Por Franklin Távora (1879)
O sino da capela deu sinal que ia entrar a festa. As novenas tinham terminado na véspera com grandes elogios às cantoras; mas o concurso de gente que elas haviam atraído não cessara, antes, na última noite, mostrava-se ainda maior. Muito de indústria, o juiz fizera correr fama que os versos seriam cantados pelas primeiras vozes do Recife e que entre estas se faria ouvir pela primeira vez a mais gentil das de que ali se poderiam jactar até então nas festas das igrejas. Alguns jornais publicaram esta notícia, e não foi preciso mais para que da rede de arrabaldes, que cerca a estrada, chegassem milhares de pessoas dentre as quais, se muitas eram arrastadas pela devoção, a maioria não tinha outro fim que o de divertir-se como é de costume.
A popularíssima festa de Nossa Senhora da Saúde que se celebra no Poço da Panela; a de Nossa Senhora dos Prazeres de Guararapes, que se celebra na freguesia do Cabo; a de Nossa Senhora do Monte, em Olinda, tiveram aquele ano digna êmula na da Conceiçãozinha da estrada João de Barros. Nunca festa de arraial foi mais brilhantemente concorrida.
E o espetáculo sob muitos aspectos importantes, pagava a curiosidade das visitas.
Sendo o boqueirão, por onde meses antes Ângelo passeara com Maurícia, o ponto do sítio que ficava mais perto da capela, mandou Martins decotar as árvores próximas e conduzir para ali cadeiras, a fim de que as senhoras pudessem, sem risco, ver desse recanto ameno o espetáculo festivo. As sete horas, via-se ali reunida a luzida sociedade, que privava com Martins; e ao lado das jovens elegantes, mostravam-se moços de talento e nomeada que ele tinha a fortuna de saber chamar à sua amizade por seus modos francos e obsequiosos. Dos freqüentadores do sítio, só um faltava: era Ângelo. A ausência deste era sentida por todos, mas especialmente por Maurícia, posto que sua discrição não lhe permitisse revelá-lo. Durante toda a semana, Maurícia queixara-se de calafrios e rápidas pontas de febre. Dizia sentir dores pelo corpo e peito, mas a sua enfermidade era moral. Ângelo ausentara-se da casa de Martins desde a primeira noite de novena, aquela em que tivera de Maurícia o mais formal desengano e nisso estava a origem do mal dela. Que fizera durante este tempo? Não podendo vencer a contrariedade e o desgosto, achou um meio de sair desse penoso estado, e de vingar-se ao mesmo tempo da mãe de Virgínia fazendo que ela viesse a ter também o seu quinhão de sofrimento. Demais, ele estava triste e descontente da cidade que meses antes tomara por uma mansão celestial. Não podia ir ao teatro na ausência de Júlia; não podia freqüentar Martins, depois do que se passara com a cunhada deste. Acudiulhe, então, o pensamento de deixar o Recife. Em conseqüência, procurou um amigo político de grande importância para o Presidente da Província, que prometeu nomeá-lo para um dos lugares de promotor que estavam vagos. Inteiramente absorto na promessa, Ângelo, enquanto ela se realizava, fugia da sociedade que costumava freqüentar antes. No dia da festa, meteu-se em um dos carros da linha de ferro do Recife a Apicucos, e, chegando a este povoado, começou a matar o tempo andando de um lugar para outro, visitando antigos conhecidos, passando horas no hotel entregue à mais cruel monotonia.
Antes de começar a festa, havia ainda em alguns dos hóspedes de Martins a esperança de que Ângelo repararia a longa ausência durante toda a semana, comparecendo agora. Maurícia, posto que, mais competentemente do que ninguém, ajuizasse do despeito e contrariedade de Ângelo, não podia capacitar-se de que ele tivesse ânimo para fugir de assistir a sua despedida. Dentro em breve, porém, teve a prova do quanto se enganava; e, quando terminado o Te-Deum, sem que o jovem advogado houvesse ainda aparecido, a sua tristeza aumentou de intensidade e crueldade. Muitas lágrimas silenciosas recebeu em segredo o seu lenço perfumado, muitos suspiros ela os abafou cuidadosamente, a fim de que não fossem suscitar desconfianças que lhe seriam desairosas.
Concluída a cerimônia, não houve instâncias de Martins, não houve rogativas de Eugênia e Sinhazinha que dissuadissem Maurícia de seguir àquela mesma hora para o Caxangá. A todos os pedidos, respondeu dizendo que lhe estavam fazendo mal os ares da estrada, e que deveria ter pressa em fugir deles; os ares nunca tinham sido mais saudáveis; os aromas das flores dos cajueiros e das mangueiras saturavam a atmosfera de átomos balsâmicos e gratos. Não houve nada que a retivesse no sítio. Às onze horas, a porteira do engenho batia sobre a carruagem que entrara conduzindo Maurícia, Virgínia e Martins.
O afastamento de Ângelo e a tristeza de Maurícia lançaram no espírito de Sinhazinha grandes suspeitas, Aquela retirara-se sem lhe dizer uma só palavra sobre a sua prometida intervenção. Somente uma vez dizendo-lhe a filha de D. Sofia que lhe parecia não ter diminuído a indiferença do advogado, visto que nunca mais ele tornara ao sítio, ela lhe respondera:
— Não perca as esperanças. O tempo acabará tudo.
Parte destas suspeitas fora insuflada por D. Sofia, a quem a filha revelava todas as ocorrências que lhe diziam respeito.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.