Por Franklin Távora (1879)
— Tens tanta confiança em D. Maurícia, Sinhazinha, como se ela fosse tua mãe ou tua irmã. Se pensas que há de fazer mais por ti do que por ela, está enganada.
— Não diga isso, minha mãe. D. Maurícia tem muito boa alma.
— Tola! Não passas de uma tola! Eu tudo estou vendo e pelos domingos vou tirando os dias santos. Já observaste que o Dr. Ângelo só se senta ao pé dela, e que só com ela tira conversa?
— Quem é que não gosta de conversar com D. Maurícia, que é tão instruída e bem educada?
— Não seja simplória, minha filha. Eles aproximam-se um do outro porque alguma coisa existe entre eles dois. Que quer dizer D. Maurícia compor um acompanhamento para uma poesia do Dr. Ângelo, mandar-lhe traduções feitas por ela, conversar com ele horas inteiras? Não te iludas, Sinhazinha!
A menina começou atentar nestas traiçoeiras sagacidades do amor maternal e achou que havia fundamento. As suas suspeitas redobraram com a intensidade da moléstia espiritual de Maurícia, que lhe parecia ocasionada pelo amuo do bacharel.
Uma manhã, Martins, passando os olhos por uma das folhas diárias do Recife, teve grande surpresa. Acabara de ler a nomeação de Ângelo para o lugar de promotor de uma comarca do interior. Mas a surpresa não lhe foi inteiramente desagradável; e dando a notícia a Eugênia, acrescentou estas palavras:
— Já era tempo de procurar um emprego e entrar numa carreira séria e decente. está apodrecendo no Recife.
Igual, senão maior surpresa teve D. Matilde, quando o filho lhe indicou o seu despacho na folha, Por pouco ela não teve uma síncope. Não havia para ela sacrifício maior do que viver separada do filho.
— Que resolução foi esta, Ângelo? E por que não me ouviste antes, meu filho?
— Eu sabia que as suas lágrimas haviam de ter força para dissuadir-me de um pensamento, e um propósito que não pode, aliás, deixar de redundar em benefício de minha mãe e meus irmãos. D. Matilde começou a chorar.
— Muito me há de custar a separação, minha mãe, mas a lei fatal da necessidade pode mais que as leis do coração. Tenha paciência. Preciso de meios para sustentar a família, e o escritório não os proporciona. Devo ir buscá-lo onde eles se me oferecem, ainda que seja distante daqui.
Dois dias depois, Ângelo seguiu para a comarca. Ia com ele imensa dor. A imagem de Maurícia, impressa no pensamento, não o deixava um instante, no meio das suas fundas cogitações; e ao lado dela, aparecia D. Matilde, chorosa e triste como no momento da despedida. Nunca as saudades tiveram tamanha força em seu coração. Também as longas e desertas solidões, que ele atravessava muito deveriam concorrer para semelhantes impressões.
— Talvez — dizia ele consigo — talvez que, tendo conhecimento deste meu passo, Maurícia ainda venha a retribuir o meu afeto. Mas quem sabe se eu não ando iludido? Maurícia pensará ainda em mim? Pense ou não, é ela o único objeto do meu afeto.
Maurícia pensava nele, e não podia esquecer-se dele. Quando Virgínia lhe disse que lera no jornal a nomeação de Ângelo, ela correu como louca para verificar com seus olhos esta fatal notícia. Sentiu todas as amarguras, todos os tormentos que sofrem de perto os namorados com tudo o que pode prolongar a ausência do objeto das suas afeições.
Estava ela ocupando de novo o antigo aposento, na casa-grande, para onde se mudara depois da fugida de Bezerra. Concentrou-se aí com a grande dor. Poucas vezes, descia à sala, onde costumava reunir-se com D. Carolina, Virgínia e outras senhoras. Deu em tocar e cantar músicas tristes. Perdia as noites em longas abstrações.
— Foi a fatalidade que pôs em minha alma esta paixão! - dizia algumas vezes.
E as lágrimas deslizavam-se-lhe pelas faces. Outras vezes, advertia:
— Se eu fosse livre, se eu pudesse dizer-lhe: “posso dar-lhe o meu amor, posso retribuir o seu afeto, podemos viver juntos até a morte” não haveria quem fosse mais ditosa do que eu!
Mas logo recaía em sua habitual melancolia. E então acrescentava:
— Ai de mim! Esta paixão leva-me à sepultura.
Maurícia tinha-se esquecido quase inteiramente de Sinhazinha. Também esta não lhe aparecera, nem escrevera mais. Quando alguma vez aquele se lembrava da promessa que fizera, acudia como defesa de si própria.
— Fiz por ela o que me foi possível; mas ele não esteve pelas minhas súplicas.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.