Por Eça de Queirós (1901)
Eu? Um livro? Possuía apenas o velho número do Jornal do Comércio, que escapara à dispersão dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo meio, partilhei com Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade, que era a dos anúncios... E quem não viu então Jacinto, senhor de Tormes, acaçapado à borda da enxerga, rente da vela de sebo que se derretia no alqueire, com os pés encafuados nos socos, perdido dentro das ásperas pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo num pedaço velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos Paquetes – não pode saber o que é uma intensa e verídica imagem do Desalento.
Recolhido à minha alcova espartana, desabotoava o colete, num delicioso cansaço, quando o meu Príncipe ainda me reclamou:
-Zé Fernandes...
-Diz.
-Manda também no saco um abotoador de botas.
Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao penetrar no Sono, que é um primo da Morte: ”Deus seja louvado!” Depois tomei a metade do Jornal do Comércio que me pertencia. -Zé Fernandes...
-Que é?
-Também podias meter no saco pós dos dentes... E uma lima das unhas... E um romance!
Já a meia Gazeta me escapava das mãos dormentes. Mas da sua alcova, depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um bocejo:
-Zé Fernandes...
-Hem?
-Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragança... Os lençóis ao menos são frescos, cheiram bem, a sadio!
IX
Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu Jacinto, que, com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga de granito – parti para Guiães.
Ao cabo duma semana, recolhendo uma manhã para o almoço, encontrei no corredor as minhas malas tão desejadas, que um moço do casal da Giesta trouxera num carro com “recados do sr. Pimentinha”. O meu pensamento pulou para o meu Príncipe. E lancei pelo telégrafo, para Lisboa, para o Hotel Bragança, este brado alegre: - “Estás lá? Sei recuperaste Grilo e Civilização! Hurra, Abraço!” – Só depois de sete dias, ocupados numa delicada apanha de aspargos com que outrora civilizara a horta da tia Vicência, notei o silêncio de Jacinto. Num bilhete postal renovei, desenvolvi o grito amigo: - “E tornam desatento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas? Tempo delicioso! 23º à sombra. E os ossos?” – Veio depois a devota romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a Luanova andei num corte de mato, na minha terra das Corcas. A tia Vicência vomitou, com uma indigestão de morcelas. E o silêncio do meu Príncipe era ingrato e ferrenho.
Enfim, uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima Joaninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de certo vinho branco que a minha alma conhece – e sempre pede .
Defronte, à porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado num banco. Mandei encher outro quartinho: ele acariciou o pescoço da minha égua que já salvara dum esfriamento; e como eu indagasse do nosso Melchior, o Severo contou que na véspera jantara com ele em Tormes, e se abeirara também do fidalgo...
-Ora essa! Então o sr, D.Jacinto está em Tormes?
O meu espanto divertiu o Severo:
-Então V. Exª... Pois em Tormes é que ele está, há mais de cinco semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai lá uma grandeza!
Santíssimo nome de Deus! Ao outro dia, Domingo, depois da missa e sem me assustar com a calma que carregava, trotei alvoroçadamente para Tormes. Ao latir dos rafeiros, quando transpus o portal solarengo, a comadre do Melchior acudiu dos lados do curral, com um alguidar de lavagem encostado à cintura. – Então o sr. D. Jacinto?... O sr. D. Jacinto andava lá para baixo, com o Silvério e com o Melchior, nos campos de Freixomil...
-E o sr. Grilo, o preto?
-Há bocadinho também o enxerguei no pomar, com o francês, a apanhar limões doces...
Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidraças novas, bem polidas. A um canto do pátio notei baldes de cal e tigelas de tintas. Uma escada de pedreiro descansara durante o dia Santo arrimada contra o telhado. E, rente ao muro da capela, dois gatos dormiam sobre montões de palha desempacotada de caixotes consideráveis.
-Bem – pensei eu. – eis a Civilização!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.