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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Nesse dia, porém, antes que o velho pêndulo da sala de jantar marcasse quatro horas, entrou de chapéu na cabeça, como de costume, para não constipar, e foi direito ao quarto da afilhada.

“— Como tinha passado o dia? Muito fastio ainda?” — E puxando uma cadeira sentou-se ao lado de Maria, que se conservava deitada.

Ao pé da rede, sobre a esteira gasta, eternizava-se uma tigela com resto de caldo, onde flutuavam moscas. João fez um gesto de aborrecimento, e apanhando a tigela:

— Mariana!

Demônio de gente! Naquela casa ele é que fazia tudo, e, se havia uma pessoa doente, era o mesmo que nada.

— Mariana!

— Inhô!

— Não está ouvindo chamar, seu diabo!

D. Terezinha continuava a cantarolar, sem se dar por achada, por pirraça.

Mariana apareceu à porta do quarto, sem casaco, os seios moles dentro do cabeção da camisa tisnada, pés descalços, cabelos assanhados.

João mediu-a com o olhar, de alto a baixo, e entregando-lhe a louça:

— Por que ainda não tirou isto?

— Estava cuidando do jantar...

— Cuidando do jantar, hein? Cuidando do jantar?... Burra!...

A criada, porém, deu-lhe as costas e saiu rindo, com o seu ar idiota.

Uma pessoa somente interessava-se pela saúde de Maria do Carmo — era ele, João da Mata, cujos cuidados para com ela redobravam dia a dia.

D. Terezinha, essa nem sequer chegava à porta do quarto, resmungando sempre, rogando pragas, dizendo indiretas, que Maria do Carmo ouvia com lágrimas nos olhos.

Nunca João fora tão bom para a afilhada como agora. Trazia-lhe mimos da rua, bons-bocados, confeitos, rendas, com uma solicitude paternal, animando-a, prometendo-lhe muitas felicidades, contando-lhe tudo quanto ouvia dizer na rua, dando-lhe notícias dos conhecidos.

— Teve febre hoje? continuou ele tornando a sentar-se.

— Não sei...

— Deixe ver o pulso... Não, nem um bocadinho... Bom, não se amofine, hein, não se amofine. Amanhã, se Deus quiser, pode levantar-se. E baixo:

— Tolice!... Morrendo sem quê nem pra quê! Se continuas, é pior... podem até saber... Isto a gente faz cara alegre e vai para diante como as outras, minha tola... Olha a tua amiga, a Lídia... Casou e casou bem... E assim a maior parte... Deixa de tolices.

Logo no dia seguinte à noite do seu defloramento Maria do Carmo queixou-se de fortes dores na cabeça e nos quadris, indisposição geral, e uma ausência quase absoluta de apetite. Não podia ver comida de espécie alguma nem sentir ao menos o cheiro de guisados. Tudo a enjoava provocando-lhe náuseas. Cada vez que se lembrava de João vinham-lhe arrepios na pele e “agasturas na boca do estômago”.

Pungia-lhe uma espécie de remorso, que a fazia passar horas inteiras num abatimento medonho, encafuada no quarto, sem coragem para continuar a vida como dantes. Lamentava-se como uma desgraçada: — Que vida! que vida!

Não quis almoçar e passou o dia com uma xícara de café, que a Mariana lhe levara.

D. Terezinha não se abalava: era como se Maria do Carmo não existisse. Que fosse para lá com os seus faniquitos, não tinha obrigação de criar filhos de ninguém. Antes de ir para a repartição João lhe recomendara: — Olhe: Maria amanheceu doente. Está com uma pontinha de febre, não a deixe morrer à fome, hein...

Foi como se não recomendasse, porque D. Terezinha nem sequer pôs os pés no quarto da rapariga. Limitou-se a dizer à criada: — Ouviste? Não deixes morrer de fome a mimosa...

Ah! esse desprezo, essa indiferença da madrinha doía nalma de Maria como um insulto. Lembrava-se às vezes de a mandar chamar e pedir-lhe por amor de Deus que não a tratasse assim, que não a desprezasse... Mas ao mesmo tempo achava que isso era confessar a sua culpa, porque na verdade nunca houvera entre elas causa para o mais leve rompimento, a não ser as impertinências de João da Mata. Que culpa tinha ela que o padrinho dissesse desaforos à mulher?

E assim ia passando agora, abandonada, sem uma pessoa que se interessasse verdadeiramente por sua sorte, a não ser João da Mata.

— Trataram-te bem? perguntava o amanuense ao voltar do trabalho. — Trataram... murmurava ela.

Mas a verdade é que Maria passava uma vida miserável. De manhã, enquanto João ainda estava em casa, ele mesmo ia levar-lhe café com torradinhas de pão, mas depois, ela ficava entregue à preguiça da criada e à indiferença da madrinha, em termos de morrer de fraqueza. Davam-lhe um caldo ao meio-dia, único alimento com que ela esperava o jantar às quatro horas, quando o padrinho viesse. Por fim quase que não podia suportar aquilo, e nove dias depois, num domingo, levantou-se resolvida a ir jantar com a Lídia, ao menos por desfastio, que aquela casa era um horror! Mostrou a João a carta da amiga, acrescentando que até era bom para ela passar o resto do dia fora, no Benfica, ouvir tocar piano, distrair, enfim, porque andava muito triste.

O amanuense aprovou prontamente: que sim! mas era preciso saber se já estava completamente boa, se não sentia mais nada.

(continua...)

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