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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

O sino de bordo começou a tocar. Os marinheiros elevaram o corpo à altura próximada amurada. Então ergueu-se um canto grave, melancólico, de uma infinita tristeza. O padre rezava com as mãos impostas sobre o cadáver. E afastando-se, disse:- In aeternum sit!Todos responderam:

— Amen!O vento gemia. Lorde Grenley adiantou-se e disse em voz alta: — Neste dia, a bordo do Romantiç navio inglês, morreu Cár men Puebla, de naçãoespanhola, e para eterna protecção do seu corpo, como sendo sepultada em território britânico, foi amortalhada na bandeira inglesa. In pace.

— Amen! — responderam os marinheiros.- Em nome do Padre — disse o capelão -, do Filho e do Espírito, santa seja a sepultura a que ela é deitada, e que fique como em terra sagrada nestas águas do mar!- Amen! — murmuraram os marinheiros.- Ao mar! — disse Lorde Grenley com voz forte.

Os dois marinheiros suspenderam o cadáver sobre o mar; to dos se aproximaram, fazendo círculo com os archotes; o cadáver, arremessado, mergulhou com um som lúgubre, desapareceu, e a espuma das vagas correu-lhe por cima.

Os archotes foram apagados num triste silêncio. O navio afas tava-se. Eu, encostado àamurada, tinha os olhos fitos no ponto vago onde o corpo desaparecera. Ela ali ficava morta.

Encheu-me o peito uma longa saudade. Lembrava-me dela, dançando no convés do Ceilão, rindo à mesa do Clarence-Hotel. Tinha tudo acabado. Nunca mais! nunca mais! Ali ficavacom uma bala aos pés!

O vento refrescou.- Vento de este! — disse o marinheiro de quarto. «Vem de Malta...», pensei eu. E as minhas últimas lágrimas caíram sobre o mar...

XV

Cheguei ao fim das minhas confidências. Quando desembarquei em Lisboa a condessa tinha ido para Sintra. Via-a, ao fim desseVerão, em Cascais. Ela mostrava-se alegre, o que era talvez uma maneira de estar triste!

Cascais esta va imbecilmente jovial: batia-se o fado! No Inverno seguinte a con dessaencontrou-se, em Paris e em Londres, com Rytmel. Voltou dessa viagem mais triste e mais pálida. Lentamente, pareceu-me que a confiança do seu coração se afastava de mim. Apartei-me, numa reserva discreta. Nunca mais nos nossos diálogos, todos ex teriores eefémeros, se aludiu à viagem de Malta.

Eu, no entanto, continuava recebendo de Rytmel as cartas mais expansivas e mais íntimas. A nossa amizade, que a exaltação e o acaso das paixões formara, afirmava-se agoranuma comunhão serena de sentimentos e de ideias. Numa dessas cartas Rytinel fa lava-me de miss Shorn, uma rapariga irlandesa...«É uma neta dos bardos, uma sombra ossiânica, a alma da verde Erin!», dizia-me ele.

No começo desta Primavera recebi uma carta de Rytmel que continha estas palavras: «Parto para aí: um quarto livre e solitário em tua casa; bons charutos; uma casaafastada e livre num bairro pobre; um coupé escuro com bons estores; reserva e amizade. — Frater, Rytmel.»Executei escrupulosamente as suas determinações.

Há sessenta dias, talvez, Rytmel chegou, no paquete de Southampton. Pareceu-me mais triste mais concentrado.Havia certamente um segredo, uma preocupação, um cuidado qualquer, que habitava no seu peito. Esperei que ele se abrisse ex pansivamente comigo nalguma das longas horasíntimas, em que, no jardim da minha casa, falávamos na essência dos sentimentos. Nunca dos lábios dele saiu uma confidência: apenas duas ou três vezes o nome de miss Shorn, que, segundo ele me disse, era uma relação recente de sua irmã, apareceu vagamente noindefinido da conversação.

A sua vida, em minha casa, era de um extremo recolhimento.Parecia mais um refugiado político do que um amante amado. Não tinha relações nem convivências. Às vezes de manhã saía num coupé cuidadosamente fechado, que perpetuamente estacionava à porta.De tarde, às oito horas, saía também, e só o via no outro dia ao almoço, em que ele aparecia sempre levemente contrariado pelas cartas que lhe vinham de Londres e de Paris.Notei por esse tem po umas certas tendências místicas no seu espírito, de ordinário tão positivo e tão rectilíneo. Surpreendi-o mesmo uma vez lendo a Imitação.

Num carácter lógico e frio como o de Rytmel, aquele estado de espírito era decerto o sintoma de uma grave perturbação do cora ção. Falava às vezes de Cármen, sempre com saudade. Gostava de conversar das coisas de religião e das legendas do Céu. Falava na Trapo, no sossego imortal dos claustros, e nasquimeras da vida. Eus estranhava-o.



(continua...)

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