Por Coelho Neto (1906)
Até o dia seguinte vivia regaladamente daquela ilusão, gozando a vida repousada e farta dos ricos, com amantes caras, um grupo de amigos para os saraus de literatura e arte, e a fortuna a multiplicar-se com a facilidade avassaladora com que as sementeiras crescem nos campos, alargando-lhe ainda mais a ventura. No dia seguinte, quando percorria a lista desanimadamente, procurava o final, já com o sonho desfeito, contentando-se com o mesmo dinheiro que lhe dava a esperança de poder, na loteria seguinte, alcançar a sorte desejada.
Com a roleta, porém, "eram mais seguras as probabilidades". Conhecia um rapaz que dissipava, a mãos rotas, como um milionário. Tinha as melhores amantes, vestia-as com fausto, cobria-as de jóias. Diziam que a sua casa, nas Laranjeiras, era como um palácio de lenda: bronzes raros, telas preciosas, tapetes mais altos que relvagens, móveis antigos, armas autênticas, carro na cocheira e cavalos de raça, com tratadores ingleses.
Gastava como um nababo, só à custa da roleta e do dado, porque os prêmios que os seus parelheiros levantavam mal cobriam as despesas com o trato, com o aderenço, com os jóqueis.
O seu ideal era viver como o Junqueira, o impassível Junqueira que, com um charuto na boca, balançando a perna, perdia dezenas de contos com a mesma serenidade, com a mesma superior indiferença com que estourava as bancas em dias felizes. Afinal — com quanto entrara? com vinte mil-réis, tendo perdido dez na espelunca do Cordeiro.
Não tornava àquele antro, onde se falava uma geringonça impenetrável e o ar era todo fumo e despejados bafos d'álcool. A gente era uma canalha: capoeiras, gatunos, até um Castro, por alcunha o Faísca, que era dos mais assíduos, sempre obsceno, e bravateador, mostrava navalhas célebres, entre elas, uma mais querida, de lâmina gasta, que rasgara ventres. Não lhe convinha aquilo.
Falar com o Junqueira era até chic, porque sempre o via em boas rodas, mas cumprimentar qualquer daqueles tipos do antro, era uma vergonha que o comprometia. Na outra casa eram todos homens limpos, rapazes colocados, de nome; eram relações que ficavam e serviam; depois a banca era outra. Decidia-se e havendo calculado uma diária modesta de quinhentos mil-réis — coisa fácil — levantou-se feliz, esticou os braços e pôs-se a cantarolar. Bateram à porta. "Entre!" disse, sem lembrar-se de que a fechara à chave. Empurraram.
— Está fechada, disse a velha.
Correu a abrir. Dona Júlia entrou com o café.
— Toma, enquanto está quente; — e deixou-se cair na cadeira, cansada. Ele bebia o café a pequenos sorvos.
— Mamãe já pagou à Felícia?
— Ainda não. O dinheiro que tenho mal chega para a casa. E ela bem precisa, coitada!
— Eu tenho algum, disse ele com superioridade.
— Pois sim. — E afirmou com enternecimento: Olha, meu filho. como essa não achamos outra: não é uma criada, é uma amiga. Quanto mais vou conhecendo o mundo mais me afeiçôo à pobre velha. Outra fosse ela e andaria por aí a resmungar, de trombas, mas não: é sempre a mesma e pra tudo.
— É uma boa velha, isso é, concordou.
— Eu é que sei, que vivo com ela.
— Pois se quer o dinheiro...
— Não te faz falta? — Não, senhora.
Abriu a gaveta, contou trinta mil-réis e, com o pacotinho em que tinha guardado os cento e cinqüenta e a cautela do broche, entregou-os à mãe. Ficou um instante parado a contemplar o dinheiro que reservara, mas teve um movimento de bondade: tomou uma nota de cinqüenta e deu-a à velha.
— Isto é para a senhora.
Ela abriu muito os olhos, espantada.
— Onde arranjaste? Foi o Fábio?
— O Fábio...! — Riu escarninho. — Que idéia! Recebi no jornal, — explicou, numa inspiração instantânea.
— Mas tu podes precisar, meu filho.
— Fico com o bastante, descanse.
— Olha lá!
— Ora, mamãe, eu faço cerimônias com a senhora?
— Está bom, obrigada. E que Deus te proteja.
— Amém!
CAPÍTULO XII
Deitado, d'olhos fechados e amolecido de fadiga, Paulo não pôde conciliar o sono, recordando todas as peripécias do jogo. Estava ainda sob a impressão intensa da sorte que tantos comentários provocara. O próprio Junqueira, sempre indiferente, lamentara que ele "não soubesse aproveitar o seu dia". Se houvesse carregado teria levado a banca à glória. Tal idéia irritava-o. Esmurrava a mesa, fazendo e desfazendo cálculos. Chegou a sentar-se na cama para recomeçar as somas, os cálculos de fortuna. Ritinha, porém, surgiu-lhe na lembrança.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.