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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Não é que os víveres lhe faltassem, longe disto, deixara-lhos abundantes o chefe da Intendência. Dar-se-ia o caso que os seus comandados, seduzidos pela vizinhança do rio, e suas matas, houvessem desertado, um após outro, até o largarem inteiramente só? Mas aí estavam todos os oficiais do nosso corpo de exército concordes em atestar o espírito de submissão de nossos soldados aos chefes. Acaso se houvesse dado um "salve-se quem puder" geral não teria podido aquele comandante manter-se em observação pela vizinhança, onde tantos acidentes de um terreno florestado lhe podiam servir de abrigo, à espera de nossa chegada? Afastaria, assim, de si, a responsabilidade, não somente da enorme perda de material como do novo sacrifício de vítimas humanas fruto de tão funesto abandono. Faltou-lhe o animo desapareceu deixando ligado ao nome a reminiscência de uma deserção em frente ao inimigo...

Tanto mais sensível e mais notada esta infidelidade quanto as demais providências do coronel Camisão, no mesmo ofício, haviam com exação sido observadas. As provisões de guerra e de boca, o arquivo, o dinheiro da pagadoria, esperavam-nos nos Morros, para onde os transportara o Coronel Lima e Silva; enquanto ele próprio, de acordo com as instruções, estacado à margem do Aquidauana, providenciava no sentido de encaminhar em primeiro lugar tudo o que poderia preceder-nos, enfermos, mulheres, crianças, soldados desgarrados ou inválidos. Cuidadosamente ordenara, aliás, aos condutores das carretas, que serviam para estes diversos transportes, voltassem sem demora, apenas desocupados, retendo ao mesmo tempo, ao seu lado, a maioria das viaturas carregadas de víveres, de que fizera um depósito volante, tendo em vista a nossa próxima chegada.

Assim abandonada passara Nioac a ser a presa dos paraguaios. Tudo haviam saqueado e queimado, salvo a igreja, poupada não por espírito religioso, mas, pelo contrário, com o fito de a utilizarem num ardil infernal. Retirara-se a sua infantaria ante a nossa aproximação, entrincheirando-se no cemitério. Seguira, então, pela mata em direção a um vau do Orumbeva que a cavalaria reconhecera.

Sem preocupações quanto ao inimigo, fomos a toda a pressa ver o que haveria ainda a salvar.

Esta bonita povoação, abandonada, ocupada e pela segunda vez, desde o início da guerra, devastada, convertera-se num montão de destroços fumegantes. O grande galpão que, outrora, nos servira de armazém de mantimentos e ainda achamos de pé, sobre os esteios incendiados, mostrava renques de sacos que nossa gente, sem dúvida, não tivera tempo de carregar e já serviam de pasto ao incêndio. O arroz e a farinha carbonizados, exteriormente; o sal, gênero este tão escasso e precioso no interior do país, negrejara e fundia sob as nossas vistas. Não pouparam esforços os nossos soldados em salvar o que puderam.

Aqui e acolá jaziam muitos cadáveres, todos de brasileiros. Constatamos que muitos dentre estes infelizes mortos haviam servido em nossas fileiras. Desertando por ocasião do exacerbamento de nossas misérias, e morrendo de fome pelas matas, haviam se apressado, embora correndo o perigo de serem reconhecidos, em tomar parte no saque.

Fora um deles, de pés e mãos amarrados, sangrando como um porco. Jazia outro, crivado de feridas, e uma velha, estirada a seu lado, de goela aberta e seios decepados, nadava no próprio sangue.

Foi quase toda a coluna acampar por esta noite atras da igreja, sobre o grande terrapleno que descrevemos e onde, escalonados com os canhões nos ângulos, para maior segurança contra o inimigo, nos apoiávamos à mata do rio. Ali gozamos, enfim, um pouco de verdadeiro descanso. Dupla e tripla ração se distribuiu; permitiam-no as circunstancias; sentia-se o comandante feliz por contentar os soldados, quanto possível. Pela primeira vez, e desde muito, podíamos contar com o dia de amanhã. Restavam-nos, apenas, para nos pôr fora de qualquer perigo eventual, fazer quinze léguas, a caminhar por excelente estrada, de Nioac ao Aquidauana onde éramos esperados. E para tal marcha tínhamos víveres sobejos.

Foi a noite calma, como tudo prenunciava dever suceder. Apenas amanheceu fizeram os soldados uma visita às ruínas da aldeia. Acabaram tomando tudo o que aos paraguaios escapara. Graças a esta sucessão de roubos desaparecera, em alguns meses, destas terras novas o pouco que o incipiente comércio ali introduzira, como mecanismos e ferramenta, tudo, enfim, o que o trabalho conseguira juntar de frutos e poupança.

Durante a última estada em Nioac depositáramos na igreja muitos e diversos objetos, o instrumental das bandas de música, munições de guerra etc. Consta que os paraguaios encontraram ainda muita coisa deste apetrechamento, não lhes havendo chegado o tempo para tudo carregar. Existia ali grande reserva de cartuchos e foi, talvez, o que Ihes sugeriu a primeira idéia da horrível maquinação que tanto lhes condizia à feição cruel.

(continua...)

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