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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Então Fradinho exasperou-se. E por que não havia de durar? O General era o grande patriota nacional. Os outros ministros eram inteligências estimadas! No fim de contas, mesmo quando o General inaugurasse a ditadura, caramba! A ditadura era necessária, num País como este! Que tinha feito a Câmara? Palrado! Oitenta cavalheiros a palrar não organizam, não criam, não fecundam. Era necessário um homem! Veja você Napoleão! Precisamos de um Napoleão!

– Mas Abranhos, obstinadamente, murmurou:

– Não dura, os amigos verão. Não dura três meses... Se durar! Mas não dura...

Fradinho perdeu o domínio de si mesmo. Arrastou Alípio para o vão da janela e atacou-o em surdina: – Por que não havia de aceitar a pasta? Se não fosse por ele, por sua esposa, que fosse pelos seus amigos... Era necessário franqueza, que diabo! Aí estava a pobre D. Joana, com o cirro no estômago, coitada, e o marmanjo do sobrinho, sem um bocado de pão! Era necessário empregar aquele marmanjo! Aí estava a D. Amália que queria a sua pensão. Aí estava o padre Augusto – e todos sabiam os serviços que lhe prestara – que se mirrava no desejo de ser cónego! ... Abranhos não podia trair os seus amigos, as suas legítimas esperanças... Ele, Fradinho, podia falar livremente, não desejava nada. Tinha a sua banca de advogado, oitocentos mil-réis por ano. Mas os outros: o coronel! o Doutor! o Tavares! Era necessário ter consideração pelos amigos que se esfalfavam a ir daqui e dali, a glorificar o Sr.

Alípio Abranhos! ... Devia aceitar a pasta, por decência, por gratidão...

– Não me cheira, não me cheira... – murmurou ainda Alípio.

Então Fradinho, vermelho, suado do esforço, foi ter com os outros dois, e travando-lhes do braço:

– É uma besta, diz que não lhe cheira! Vamo-nos embora, deixemo-lo com a mulher. Ela lhas cantará.

Com efeito D. Virgínia atacou o marido com a sua habilidade feminina. Parecia-lhe, a ela, uma tolice perder aquela ocasião. Quando voltaria outra assim? Era tentar a sorte. Que ela não queria que ele fosse ministro para ir ao Paço, a figurar, a espanejar-se! Era para calar a boca a certos fulanos e sicranos, que tinham dito – sabia-o ela pelas Vitorinos e pela mãe – «que Abranhos era um parlapatão que nunca havia de ir a ministro!» – O quê, disseram isso? – exclamou Alípio.

E naquele instante teve o desejo furioso de aceitar a pasta e triunfar, ali, em Lisboa. Mas a sua razão de estadista manteve-o firme, e apenas acrescentou:

– É lá possível que dissessem semelhante coisa?

– Juro-te, filho. Disseram-no à mamã. Vê tu que descaro...

Tenho razões para crer que D. Virgínia inventava, mas nem por isso a sua finura feminina é menos admirável. Alípio, porém, desprendeu-se da sua sedução, daquelas carícias penetrantes que queriam amolecer, fazer ceder a sua integridade política, e disse com bondade:

– Tu não entendes destas coisas, filha. Eu não sou tolo. Para ser ministro uma vez, não quero perder a probabilidade de o ser dez vezes...

Tal era, com efeito, o raciocínio deste grande homem. O ministério do General era um ministério de revolta, de acaso, de surpresa, de conspiração, que daria um carácter suspeito a todos os que dele fizessem parte, inutilizando-os para a vida política, feita de legalidade, por se terem introduzido uma vez no poder pela porta travessa da revolta.

Não eram políticos, eram insurrectos, e não tornariam a voltar ao poder senão pela insurreição, o que equivalia a dizer, nunca mais na sua existência. E como, através das fórmulas precisas que empregava, falando com sua mulher, ele parecia sentir mais intensamente a prudência, a sabedoria da sua resolução, apressou-se a escrever esta carta, que ficará na História, e que é dos mais belos documentos que conheço de patrio-tismo esclarecido:

General:

Tenho o respeito mais profundo pela pessoa de V. Exª, mas, pesa-me dizê-lo, eu não poderia, dados os meus princípios, aceitar uma pasta num ministério que teve a sua origem num acto violento e inconstitucional.

De V. Exª

Criado respeitosíssimo

ALÍPIO S. DE NORONHA ABRANHOS.

Nessa noite, o cavalheiro que, por perrice, recusara a pasta da Justiça, tendo reconsiderado, o ministério militar e revolucionário, de 20 de Junho, ficou definitivamente organizado.

Mas os dias seguintes foram amargos para Alípio Abranhos. D. Joana Carneiro e D. Amália Saraiva, informadas pelo coronel da recusa de Alípio, vieram de manhã «fazer uma cena» a D. Virgínia. Uma, via a sua pensão indefinidamente adiada, e a outra ali estava, com o seu cirro e aquele sobrinho desempregado que a ralava de desgostos. O Sr. Alípio não tinha entranhas! Choramingaram e D. Virgínia não lhes ocultou que reconhecia no seu marido um carácter teimoso, obstinado, casmurro. Ai! uma mulher devia pensar muito, antes de se casar!

– E a ti, filha – disseram lacrimosamente as duas amigas – recusar-te a posição, a consideração!...

– Eu não é por mim, mas é pela mamã... Que ele, sendo da Justiça, era também dos Negócios Eclesiásticos, e vejam que influência!

– Ai! é uma vilania! Olha o pobre padre Augusto, que ocasião perde...

(continua...)

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