, a sua canção querida da Grã-duquesa:
- Ouvi dizer que meu avô de vinho, Era um tal amador...
Mas Luísa achava aquela música "espalhafatona"; queria alguma coisa triste, doce... O fado! Que tocasse o fado!...
Leopoldina exclamou logo:
- Ai, o fado novo! Tu não ouviste? É lindo! Os versos são divinos!
Preludiou, cantando com um balouçar lânguido da cabeça, o olhar erguido e turvo:
- O rapaz que eu ontem vi Era moreno e bem feito...
- Tu não sabes isto, Luísa? Oh, filha! É o último! É de chorar! Recomeçou, com o tom muitoquebrado. Era a história rimada de um amor infeliz. Falava-se nas "raivas do ciúme, nas rochas de Cascais, nas noites de luar, nos suspiros da saudade", todo o palavreado mórbido do sentimentalismo lisboeta. Leopoldina dava tons dolentes à voz, revirava um olhar expirante; uma quadra sobretudo enternecia-a; repetiu-a com paixão:
- Vejo-o nas nuvens do céu
Nas ondas do mar sem fim, E por mais longe que esteia Sinto-o sempre ao pé de mim.
- Lindo! - suspirava Luísa.
E Leopoldina terminava com ais! em que a sua voz se arrastava numa extensão desafinada.
Luísa, de pé junto do piano, sentia o cheiro do feno que ela usava; o fado, os versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso seguia sobre o teclado os dedos ágeis e magros de Leopoldina, onde reluziam as pedras dos anéis que lhe tinha dado o Gama.
Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o jantar na mesa!
Leopoldina declarou que vinha a cair de fome! E a sala de jantar com as vidraças abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul de horizonte onde se algodoavam nuvenzinhas muito brancas - alegrou-a; a sala de jantar dela tirava-lhe até o apetite; era uma tristeza; deitava para o saguão!
Pôs-se a depenicar bagos de uvas, a trincar bocadinhos de conserva - e reparando no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo:
- Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pândego!
- E há que tempos que não jantavam juntas! Desde quando?
- Desde o meu primeiro ano de casada - lembrou Luísa.
Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se muito nesse tempo; Jorge ir às lojas ambas, aos confeiteiros, à Graça... A lembrança daquela camaradagem levou-a às recordações mais distantes do colégio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa, com o sobrinho. - Lembraste dele?
- O Espinafre?
- "Espinafre" ou não era no colégio o homem, o ideal, o herói; todas lhe escreviam bilhetes,desenhavam-lhe corações de onde saia uma fogueira; metiam-lhe no boné muito sebento ramos de flores de papel... E quando a Micaela foi apanhada, no cacifo dos baús, a devorá-lo de beijos!...
Luísa disse:
- Que horror!
- Não que a Micaela era doida!
Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava cheia de filhos...
- Isto é um vale de lágrimas! - resumiu Leopoldina, recostando-se.
Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na ponta do garfo, provava, deixava, punha-se a comer côdeas de pão que barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordações do colégio! Que bom tempo!
- Lembraste quando estivemos de mal?
Luísa não se lembrava...
- Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento - disse Leopoldina.
Puseram-se a falar dos sentimentos. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joaninha , a Freitas. Que olhos! E que bem feita! Tinha-lhe feito a corte um mês.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.