Por Aluísio Azevedo (1881)
A hilaridade aumentou e o Faísca enfureceu-se, chegando a ameaçar o caboclo, que lhe soma em ar de mofa.
— Eu ainda atiro com alguma coisa à cara daquele diabo! resmungou o estudante, lívido.
— Deixe-se disso! . aconselharam-lhe, você já sabe que esta gente é assim, para que se mete?...
— Tome lá! disse Manuel ao sertanejo beba e vá embora!
E passou-lhe um copo de vinho, que ele emborcou, trovando, depois de estalar a língua:
“O vinho é sangue de Cristo,
É alma de Satanás.
É sangue quando ele é pouco,
É alma quando é demais!”
E, fazendo um grande cumprimento com o chapéu:
“Meus senhores e nhás donas,
Vou-me embora de partida
Deus lhes de muita fortuna
E muitos anos de vida!”
E virou de costas e retirou-se, a dançar, cantando uma passagem do bumba-meu-boi:
“Isto não, isto não pode sê.
Isto não, isto não pode sê
A filha de meu amo casar com você! ..
O caboclo me prendeu
Meu amor!
Foi tão cheia da razão, Coração!
Que acabo... “
E perdeu-se nas fundas sombras do mangueiral a voz do sertanejo e o som da viola.
Iam-lhe discutir o talento poético e a graça, quando de ama, Manuel, Maria Bárbara e Amância, todos três a um tempo, chamaram para a mesa, com autoridade benfazeja.
Houve um sussurro de prazer.
— Olha, filha, que já tinha o estômago a dar horas!... cochichou D. Maria do Carmo, ao passar por Ana Rosa.
Subiram todos para a varanda e foram tomando vivamente os seus lugares à mesa, entre uma confusão de vozes, a discutirem mil assuntos.
— Homem! exclamou Sebastião Campos, parece que tomaram alma nova só com o cheiro!...
O Freitas amolava Raimundo sobre poesia popular; falou, com assombro, de Juvenal Galeno.
— Muito original! muito original!
— Do Ceará. não?
— Todo inteiro! Ah, o senhor não imagina o que é aquela provinciazinha para as trovas populares!
E, antes que Raimundo desse alguma providência contra a maçada já o Freitas lhe recitava junto ao ouvido:
“Quando passares na nua,
Escarra, cospe no chão!
Qu'estou cosendo à candeia
Não sei se passas ou não!”
— Pois não há como uma festa no sido! dizia Sebastião por outro lado. Isto de pândegas, ou bem que é pândega ou bem que não é!
O Freitas insista:
“Sinhá, me de qualquer coisa,
Inda que só uma banana,
Que a barriga é bicho burro
Com qualquer coisa s engana!”
Raimundo já não o ouvia: prestava atenção a uma conversa entre Bibina, Lindoca e Eufrásia.
— Vocês não tiraram a sorte esta noite? perguntou a última.
— Como não? disse a gorda, porém não vi nada, ou pelo menos não acertei com o que apareceu .
— Não, pois eu, declarou a viúva, tirei uma sorte bem bonita...
— Que foi? Que foi?
— Um véu branco e uma grinalda!
— Casamento! gritaram varias vozes.
— Eu tirei um “túmulo”!... disse do canto da mesa a Lagartixa, suspirando funebremente.
— Credo! exclamou Amância, passando com uma salada de agrião, que acabava de preparar.
Raimundo, assentado, contra a vontade, ao lado do Freitas, falava com saudade nos costumes portugueses nas noites de São João e São Pedro; contou como era que as raparigas queimavam alcachofras e plantavam-nas em vasos à janela, para ver com elas grelar a sorte; citou o costume das favas sobre o travesseiro, os bochechos de água à meia-noite para se ouvir nome do namorado, as fogueiras de alecrim seco, e enfim aquele uso do copo de água, de que as moças ali falavam.
— Um antigo uso! explicava o Freitas, a mastigar pedacinhos de pão. Consiste em deitar ao sereno, na noite de São João, um copo de água com a gema de um ovo...
— E a clara! reclamou D. Maria do Carmo, que acompanhava a conversa com muito interesse.
— Pois seja assim! a gema e a clara; e, no outro dia, pela manhã, dizem que a sorte do indivíduo aparece representada no interior do copo. Patacoadas!
— Patacoadas, não! retorquiu a velha, tomando lugar junto das sobrinhas. Cá está quem recebeu a noticia da morte do Espigão muito antes do dia fatal!
E levou o guardanapo aos olhos num movimento patético.
— Há outros usos, continuou Freitas, passando adiante um prato de sopa. O banho de São João, por exemplo!
— Imitações de Portugal...
— Quem não se banha amanhã de madrugada, fica com a alma suja! Dizem!
— Então seu Cordeiro! seu Dias! e você lá, menino! não tratam de se assentar? intimou Manuel.
—Nós esperamos a outra mesa... respondeu modestamente o Dias. Não há mais lugares...
— Qual outra mesa, o quê! Não, senhor! Sente-se cá, seu Dias!
E o negociante abriu um lugar ao lado da filha.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.