Por Bernardo Guimarães (1872)
-se vem pedir, o caso é diferente. . . Todavia, por mais que o senhor me diga isto, me parece uma farsa, e acabemos com ela, eu não posso por modo algum faltar à minha palavra já comprometida com outra pessoa.
- E a senhora D. Lúcia? . . . não conta com ela? desculpe-me a pergunta. Dizendo isto, Elias fitava os olhos em Lúcia. - Não posso deixar, respondeu o Major, de estranhar o desembaraço com que o senhor se intromete nos negócios de minha família; contudo devo declarar-lhe. . .
O Major ia responder que sim; mas Lúcia fixou-lhe um olhar, que parecia dizer-lhe: não minta. O Major prosseguiu algum tanto embaraçado:
- Devo declarar-lhe que ela, infalivelmente, dará o seu consentimento; tenho disso certeza.
Elias olhou para Lúcia; esta lhe fazia com a cabeça um sinal negativo.
- Que certeza tem disso, senhor Major? já a consultou?
-tenho toda a certeza. Demais, já que começamos a explicar- nos com toda a franqueza, continuemos da mesma sorte: não desfazendo em nenhuma outra pessoa, o noivo a quem destino minha filha é um moço muito distinto, ativo e inteligente, e já possui alguma coisa; aqui pela Bagagem não conheço outro que esteja em melhores, nem mesmo em iguais condições. Poder-se- á dizer outro tanto desse que a pretende, e que julgais com mais direito de que o outro? Estamos pobres como sabe; por mim, que já pouco tenho a viver, pouco me importaria a pobreza. Mas custar-me- ia muito resignar-me a ver minha Lúcia sofrer as privações da pobreza, podendo dar-lhe uma posição mais cômoda e brilhante na sociedade. Seria uma crueldade que nunca me perdoaria a mim mesmo.
-tem razão de sobra, senhor Major; nem vou contra isso. Então é muito rico esse moço? . . . quanto possuirá ele pouco mais ou menos?
- Principiou a negociar há pouco tempo, e já possui talvez mais de vinte contos livres. Aqui para o sertão não é mau começo.
- E se esse outro, que também pretende a mão de sua filha, possui tanto ou mais do que isso?
- Embora! . . . a minha palavra é sagrada; não é motivo bastante para eu falar a ela.
-mas, senhor Major, sua filha ainda não deu palavra ao noivo que lhe quer dar. E suponhamos que ela já tivesse hipotecado sua palavra e seu amor a este de quem lhe falo, e que fosse o noivo da escolha de seu coração?
- Ah! nesse caso. . . eu sei? mas. . . acabemos com este mistério; quem é esse pretendente? . . . onde está esse noivo?
- Pergunte- o à sua filha, senhor Major; ela, tanto como eu, lho poderá dizer.
Lúcia corou extraordinariamente e baixou os olhos.
- Ah! . . . exclamou o Major como acordando de um sonho, não é preciso que me digam nada; já o adivinhei! . . . é o senhor mesmo. . mas será possível?
- Sim, senhor Major; o senhor o disse; sou eu mesmo. O que acha nisso de estranho?
- Nada. . . O que somente me maravilha e não posso conceber é que o senhor, que ainda ontem era tão pobre como eu me vejo agora, pudesse de um dia para outro adquirir uma fortuna. . .
- Caiu-me do céu, senhor Major; posso assim dizer. E não foi para mim que o céu a enviou, foi para sua filha, que é um dos seus anjos, que o céu a enviou. Era para ela que eu há muitos anos, com esforços e diligências inauditas, a procurava. A caprichosa fortuna de um dia para outro o reduziu à pobreza, quis também de um momento para outro tornar-me rico. Foi uma compensação, senhor; e o céu quer que este pouco que agora a fortuna me concede seja consagrado a tirar da miséria a família a quem ela tão cruelmente despojou.
-senhor Elias, disse o Major comovido, desculpe-me. . . eu tenho sido vítima de tantas decepções, de tantas manifestações neste mundo. . .
- Compreendo, atalhou o moço, duvida ainda do que eu digo. tem muita razão, senhor Major. Quer uma prova, não é assim! Ei-la aqui.
Dizendo isto, Elias tirou do bolso um pequeno embrulho, e o entregou ao Major.
- Bem vê, acrescentou ele, que só o jogo, o testamento ou o garimpo nos podem tornar ricos de um dia para outro.
- São na verdade magníficos brilhantes, disse o Major depois de abrir o embrulho. Só aqui, há um valor de muito mais de vinte contos.
- E a lavra de onde saíram ainda não está esgotada, disse Elias.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.