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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

No meio de um vasto pátio ladrilhado, escaldando ao sol, um limoeiro toldava a água clara de um tanque. Em volta, sobre pilastras de mármore verde, corria uma varanda, silenciosa e fresca, de onde pendia, aqui e além, um tapete da Assíria com flores bordadas. Um puro azul brilhava no alto; - e ao canto, sob um alpendre, um negro, atrelado por cordas como uma alimária a uma barra de pau, calçado de ferraduras, vincado de cicatrizes, ia fazendo gemer e girar, lentamente, a grande mó de pedra do moinho doméstico.

No escuro de uma porta apareceu um homem obeso, sem barba, quase tão amarelo como a túnica lassa que o envolvia todo; tinha na mão uma vara de marfim e mal podia erguer as pálpebras moles.

- Teu amo? - gritou-lhe Topsius, desmontando.

Entra - disse o homem numa voz fugidia e fina como silvo de cobra.

Por uma escadaria rica de granito negro chegamos a um patamar, onde pousavam dous candelabros, espigados como os arbustos de que reproduziam, em bronze, o tronco sem folhas; e entre eles estava de pé, diante de nós, Gamaliel, filho de Simeão. Era muito alto, muito magro; e a barba solta, lustrosa, perfumada, enchia-lhe o peito, onde brilhava um sinete de coral pendurado de uma fita escarlate. O seu turbante branco, entremeado de fios de pérolas, descobria uma tira de pergaminho colada sobre a testa e cheia de textos sagrados; sob aquela alvura, os seus olhos encovados tinham um fulgor frio e duro. Uma longa túnica azul cobria-o até às sandálias, orlada de compridas franjas que arrastavam; e cozidas às mangas, enroladas nos pulsos, tinha ainda outras tiras de pergaminho, onde negrejavam outras escrituras rituais.

Topsius saudou-o à moda do Egito, deixando cair lentamente a mão até à joalheira da sua calça de lustrina. Gamaliel alargou os braços e murmurou, como salmodiando:

- Entrai, sede bem-vindos, comei e regozijai-vos...

E atrás de Gamaliel, pisando um chão sonoro de mosaico, penetramos numa sala onde se achavam três homens. Um, que se afastou da janela para nos acolher, era magnificamente belo, com longos cabelos castanhos, pendendo em anéis doces em torno de um pescoço forte, macio e branco como um mármore corintio; na faixa negra que lhe apertava a túnica brilhava, com pedrarias, o punho de ouro de uma espada curta. O outro, calvo, gordo, com uma face balofa sem sobrancelhas, e tão lívida que parecia coberta de farinha, ficara encruzado, embrulhado no seu manto cor de vinho, sobre um divã feito de correias, tendo uma almofada de púrpura debaixo de cada braço; e o seu gesto de acolhida foi mais distraído e desdenhoso, do que a esmola que se atira ao estrangeiro. Mas Topsius quase se prostrara, a beijar os seus sapatos redondos de couro amarelo, atados por fios de ouro, porque aquele era o venerando Osânias, da família pontifical de Beotos, ainda do sangue real de Aristóbolo! O outro homem não o saudamos, nem ele também nos viu; estava agachado a um canto, com a face sumida no capuz de uma túnica de linho mais alvo que a neve fresca, como mergulhado numa oração; e só de vez em quando se movia, para limpar as mãos lentamente a uma toalha da fina brancura da túnica, que lhe pendia de uma corda, apertada à cintura, grossa e cheia de nós, como as que cingem os monges.

No entanto, descalçando as luvas, eu examinava o teto da sala, todo de cedro, com lavores retocados de escarlate. O azul liso e lustroso das paredes era como a continuação daquele céu do Oriente, quente e puro, que resplandecia através da janela, onde se destacava, pendido do muro, na plena luz, um ramo solitário de madressilva. Sobre uma tripeça, incrustada de nácar, num incensador de bronze, fumegava uma resina aromática.

Mas Gamaliel aproximara-se, e depois de ter olhado duramente as minhas botas de montar, disse com lentidão:

- A jornada do Jordão é longa, deveis vir esfomeados...

Murmurei polidamente uma recusa... E ele, grave como se recitasse um texto:

- A hora do meio-dia é a mais grata ao Senhor. José disse a Benjamim: "tu comerás comigo ao meio-dia". Mas a alegria do hóspede é também doce ao muito alto, ao muito forte... Estais fracos, ides comer, para que a vossa alma me abençoe.

Bateu as palmas; um servo, com os cabelos apertados num diadema de metal, entrou trazendo um jarro cheio de água tépida que cheirava a rosa, onde eu purifiquei as mãos; outro ofereceu bolos de mel sobre viçosas folhas de parra; outro verteu, em taças de louça brilhante, um vinho forte e negro de Emaús. E para que o hóspede não comesse só, Gamaliel partiu um gomo de romã, e com as pálpebras cerradas levou à beira dos lábios uma malga, onde boiavam pedaços de gelo entre flores de laranjeira.

- Pois agora - disse eu lambendo os dedos - tenho lastro até ao meio-dia...

- Que a tua alma se regozije!

(continua...)

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