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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Luís Dias todo vexado foi assentar-se, sorrindo, ao lado de Ana Rosa, que fez logo um gesto de contrariedade e repugnância.

— E lá os senhores? seu Cordeiro! seu Vila Rica! e esse menino! Venham se chegando!

— Nós esperamos.. Faz-se depois outra mesa!...

— E a darem com a outra mesa! Não, senhor! e a senhora, minha sogra? D. Amância, onde ficam?

— Tem aqui um lugar, minha senhora!... disse Raimundo levantando-se. E ofereceu a cadeira.

— Meu amigo, censurou Manuel, deixe-se dessas coisas! Olhe que estamos no sítio! Isto cá não e cidade para se fazer cerimônias!

— Pagode de sitio não presta, quando nada falta!... arriscou o Serra, mexendo e soprando uma colherada de sopa.

— Não! contradisse o Freitas. Quero a minha comodidade até no inferno!

— Ora está tudo arranjado! gritou Amância, que acabava de preparar outra mesa. Ficamos nós aqui! Somos poucos, porém bons!...

— E eles lá?... interrogou Vila Rica, contando as pessoas da mesa grande, pela seguinte ordem, a partir da cabeceira: “O patrão — um, senhor cônego — dois, D. Maria do Carmo — três, sobrinhas — cinco, o Dr. Raimundo — seis, seu Freitas e a filha — oito, D. Eufrasinha - nove, seu Serra e aquele moço — era o Faisca — onze, o Dias e D. Anica — treze ao todo!

— Treze?! bradou D. Maria do Carmo, soprando o macarrão que tinha na boca. Treze!

— Treze! repetiram todas as senhoras, assustadas. — Saia um! reclamaram.

Ninguém se mexeu.

— Ou venha outro... lembrou o cônego, largando a colher. Em treze não pode ficar!

Suspendeu-se o jantar.

O Freitas passou logo a dar explicações a Raimundo do que aquilo queria dizer, posto haver este declarado de pronto que já sabia perfeitamente.

— Não há mais ninguém por ai?

Maria Bárbara levantou-se e foi buscar lá dentro uma negrinha de três anos.

— Aqui tem!

— E verdade! E o Casusa?!...

— É verdade, gente, seu Casusa!... — Venha o Casusa!

Casusa dormia. tinha tomado um banho e recolhera se cansado. A pequena foi novamente levada para a cozinha.

— Moleque! Chama seu Casusa ai no quarto!

O Casusa veio bocejando e esticando os braços.

— Para que jantar tão cedo?... Não tenho apetite algum!... resmungava ele, abrindo a boca.

— Cedo!... Se lhe parece!... Já deram cinco horas!

— Quase que ficavas a ver navios!... considerou Sebastião, rindo.

— Olha o prejuízo!... desdenhou Amância, com um esgar de pouco caso.

— Tu já queres intrigar comigo, coração?... Depois te queixa!... Mas, enfim onde me assento? O que não vejo é lugar! Ah, exclamou, voltando-se para a mesa pequena. Tenho-o cá, e em boa companhia!

— Pra lá, opôs-se Amância, escandalizada.

—Venha pra cá, homem de Deus! Você é cá necessário!

E com dificuldade arranjou-se uma cadeira ao lado de Sebastião.

— Ora até que afinal! disse Manuel, assentando-se descansadamente.

— Tollitur quaestio!

E o cônego sorveu uma colherada de sopa.

Fez-se silêncio por um instante; só se ouvia o arrastar das colheres no fundo do prato e os assovios dos que chuchurreavam o macarrão.

O Cordeiro cercava Amância, e Maria Bárbara de cuidados, cuja delicadeza procurava acentuar à forca de diminutivos:

— Uma coxinha de galinha, senhora D. Amancinha!...

— E um perfeito cavalheiro!... segredava esta à outra velha. Compare-o só com a peste do Casusa!...

— Não! que os rapazes de lá são mais aqueles... está provado!

— Têm outro assento que não têm os de cá!

— O senhor Serra, passa-me o pires das azeitonas?... E bondade.

— Quer mais pirão, D. Lindoca?

— Muito obrigada, assim! chega! Um tiquinho só!

— Gentes?... você come essa pimenta toda, D. Etelvina?!...

— Basta, oh! Não quero afogar-me em caldo!

— Tenha o obséquio de encolher as asas, meu amigo!

— Não enchas a boca desse modo!... dizia a velha Sarmento a uma das sobrinhas. Era o que tinha o Espigão! - comia como um danado, mas ninguém dava por isso!

— Olhe que você me suja de gordura, seu Casusa! Que diabo de homem!...

— Então! Quem mexe esta salada?!

— A salada, sentenciou judiciosamente o Freitas com um sorriso, deve ser mexida por um doido!

— Então, tome conta, seu Casusa!

— Quanto quer o menino pela graça?... Se tivesse um vintém aqui, dava-lho,

“seu poeta!”

Isto era entre o Casusa e o Faísca.

— Doutor, não deixe apagar a lanterna! recomendava Manuel a Raimundo.

— Uma fatia de porco, D. Maria Bárbara.

— Deite menos, minha vida! Assinzinho!

— Dona Etelvina! a senhora está magra de não comer!...

— Ai! suspirou ela fitando o talher cruzado sobre o prato.

— Não queres arroz, ó Sebastião?

— Não! Vou à farinha-d'água.

(continua...)

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