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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

A rua encheu-se ainda mais. Havia gente de toda a sorte: velhos, moços, burgueses, operários, senhoras — gente de todas as idades e condições. Os que ficavam mais distante, no passeio fronteiro, para ver melhor, punham-se nos bicos dos pés, cheios de ansiedade. Quando subi a escada, voltei-me um instante e vi aquela centena de pessoas, com as pálpebras arregaladas, o pescoço erguido, esforçando-se por ler aquele carapetão formidável forjicado naquela fábrica de carapetões que se chama o jornal.

A redação recebera uma visita. Era a Viscondessa de Varennes, que conversava com Floc. Os dois estavam no período de namoro; ela, retirando todo o proveito, em noticias, péssimos sonetos publicados na primeira página; ele, oleoso, gastando os seus melhores sorrisos e alguns mil-réis de sua algibeira econômica.

— Oh! Senhor doutor Couto! dizia ela. Que coisa! Como isto está! Que malvadez! Eu vinha rindo, quando li... Fiquei apavorada!... Não sei. Meu Deus! Quando vejo isso até tenho medo de viver...

Leporace passou e deitou sobre a poetisa um olhar cheio de desejos. Os enormes olhos de boi da poetisa voltaram um instante para o secretário que se desfez em cortesias. A viscondessa estava em relações com todos os redatores e repórteres, e todos eles esperavam cedo ou tarde tê-la uma noite nos braços.

Com a sua finura de profissional do amor, ela bem percebia a fome que todos aqueles homens tinham do seu corpo fatigado. Não desanimava a nenhum, recebia homenagens, sorria com o seu longo sorriso, contraindo as grandes maçãs carminadas, abanava-se um instante com o leque, ajeitava a saia de seda de modo a lhe desenhar melhor as pernas e pedia favores: uma referência, uma notícia, a publicação de um soneto, de um conto. Assim se valorizava. Os únicos da gazeta que não a queriam absolutamente, eram o diretor e Gregoróvitch. Este, quando a ouviu tão temerosa, prorrompeu bruscamente com a sua voz metálica:

— Ora, minha senhora! Nós todos somos criminosos... A senhora também o é!

— Eu, doutor!

— Sim! A senhora para viver tirou a vida de muita gente; para ter esse vestido, esses laçarotes, tira a de muitos outros... A nossa vida só se desenvolve com grandes violências sobre as coisas, sobre os animais e sobre os semelhantes...

— Mas dessas não o sabemos!

— Talvez não seja tanto assim...

A viscondessa estendeu a mão ao viçoso Floc, abarcou com o olhar a sala toda e saiu arrastando o corpo pequeno e pesado.

Caxias continuava no seu serviço dos boletins periódicos. Alguns jornais da tarde deram uma segunda edição. O Globo, porém, com os seus cartazes contínuos, distraia os compradores. Nos portais, já não havia mais lugar. Os boletins iam de cima para baixo; alguns já cobriam os outros. O povo continuava aglomerado. Escurecia. Houve alguém que acendeu um fósforo para ler melhor. O doutor Ricardo, que viera de jantar, vendo o gesto do popular, mandou que o foco elétrico da fachada fosse aceso.

Nos outros jornais, que tinham também afixado boletins, logo o imitaram; e a Rua do Ouvidor, àquela hora da tarde excepcionalmente transitada e iluminada, surgiu como num dia de festa. Todo o jornal convergia para o crime. Mandou-se retirar uma grande parte da matéria, sair o lindo artigo da festejada colaboradora Pilar de Giralda, uma velha senhora das salas burguesas de Botafogo e Petrópolis, que dera em escrever, depois de avó, uns contos colegialmente eróticos ou uns artigos com pretensões a propagar a emancipação da mulher e o divórcio. Saiu também o folhetim do jovem Deodoro Ramalho, um discípulo de Veiga Filho, autor de uns contos pastosos, pejados de frases redondas, redondinhas, que escapavam quase diariamente pelas colunas d'O Globo, com a mole resistência da massa de tinta que sai de uma bisnaga.

O seu folhetim tinha sempre pretensão a graça, a coisa ligeira e leve, sem deixar de ser intelectual. Além do folhetim semanal, escrevia também um conto aos domingos, histórias juvenis de namoros burgueses e casamentos de bacharéis e doutores. Era de uma fecundidade de parvo. Não havia tolice que lhe passasse pela cabeça, que não escrevesse. Mas tinha admiradores: sua noiva, os futuros sogros, alguns colegas de escola e meia dúzia de meninas da Rua dos Voluntários.

O doutor Ricardo respeitava a sua literatura por sabê-lo com distinção em Matéria Médica, no que ele encontrava grande competência para o valor literário de produções do rapaz. Demais, as suas relações, o rigor colegial da sua vida, os seus olhos azuis, tinham-lhe valido a respeitosa consideração de todos os repórteres, redatores e colaboradores.

(continua...)

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