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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Quando chegaram ao engenho Itapirema, em cuja capela estivera oculto em outubro do ano anterior para escapar à prisão ordenada pelo governador Castro Caldas, o ouvidor de Olinda dr. José Inácio de Arouche, era quase noite. O rio tinha tomado muita água e estava de nado.

- Como há de ser isso agora? Perguntou Gil, pondo os olhos naquele mar d’água, que se estorcia por baixo de galerias de folhagens, estrepitoso e medonho. Para atravessarmos esta imensidade agora de noite, corremos o risco de perder algum companheiro. É entretanto necessário passarmos hoje mesmo da outra banda; porque, antes que a alva esclareça, devemos achar-nos na vila. Aliás poderemos chegar já fora de tempo. - Eu já sei porque é esta pressa toda, disse Francisco.

- Porque é?

- É porque em Goiana se receia que da Paraíba passe a gente prometida aos mascates pelo capitão-mór. Eu de tudo sei, seu comandante.

- Mas então vê lá se nos dás remédio a isto.

Porque não havemos de passar já? respondeu Francisco, saltando do cavalo à beira do rio, onde a tropa fora obrigada a fazer alto. Há aqui um ponto onde o Itapirema dá vão. Mas está tudo encoberto e não se pode saber onde fica a trilha.

Quase meia hora gastou ele em procurar, sempre debalde, a oculta passagem. Com água, ora pela cintura, ora pelos peitos, ora pela boca, percorreu uma extensão de cerca de vinte braças ao longo da margem. De uma vez caiu dentro de um poço, de que só se salvou por ser forte nadador.

Estava já quase de todo escuro quando, exausto do muito lutar com o impetuoso elemento, que puxava com extrema velocidade lhe pareceu ter dado com o vão desejado, que ele próprio já perdera a esperança de achar.

Veio à terra, muniu-se de um facão, e atirou-se novamente a nado para o meio do rio. Distante da margem cerca de seis braças, um mulunguzeiro, cujo tronco o ímpeto da corrente retorcera e cuja folhagem redemoinhava açoitada pelos novelões revoltos, foi o ponto negro para onde se dirigiu o matuto. Em torno da arvore desacompanhada as águas fremiam vertiginosas, acusando de baixo delas abismo insondável.

- Eh, meu negro! Exclamou Francisco, dirigindo-se ao rio. Estás assobiando e gemendo? Não vês aqui o teu amigo, famanaz do Cajueiro? deixa as tuas raivas para outros. Eu sou teu antigo conhecido. Faz-te de cera, coração. - Assim gracejando deixou-se o matuto levar pela força da corrente, e quando à claridade duvidosa do crepúsculo pareceu a todos os que da margem tinham os olhos postos nele, inevitável a sua perda, o matuto barafustou na folhagem retorcida e apagou-se um momento da vista dos presentes. Morreu!

- Afogou-se.

Tais foram as vozes que partiram de diferentes bocas.

Súbito ouviu-se bater o facão sobre os galhos superiores do mulunguzeiro. Ninguém viu mais Francisco, mas todos ouviram o rumor dos golpes da pesada arma, movida por sua mão possante contra o atleta vegetal que o Itapirema trabalhava por engolir. Não se demorou muito que os golpes cessaram e uma sombra negra, passando rápida, vertiginosa, como nuvem fatástica, aos olhos da tropa, sumiu-se no turbilhão. Era a ramagem do mulunguzeiro que fugia, deixando aparecer nua, escalavrada, acima da superfície do rio, a parte superior da árvore, e no cimo desta o destemido matuto.

Mas não estava completo o serviço. Francisco veio outra vez á terra, e tendo tirado um fuzil do saco vazio que pendia do cabeçote da cangalha, encaminhou-se para uma macahibeira que a alguns passos aparecia solitária. Umas folhas secas, que a tempestade tinha abatido aí, foram apanhadas pelo intrépido matuto, e com elas improvisou ele um facho.

Então, voltando-se para a tropa disse:

- Vamos passar o rio. Eu vou na frente, feito guia. Com o homem ninguém pode, comandante. É o bicho mais valente que eu conheço. Qual cobra, nem onça, nem rio, nem raio! Quando o homem é homem, fique certo que vence pedras, água, o próprio fogo.

E meteu-se imediatamente no liquido elemento.

Quem souber o que é um rio cheio, nos caminhos do norte, especialmente o Itapirema, que pelo inverno costumava arrebatar e ainda arrebata às vezes algumas vidas, ajuizará da coragem de Francisco e do serviço que prestava. O rio roncava e estorcia-se ainda irritado e ameaçador. Mas a fúria que causava horror a quem um momento atrás levara a vista ao mulunguzeiro, essa, com a ausência da folhagem, tinha diminuído, deixando que as águas corressem mais livremente e menos arrebatadas que antes.

Levaram talvez um quarto de hora a romper o vasto mar, ora em linha reta na direção do norte, ora contornando cotovelos de terra firme.

De repente uma luzinha apareceu como santelmo, na margem fronteira. Era o lume da casinha de um morador do engenho.

- Estamos da outra banda, minha gente. Ali está a casa do Manoel Felix, onde poderemos tomar algum trago. Acho-me todo resfriado.

Quando pisaram terra, Gil Ribeiro, aproximando-se de Francisco, dirigiu-lhes estas palavras:

- Obrigado, camarada. Você nos prestou um serviço que não tem preço.

(continua...)

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