Por Lima Barreto (1909)
Adelermo Caxias não compreendeu bem o titulo de Oliveira e perguntou: —Por que pampa?
— Pampa não é campo?
Caxias, apesar da justificativa, não o quis e perguntou a outro:
— Qual deve ser, Floc?
— “Bucolismo e tragédia”?
— Qual! É erudito...
— “Ciúme e crime”.
— Por que ciúme?
Por fim, chegou Leporace e lembrou um título rocambolesco de romance popular: “Descampado da morte”. Boa idéia! — gritaram todos; e Adelermo pôs-se a escrever.
A calma voltou um instante à redação, mas foi logo interrompida pelo tilintar do telefone. Lemos, que estava na polícia, mandava dizer que se tinha encontrado um chapéu de palha, quase junto aos cadáveres. A multidão, em frente ao jornal, aumentava sempre. Muitos subiam pedindo informações. A curiosidade era geral; o crime impressionara a população. Por essa estranha e misteriosa faculdade das multidões, aquele caso, vulgar um mês antes ou depois, naquele dia tomou a proporção de um acontecimento, de um fato pouco comum. Para atender à impaciência da massa, constantemente se telefonava para a polícia. A resposta era a mesma; não havia noticias. O diretor, por detrás da veneziana semicerrada, espreitava o poviléu embaixo. Os repórteres chegaram trazendo para a redação a ansiedade das ruas, a emoção dos cafés — toda a imprevista vibração da cidade em face daquele fato de polícia quase banal.
Cá do outro lado da sala de redação, sentíamos que o “doutor” ouvia todas aquelas noticias com interesse. Havia estalidos na cadeira, tênues ruídos de movimentos de atenção. Houve um momento em que não se conteve. Veio à sala geral, inquirindo este, perguntando àquele; e certo da superexcitação do público, da extensão que a notícia tinha alcançado na cidade, da intensa curiosidade que dominava toda a gente e ainda mais que o Jornal do Brasil punha, de quando em quando, um boletim — determinou que o Adelermo inventasse qualquer coisa, indícios, depoimentos, quaisquer informações. E fez isso em altas vozes, congestionado, meio zangado e meio contente, expectorando injúrias contra o rival.
Adelermo era a imaginação do jornal. Nascera no Maranhão e escrevia regularmente. Apesar de nunca se ter feito notar por uma associação mais original de idéias, no jornal era imaginoso porque nascera no Norte e tinha uma boa dose de sangue negro nas veias. As generalizações dos jornais são infalíveis...
Mas... Adelermo era a imaginação do jornal, e em seus ombros recaia todo o peso da necessidade de informações imediatas ao público quando os documentos faltavam ou eram omissos.
Se havia um atentado anarquista ou um terremoto na Europa e o telegrama era por demais conciso, Adelermo tinha o encargo de desenvolvê-lo, de explicá-lo, de reconstruir a cena para o gosto público. Às vezes, pediam-se-lhe mais detalhes; o diretor queria a descrição do complot, a cena da “sorte”, à lôbrega luz de um fumarento lampião, em uma mansarda.
Adelermo era obediente e fazia. Intimamente desgostava-se com aquele papel de mentiroso; mas temia ser despedido, posto na rua. Era esse o grande terror de todos. Não eram os ordenados, não era a miséria que os apavorava; temiam não encontrar outro lugar nos jornais e perderem por isso a importância, a honra suprema de pertencer ao jornalismo. Eles não valiam por si; o jornal é que lhes dava brilho.
Nas invenções de Adelermo, quase sempre se passavam coisas fantásticas e curiosas.
Havia então complicações de topografia, ruas metidas umas nas outras; mas o terremoto que a potente imaginação de Adelermo levava às grandes cidades da Europa, passava completamente despercebido ao público e ninguém, dias depois, se lembrava de cotejar as noticias dadas pelo O Globo com as que vinham nos jornais da Europa.
Caxias não se deteve; pôs-se logo a escrever. Ele não conhecia a região; nunca passara de São Francisco Xavier e fora uma vez acompanhar um figurão argentino a Belo Horizonte em serviço de reportagem, num rápido. Para os lados de Santa Cruz, nunca tinha ido, não sabia coisa alguma da situação da localidade, da sua posição relativa às outras estações. Tendo tido notícia que os empregados da estrada não se lembravam de ter visto desembarcar na estação um par nas condições do assassinado, concluiu que o casal tinha ido a pé de Cascadura — estação que lhe parecia ser muito próxima do tradicional curato.
O boletim ia ser posto, quando alguém mais bem informado objetou:
— Cascadura! Não é possível, Adelermo! Fica léguas distante de Santa Cruz.
— Então de onde podia ser? Eles foram a pé da estação mais próxima... Isso não há dúvida! Qual a estação mais próxima que conheces?
O outro fez um grande esforço de memória, esteve uns instantes a pensar, e disse por fim:
— Há Realengo... Depois... Depois... Campo Grande! Devia ser Campo Grande!
Imediatamente, sem que de todo ficasse apagada a palavra Cascadura, Caxias emendou e o novo boletim foi pregado.
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.