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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Passeio noturno de alegria sem nome. As árvores beiravam a estrada de muros de sombra num e noutro ponto rendada de frestas para o céu límpido. No caminho, trevas de túnel e agitação confusa das roupas, malhada a esmo de placas de luar brando — reptil imenso de cinza e leite em vagarosa subida. Que sonho de cócegas experimentaria o colosso, na dormência de pedra que o prostrava ainda, espezinhado pela invasão! Subíamos. Pelas abertas do arvoredo devassávamos abismos; ao fundo, a iluminação pública por enfiadas, como rosários de ouro sobre veludo negro.

A boa altura, acampamos para o café. Criados que nos precediam com o farnel, improvisaram um balcão, e nos serviam sucessivamente na ordem da forma. Felizes alguns, conseguiram uma gota de fino Porto, mais quente que o café, reforçando com um banho interno de conforto contra a umidade da altitude e da hora, inflamando a coragem como um punch, avivando a alegria como um brinde de fogo.

O espaço aparecia mais claro sobre a renda das ramas; as últimas estrelas por entre as folhas emurcheciam como jasmins, e fechavam-se. Aristarco deu ordens à banda. A subida recomeçou em festa, um dobrado triunfal rasgou o silêncio das montanhas espavorindo a noite; o bombo de Rômulo trovejou robusto, com imensa admiração da passarada que o espiava metendo o bico à beira dos ninhos, que o cobiçava talvez para genro, aturdindo os ecos com um repente brutal de alvorada.

Ao passo que nos elevávamos, elevava-se igualmente o dia nos ares. Apostava-se a ver quem primeiro cansava. Cada avanço da luz no espaço era como um excitante novo para a jornada, suavizando a doçura do alvorecer todo o esforço da ascensão. Quando a música parava, ouvíamos na alvenaria do grande encanamento, pelos respiradouros, as águas do Carioca, ciciando queixas poéticas de náiade emparedada.

Avistávamos por hiatos de perspectiva a baia, o Oceano vastamente desdobrado em chamas, extenso cataclismo de lava.

No planalto do Chapéu de Sol paramos. O diretor convencionou que, ao sinal de debandar, assaltaríamos na carreira o espigão de granito empinado à extrema do monte. A rapaziada aclamou a proposta e, com um alarido bárbaro de peleja, arrojamo-nos à conquista da altura.

Chegou na frente o Tonico, meninote nervoso, de São Fidélis, especialista invicto da carreira, corredor de prática e princípios, que de cada exame da Instrução Pública fugia duas vezes à chamada, entendendo que a fuga é a expressão verdadeira da força, e a bravura uma invenção artificial dos que não podem correr.

Rômulo fez a asneira de tentar o espigão; ficou a meio caminho, sufocado, inanimado, roncando por terra.

Almoçamos às dez horas, cada um para seu lado, depois da distribuição frugal do mantimento. Fartos de paisagem, formamos para a descida.

Descida penosa. Tínhamos imprudentemente esgotado as forças na folgança. A marcha de volta foi uma miséria. Formamos ainda, mas já não havia quem olhasse para o alinhamento. As correias frouxas escapavam à cintura, as blusas às correias; os pés cambavam, mal equilibrados no calçado, bambeavam os joelhos passadas de bêbado.

As crianças adiante voltavam os olhos dolorosamente para o diretor, segurando-se uns aos outros pelos ombros, seguindo em grupos atropelados como carneiros para a matança. Aristarco, tão lépido como na subida, estimulava o seu povinho, chasqueando compadecidas ironias.

Quis recorrer ao estimulante da música. Os músicos, derreados, haviam deixado os instrumentos na carroça da matalotagem que vinha longe. Nem tambores, nem clarins; apenas Rômulo, atrás de todos, trazia o bombo de roldão pela estrada como uma pipa.

Por maior tormento, fundia-se a soalheira em chumbo ardente sobre nós, acendendo reflexos insuportáveis na areia da estrada, enquanto reverberava o dia lá embaixo, sobre as casas, pelos jardins nublados de vaporizações de estio, sobre a vegetação das montanhas, a florescer das tristes flores da Paixão da aleluia.

Voltávamos de um dia alegre como soldados batidos. A ordem de marcha decompôs-se aos poucos. Quando chegamos ao Rio Comprido, íamos por bandos dispersos, arquejantes, os de maior fôlego na vanguarda; depois, em cauda interminável de alquebramento, os mais fracos, até aqueles que ficavam pelo chão como enfermos, e que os inspetores buscavam como gado perdido.

No portão do Ateneu, mãos às cadeiras, dentinhos brancos à vista, esperavanos Ângela, fresca e forte, e recebia com uma vaia de risadas aquela entrada de vencidos, homens e moços.

Quando, tempos passados, anunciou-se o grande piquenique ao Jardim Botânico, certo não foi objeção a lembrança deste descalabro de fadiga. Tínhamos almoçado na montanha; tratava-se agora de ir jantar ao jardim. Prontos!

Ao meio-dia, apeava o Ateneu dos bondes especiais à porta do grande parque. Atravessamos cantando um dos hinos do colégio as arcarias elevadas de palmas. Junto ao lago da avenida, debandamos.

(continua...)

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