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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Se é ou se não é, eu não posso jurar. Cá eu é que não sou nem serei por eles nem neste mundo nem no outro.

- Então, se eu tivesse necessidade de uma pessoa que me ensinasse os atalhos para chegar à vila sem ser pressentido pelos nobres, não me prestava você de boa vontade este serviço tão pequeno?

- Saberá vossa senhoria que nem de boa nem de má vontade eu lhe ensinava os caminhos da vila para este fim. Daqui mesmo destorcia para traz no meu castanho, porque para servir a tais indivíduos não há forças humanas que me obriguem, nem dinheiro que me compre.

- Grande ódio tem você à esses homens que só cuidam em viver do seu trabalho.

Eu cá sei em que eles cuidam. Querem enriquecer à nossa custa. Vendem a fazenda pela hora da morte, agora os gêneros da terra querem comprar por pouco mais que nada. Não fazem isto só com o pobre matuto, como eu; até os senhores-de-engenho gemem entre as unhas deles. O que não tem o olho vivo, quando dá acordo de se está com as terras, as canas, os negros de sua propriedade metidinhos todos dentro da gaveta do mascate, que faz os suprimentos e adiantamentos. Muito francos em fiarem são os tais mascates, quando vêm que a pessoa a quem fazem seus oferecimentos, tem bens de seus. Agora, quando a conta está bem aumentada, tomam tudo pela justiça, e ficam donos de casas, escravos e fazendas do dia para noite. Se isto é ser bom, o inimigo leve esta bondade para si, que eu não a quero nem de graça, quanto mais à custa do meu roçado, do meu cavalo e da minha casinha.

Tendo dito estas palavras, Francisco, chegou a espora que trazia no pé direito à barriga do castanho e virou para o Recife. Não pode, porém, avançar muitos passos, porque Gil, pondo as pernas à sua cavalgadura, tomou-lhe logo o caminho.

- Para onde vai? Venha cá. Estamos de acordo, e podemos ir juntos até Goiana. Você é muito desconfiado, camarada, disse em tom de quem gracejava.

- Não me fiz por minhas mãos, respondeu Francisco. Foi assim que nasci da barriga de minha mãe.

- Mas não tem que desconfiar de mim.

- Meu senhor, a gente vê cara e não vê coração. Eu sei lá se vosmecê vem contra os mascates ou pelos mascates...

- Pois você não está vendo a tropa?

- Que tem a tropa? Não podia ser deles?

- Então, você vem da capital e não sabe que eles estão cercados?

- Eu sei muito bem que eles estão cercados. Sou capaz de dizer até por quem. - Diga lá.

Pois escute. Nas trincheiras levantadas junto do muro do S. Bento está a companhia do capitão Dionizio, e a dos Estudantes, comandada pelo capitão Antonio Tavares; nos presídios do Varadouro, Porto-dos-padres, Porto-daslavadeiras, Carreira-dos-masombos e Tacaruna, estão o tenente José Tavares e o sargento-mór Domingos Freire; as forças de S.Amarinho, Campina-da-cerca, Curtume e Santo-André são comandadas pelo padre Paulo; na Conceição, Saco, Olaria e Arraial-da-boa-vista está o capitão Carlos Ferreira; na Barreta e no Arraial-dos-afogados está o comandante João de Barros.

- Bem informado anda você da distribuição das forças do governo.

- Se eu passei por todas elas, porque tive de ir a Jaboatão.

- Mas então porque é que duvida se somos pelos mascates ou pelos nobres? Inquiriu Felipe Bandeira.

- Porque duvido? Então os mascates também não tem tropas na vila? Eles não podiam mandar gente por mar do Recife para Itamaracá? Mas enfim, como vosmecês dizem que vêm por parte do governo, estou calado. Eu não duvido da palavra dos homens.

A esse tempo a tropa, que um instante estivera parada, seguia já o caminho de Goiana. Gil, Felipe Bandeira e os outros oficiais iam no couce. Francisco tinha metido o cavalo entre o de Felipe Bandeira e o de Gil.

XIX

Passado um momento, perguntou o ajudante-de-tenente ao matuto:

- Poderemos saber quem é você, camarada?

- Chamo-me Francisco dos Prazeres, e sou morador do engenho Bujari.

- A quem pertence esse engenho?

- A seu sargento-mór João da Cunha. - Sei quem é.

Havemos de passar por dentro mesmo do engenho. Vou deixar vosmecês em Goiana, e volto ao Cajueiro, onde tenho minha família. Há mais de mês não sei dela, nem nova, nem mandado. Quem sabe o que não terá acontecido à minha mulher e a meu filho durante a minha ausência? - Você vai encontrar todos em paz.

E se não encontrar, o Tunda-Cumbe é quem me há de pagar. Eu nunca matei ninguém. Trago uma faca de ponta aqui no cós para me defender. Mas se o diabo do pé-de-chumbo tiver feito alguma das suas a gente que me pertença, não pregarei olhos enquanto não lhe pregar primeiro a faca na barriga. Hei de tirar-lhe o couro como se faz aos bodes para secar e dele fazer suador do meu cavalo.

(continua...)

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