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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Desde que ele viera para Lisboa eu não voltara a casa da con dessa por um certo sentimento altivo de reserva e de orgulho. Nes se tempo estava ela absolutamente livre. Oconde achavase em Bruxelas, onde Mademoiselle Rize o tinha cativo dos nervosos e ágeis bicos dos seus pés, que então escreviam pequenos poemas no tablado do Théâtre diz Prince Royal.Um dia, inesperadamente, recebi da condessa um bilhete que dizia:

«Meu primo, se um gelado tomado num terraço com uma velha amiga não sobreexcitaexcessivamente os seus nervos, espero-o esta tarde em... (era uma quinta ao pé de Lisboa que ela habitava algumas vezes no Verão). Traga o seu amigo Rytmel»Mostrei o bilhete a Rytmel, e pelas seis horas da tarde rodáva mos na estrada de... num coupé com os estores corridos.

A condessa tinha acabado de jantar. Passeámos nas sombrias ruas da quinta,apanhámos flores, e voltaram aquelas boas horas íntimas de outrora, cheias de abandono e de espírito. A condessa estava radiante.As onze horas da noite fomos tomar chá para o terraço. Havia um admirável luar. O terraço tem na sua base um grande tanque, cheio de plantas da água, de largas folhas, e de nenúfares, e onde poderia navegar um escaler. A água escorre ali com um murmúrio doce. Ahora era adorável. As redondas massas de verdura do jar dim, os arvoredos, apareciam como grandes sombras pesadas e cheias de mistério. Ao longe os campos e os prados esbatiam-se num vapor docemente luminoso e pálido. Havia um silêncio sus penso. As coisas pareciamcontemplar e sonhar.

Sobre uma mesa no terraço estava um bule do Japão e três pe queninas chávenas deSevres, uma das quais, de um gosto original e feliz, era a da condessa. Tínhamos tomado chá, e eu notava a excêntrica forma, o delicado desenho, a pura perfeição daquela maravilhosa e pequena chávena, que a condessa chamava a sua taça.- Orei Artur só podia beber pelo seu copo de estanho... — dis se Rytmel, sorrindo.

E eu só posso tomar chá por esta taça — disse a condessa. — Não sei porquê, representapara mim o sossego, a felicidade. Quan do estou triste e bebo por ela parece-me que se dissipa a nuvem. Uma flor que eu queira conservar ponho-a dentro dessa chávena, e a flor não murcha. Demais o chá bebido por ela tem um gosto es pecial: ora veja, Captain Rytmel,beba.

Toda aquela glorificação da chávena tinha tido por fim o poder Rytmel, na minhapresença, sem isso ser menos discreto, beber pe la chávena da condessa — encanto supersticioso e romântico, que pertence de grande antiguidade à tradição do amor!

Rytmel agradeceu, deitou uma gota de chá na pequenina chá vena dourada. Eu, noentanto, olhava a condessa.

Estava originalmente linda. Tinha o vestido levemente decota do sobre o seio. E o luardava-lhe aquele nimbo poético que todas as claridades misteriosas, ou venham de astros mortos ou de luzes desmaiadas, dão às figuras louras.

Havia um piano no terraço; a condessa sentou-se, e sob os seus dedos o teclado demarfim chorou um momento. O silêncio, o infini to da luz, a atitude contemplativa das coisas, o murmuroso chorar da água nas bacias de mármore, tudo nos tinha insensivelmentelançado num estado de suave e vago romantismo...

De repente a condessa elevou a voz e cantou. Ema balada do Rei de Vale. Alguém tinha traduzido aquela balada em rimas populares. E era assim que a condessa gostava de a dizer, em lugar de usar as palavras italianas com a sua banalidade de libretto.

Houve outrora um rei de Vale A quem, em doce legado, Deixou à amante ao morrer Um copo d'ouro lavrado.

Eu ficara junto do piano, fumando. Rytmel, de pé, encostado à balaustrada, enlevadono penetrante encanto daquela canção, olhava a água do tanque, onde tremia a claridade da Lua, conservando a taça na mão.

Os dedos da condessa volteavam no teclado de marfim; e a sua voz continuava, tristecomo a própria balada:

Sempre o rei achava nele Um sabor da antiga mágoa, E se por ele bebia Tinha os olhos rasos d'água.

— Não cante mais — disse Rytmel, de repente, voltando-se.À luz da Lua eu vi-lhe os olhos húmidos como os do rei da can ção, e na sua mão tremia a pequena chávena dourada.Ela voltou para Rytmel um longo olhar triste, e a sua voz pros seguiu, vibrando mais saudosa no silêncio:

Malta esplanada normanda Batida ia onda Reúne os seus irmãos d'armas A uma távola redonda...

Parou com as mãos esquecidas sobre o teclado: — Foi talvez como uma noite destas — disse ela. -Estamos em plena legenda. O terraçobatido da água, a Lua, os velhos amigos reunidos, a lembrança da pobre amante, que se apaga na memó ria dele, o pressentimento da mort e... Que linda noite para o rei atirara sua taça ao mar!E cantou os derradeiros versos da balada:

Foi-se com trémulos passos Na amurada debruçar... E com as suas mãos antigas Atirou a taça ao mar!

Junto ao seu corpo real Estão os pajens a velar E a taça vai viajando Por sobre as águas do mar...



(continua...)

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