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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

– Não faltava mais nada! ia ele rosnando pelo caminho. – Eu ter medo daquela caboclinha, como se fosse minha mãe ou minha senhora- moça!... nada! quer tomar-me à sua conta!... está enganada; – nem tão bobo sou eu, que me deixe alinhavar como o cacique, que ela matou... não me mete cucas... porventura ela é minha mulher para me proibir que eu esteja com a coitadinha da Rosália! ao menos ela não anda de faca e nem tem dentes de onça para morder a gente. Hei de ir vê-la, quer Jupira queira, quer não. Se quiser ver, veja; se não quiser, não me ande espiando.

Fazendo estas reflexões Carlito entrava em casa de Rosália muito ancho e senhor de si. Jupira o viu; sem mais demora meteu no seio a sua faquinha prateada, e com os olhos em chama e batendo os dentes como o javardo em furor saiu e correu para a casa de Genoveva. Era esta um pequeno rancho, cuja frente constava unicamente de uma sala com uma porta e uma janelinha. Nesta sala sentados em um banco se achavam Carlito e Rosália, enquanto a mãe descuidada lavava roupa na fonte do quintal. Jupira chegou sutilmente e sustendo a respiração para não ser pressentida, avizinhou-se à janela e olhou para dentro. Enlaçados em um delicioso abraço os dois amantes beijavam-se em um beijo sem fim, e tal era o seu enlevo que não deram fé da chegada de Jupira. Esta mal deu com os olhos naquele interessante espetáculo, levou subitamente a mão ao coração, como se o sentisse atravessado por uma facada, abafou um grito, e ficou por um momento hirta, pálida, imóvel. Depois levou a mão ao seio e apalpou a faca, mas hesitou e abanando a cabeça:

– Não! não! – murmurou; – ainda não!.. mais tarde.

E deitou a correr para casa. Lá foi dar desabafo à violência da dor e da raiva que a torturavam, e os mais atrozes planos de vingança lhe tumultuavam no espírito. Ter-lhe-ia sido fácil matá-los a ambos, mas isso não a satisfazia. Queria fazer Carlito sofrer muito e por muito tempo dores horrorosas do corpo e da alma, insultá-lo, esbofeteá-lo, cuspir-lhe no rosto, antes que morresse, e depois apunhalar-se sobre o seu cadáver. Entregue a um turbilhão de idéias, que se atropelavam em seu espírito, indecisa, arquejante, louca, ora percorria a casa a passos precipitados, ora se debruçava sobre o leito arrancando soluços convulsos e chorando lágrimas de sangue.

Nesta terrível agitação a veio achar Quirino, que entrava pela porta adentro. Ao vê-la com as feições transtornadas, os olhos macerados e injetados de sangue, os seios ofegantes, o olhar torvo e desvairado, Quirino recuou de espanto.

– Meu Deus! – exclamou ele, – o que lhe terá acontecido, que a vejo tão alterada!

– Ah! o senhor está aí, moço...

– Desculpe-me, se está incomodada, eu vou-me embora.

– Incomodada!... não... não estou; mas... estou com uma raiva... disse a cabocla encrespando os punhos, e trincando os dentes.

– Raiva?!.. de quem?... será de mim, meu Deus!...

Jupira não sabia ocultar, nem disfarçar os tempestuosos transportes de sua alma ardente; sentia mesmo necessidade de desabafar a sua cólera, e foi dizendo tudo sem rebuço nem preâmbulos.

– Do senhor?! não; – replicou a cabocla; – é de um atrevido, de um malvado, que me desfeiteou...

– Quem foi esse atrevido?... diga, diga já, que quero ir castigá-lo neste instante...

A cabocla fitou em Quirino um olhar firme e penetrante, como quem queria devassar-lhe o fundo da alma, e perguntou-lhe:

– Moço!... o senhor me quer bem, mesmo como tantas vezes me tem dito?

– Ainda pergunta?!... não é possível querer-se mais bem do que eu lhe quero.

– Pois bem! é chegada a ocasião de mostrar, que é deveras que me quer bem.

– Sim, formosa Jupira?... quer dar-me esse gosto?... o que quer que eu faça?... fale... aqui estou às suas ordens como o mais humilde de seus escravos!... disse Quirino pondo-se de joelhos aos pés da cabocla.

– Então está pronto a fazer o que eu mandar?...

– Pronto! pronto sempre, linda Jupira; não há impossível a que não me arroje por seu amor.

– Jura?

– Juro.

– Pois bem; escute; o senhor conhece o Carlito, não conhece?

– Se o conheço!... muito; desde criança.

– Pois saiba que foi ele, quem se atreveu a desfeitear-me.

– Deveras!.. o Carlito? aquele fedelho, aquele biltrezinho?... que atrevido!... vou já puxar-lhe as orelhas, e esfregá-lo a cachações.

– Arrancar-lhe o coração, e beber-lhe o sangue é o que eu queria...

mas escute, moço; eu preciso dizer-lhe toda a verdade; eu queria muito bem àquele menino...

– Queria-lhe bem?... deveras, Jupira?... ah!... por que razão não me falou isso há mais tempo?

Quirino soltou um gemido abafado.

– Como, se nem eu mesmo sabia? replicou-lhe a moça; – empreguei bem mal o meu amor... mas não se aflija, moço; se era grande o amor, maior é o ódio que hoje lhe tenho. Tinha vontade de ver varado a facadas aquele maldito e pisá-lo debaixo dos pés... ah! se eu pudesse virar-me em onça para estrafegá-lo entre meus dentes e chupar-lhe todo o sangue do coração!... mas o senhor quer o meu amor?... quer que eu seja para sempre sua?...

– Ah! não me pergunte; para tê-la um só instante nos meus braços, eu daria mil vidas, que tivesse.

(continua...)

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