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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

No bosque dos bambus, à esquerda, estavam armadas as longas mesas para o banquete das quatro horas. Graças à boa vontade dos pais, prevenidos oportunamente, vergavam as tábuas, sobre cavaletes, ao peso de uma quantidade rabelaisiana de acepipes. À parte, em cestos, no chão, amontoavam-se frutas, caixas e frascos de confeitaria.

Era por um desses dias caprichosos, possíveis todo o ano, mais freqüentes de verão, em que as bátegas de chuva fazem alternativa com as mais sadias expansões de sol, deliciosos e traidores, em que, parece, a alma feminina se faz clima com as incertezas de pranto e riso.

Chovera uma vez ao partirmos, outra vez em viagem; havia no jardim muita umidade na relva e sob as folhas caídas; às alamedas de mais sombra, via-se a areia crivada recentemente dos pequeninos frutos que cava o gotejar do arvoredo. Mas eram tão claros os trechos de bom tempo, no intervalo dos nimbos, que não podiam apreensões de aguaceiro entibiar a franqueza de alegria a que estávamos preparados.

A rapaziada dispersou-se pelos gramados para a montanha, para os canaviais e pomares de ingresso vedado. Alguns, munidos de anzóis, acocoravamse à beira do açude, como batráquios, enquanto esperavam que picasse a probabilidade difícil de um peixe.

Os de espírito calmo buscavam sítios de soledade, iam passear a cisma silenciosa; os sentimentais, com o instinto dos fotógrafos paisagistas, ensaiavam, comparavam, aplaudiam os melhores pontos de vista, ou, simplesmente, dois a dois, íntimos, seguiam para longe, braços pela cintura, balbuciando diálogos lentos. Os menores corriam, armando animadíssimos brincos, atiravam-se às borboletas, iam pelos cursos d’água canalizada através do parque, perseguindo a fuga de um graveto, trépido, inalcansável na evasão rápida da linfa. Nos enredamentos obscuros do bosque, exatamente onde o artista grego incluiria um sátiro, podia-se surpreender sob uma blusa o confiado abandono bucólico de outros colegas.

De quando em quando, um sinal de clarim. Tocava-se a reunir e fazia-se a distribuição das gulodices. Muitos não compareciam.

Às quatro horas a banda de música assinalou com o hino nacional o grande momento da festa campestre.

De todos os pontos do jardim começaram a chegar magotes pressurosos de uniformes brancos. Os vigilantes, enérgicos, regularizavam a ocupação dos lugares.

Ao correr da mesa, fechou-se o bloqueio ameaçador de dentaduras. No centro alinhavam-se as peças, sem conta, frias, sem molho, apetitosas, entretanto, da cor tostada e do aroma suculento.

Os garfos agitavam-se inimigos, amolavam-se os trinchantes nas mãos dos copeiros...

Obrigados a uma sobranceria estóica de filósofos, depois da provação definitiva do forno, nem os perus, nem os leitões, nem os tímidos frangos mostravam aperceber-se da situação arriscada.

Os frangos, de pernas para trás, sobre o dorso, cabeça escondida na asa, pareciam dormir sonhando o calembur das penas perdidas; os redondos bácoros, encouraçados na bela cor de torresmo, serviam-se dos olhos de azeitona para não mais ver as seduções mentidas da existência, empenhados em ensinar aos homens como se leva a cabo o suplício culinário dos palitos, com a agravante azeda dos limões em rodela; os perus, soberbos até à última e menos filosóficos, prescindiam francamente da cabeça, orgulhosos apenas da vastidão do peito, enfunando a vaidade cheia do papo, hipertrofia de farofa.

Guarnecendo os assados, perfilavam-se as garrafas pretas desarrolhadas, conglobavam-se montes de maças, peras, laranjas, apoiadas às nacionalíssimas bananas, como um traço de nativismo. Os pudins, as marmeladas, as compotas enchiam os vãos da toalha, com um zelo apertado de mediador plástico. Mesmo sem meter em conta as postas de rosbife com que contribuirá Aristarco, percebe-se que era de truz o jantar.

Quando os rapazes sentaram-se, em bancos vindos do Ateneu de propósito, e um gesto do diretor ordenou o assalto, as tábuas das mesas gemeram. Nada pôde a severidade dos vigilantes contra a selvageria da boa vontade. A licença da alegria exorbitou em canibalismo.

(continua...)

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