Por Bernardo Guimarães (1872)
De feito, para um primeiro arrufo, uma dentada daquelas não era má estréia, e fazia pressagiar para o segundo um braço quebrado, e para o terceiro uma punhalada.
Capítulo VIII
Jupira em sua cólera era bela e sublime, mas bela e sublime para inspirar um artista, e não para despertar o ardor e ameigar o coração do amante, que começa a arrefecer-se. Sua palidez era como a do mármore encardido; os olhos fuzilavam revérberos cor de sangue; a boca espumava, os lábios e as narinas lhe tremiam convulsivos. Reinava em seu todo um ar imperioso, feroz, que fazia medo.
À indiferença e enfado que Carlito começava a sentir por Jupira, vinha agora juntar-se também o medo para mais arredio e esquivo torná-lo. Todavia, esse mesmo medo fazia com que ele a procurasse mais vezes do que desejava, mas com toda a precaução e reserva, temendo mais alguma explosão de seu furioso ciúme, e tratasse daí em diante de ocultar o mais possível suas entrevistas com Rosália.
Quirino tinha-se retirado para a fazenda de seu pai, triste, acabrunhado, porém, ainda não de todo desanimado. A repulsa de Jupira ainda mais lhe avivara a chama que o devorava. Aquela boca feiticeira da cabocla, que prometia um paraíso de volúpias, ou contornos daqueles ombros, daquele talhe, tão bem boleados, aqueles olhos negros, cujo brilho profundo era um pouco velado por pálpebras languidamente descaídas, aqueles seios redondos, que lhe arfavam sob a camisa como duas rolinhas arquejantes arrulando de amor em seu ninho, tudo isso a todo momento se lhe estava pintando na imaginação com as mais sedutoras e vivas cores escaldando-lhe o cérebro em noites de insônia, fazendo pular-lhe o coração e ferver-lhe o sangue em frenéticos anelos de volúpia e de amor. Não pôde suportar a ausência por muito tempo, e voltou a Campo Belo decidido a envidar os últimos esforços, a tentar o último sacrifício para alcançar o objeto de seus ardentes desejos.
Jupira desta vez acolheu Quirino com mais brandura, e ouviu suas queixas sem se enfadar, ou porque já sabedora de quanto é doloroso o dissabor, que provém de um amor mal correspondido, se compadecesse do mancebo, ou porque quisesse punir Carlito com pena de talião correspondendo ou fingindo corresponder ao amor de Quirino, ou talvez porque, no estado de angústia e perturbação, em que se achava, gostasse que alguém lhe falasse e fizesse dispersão às ânsias de seu coração. Quirino criou alma nova e encheu-se de esperanças.
– Bem dizia eu! – pensava ele consigo. – Era uma criança arisca e medrosa e nada mais; mas isso não podia durar sempre... já vai chegando à fala; não tardará muito a cair-me nos braços.
Jupira já não podia duvidar da deslealdade de Carlito. Todavia, ainda algumas dúvidas lhe pairavam por vezes no espírito; era uma ligeira sombra de esperança, que a triste afagava em seu coração; desejava convencer-se por seus próprios olhos, queria uma prova bem positiva da aleivosia de Carlito. Se em seus amores era livre como a brisa do deserto, consideração nenhuma a podia tolher nos violentos acessos de seu feroz ciúme. Como a onça esfaimada rodela e espia o nédio e tenro veado, que descuidado vagueia por bosques e campinas, até lançar-lhe as garras, assim Jupira espiava com olhar cioso todos os passos de seu volúvel amante, acompanhava-o sem ser vista, conhecia-lhe o rasto, e em seu instinto selvático quase que o farejava.
Carlito bem o pressentia, e por mais desvios que procurasse, por mais que tentasse ocultar seus passos, não podia escapar às vistas penetrantes, ao instinto advinhador de sua ciosa amante. Esta espionagem o fatigava e aborrecia, dando lugar a queixas e arrufos cotidianos, e, quando se achavam juntos, em vez de se afagarem e beijarem-se como outrora, não faziam senão brigarem, arranharem-se e morderem-se como dois gatos-do-mato.
Esse constrangimento, em que o temível ciúme de Jupira colocava o pobre rapaz, ainda mais lhe atiçava o desejo de estar com a sua alva e meiga Rosália. Posto que sua afeição pela cabocla estivesse quase de todo extinta, não sei por que ela exercia sobre seu espírito um poderoso e terrível ascendente, e ele ainda que com medo e repugnância mesmo, vinha sempre rojar-se aos pés dela. Dir-se-ia que ela tinha o poder de fascinar como a cobra.
Já havia quatro ou cinco dias, que Carlito não fazia uma visita à casa de Genoveva e não via Rosália, com medo de Jupira, que o espreitava lá de sua janelinha, ou lhe seguia a pista sutil e sorrateira como a jaguatirica. Por fim não pôde mais ter-se, e rebelando-se resolutamente contra aquele aperreamento, em que vivia, encaminhou-se franca e impavidamente para a casa de Rosália.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.