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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Porém «o caso» parecia prodigioso a Fradinho. Como? O General tinha feito uma revolta, e não formara de antemão, numa lista, num papel, o seu ministério? Mas Alípio explicou «o caso». Havia, com efeito, um ministério preparado, que, segundo a frase pitoresca e histórica do capitão, acompanhara a expedição ao Paço, na bagagem. Mas à última hora, o cavalheiro que devia ser ministro da Justiça recusava, recusava com obstinação, recusava com frenesi, batendo patadas no chão. E o General, em presença daquela perrice, mandava oferecer a pasta a Alípio. Porque o General queria a legalidade, queria as Câmaras – e necessitava um Demóstenes. (Palavras do senhor.71 capitão).

– E para isso não há outro em Portugal senão você, juro-lho eu! – exclamou com entusiasmo o coronel.

Era também, realmente, a opinião de Fradinho. Porque, enfim, colocava-se no bom-senso: qual fora, durante a sua carreira de oposição, o fim, a ambição de Alípio? Deitar de cangalhas os Reformadores! Caramba, eram as suas palavras textuais! E os Reformadores aí estavam de cangalhas, de pernas ao ar, o lombo na calçada! Prostrados, meu caro amigo, prostrados! O General, pois, fizera com a espada o que Alípio queria fazer com a língua! Era lamentável decerto; mas, desde que El-Rei entregara o poder ao General, a espada que era rebelde às sete da manhã, tornava-se legal às sete e meia. Podia Alípio ter escrúpulo em a servir? Demais, ele, pela autoridade do seu talento, introduzia nesse ministério nascido da revolta, um elemento de moderação, de ordem; ele iria com a sua prática parlamentar constitucional, contrabalançar o que houvesse no temperamento do General de mais autoritário e de mais fanfarrão. Ele seria o elemento jurídico, ponderado, equilibrando o elemento militar. Ainda que lhe custasse, devia aceitar, para impedir que o General se lançasse numa ditadura muito pessoal. Era um sacrifício à Ordem, à Liberdade, à Carta. O amigo Alípio devia sacrificar-se!

Alípio, de uma palidez crescente, coçando nervosamente o «passa-piolho», entrevia aspectos dessa coisa invejada, vaga, cintilante e prodigiosa: o Poder! o Ministério!

Via a sua entrada na Secretaria, entre espinhaços respeitosamente curvados; via-se distribuindo os empregos, dominando a magistratura; à porta, esperava-o o correio; e ao longe, estendia-se a estrada deliciosa que leva à Ajuda, ao aperto de mão de El-Rei.

Que sensação em Penafiel, quando se soubesse! Que ferro para os que o tinham chamado na imprensa pedante e roncão! Que vingança deliciosa para Virgininha, que iria ao Paço, enquanto a mulher de Cardoso Torres, que lhe chamara sirigaita, ficava fora da Corte, reduzida ao seu crochet! Poderia enfim compensar o padre Augusto dos seus serviços tão persistentes, tão desinteressados; erguer-se-ia diante do Amado, do sogro, que nunca o respeitara suficientemente, como um colosso: não seria já o genro, seria o Ministro de seu sogro! Ah! Estas solicitações cativantes da ambição são bem irresistíveis – têm a persuasão fatal do ouro e da nudez da mulher!

Mas notai a nobreza de espírito de Alípio Abranhos: respirou fundamente, porque sentia o peito oprimido, e disse:

– Tudo isso é muito bonito, mas os amigos bem o sabem, este ministério não deve durar três meses...

Aí o coronel interrompeu-o com ímpeto. Já não vacilava: agora, Alípio e o velho General pareciam-lhe idênticos, sentados lado a lado nas cadeiras do poder. E a sua funda simpatia pelo antigo companheiro, pelas espadas, pelos militares, fez explosão, furiosamente... E foi com um mugido que bradou:

– Três meses? Se ele quiser, com o exército atrás de si, está no poleiro três anos! Três séculos!...

Três séculos era talvez exagero, como notou com discernimento o Doutor! Ah, mas três anos, era bem possível!

Fradinho deu um vivo puxão às calças e disse:

– Eh! Eh! E que o coronel tem razão! Com o exército por ele, quem o há-de deitar abaixo?

E os quatro cavalheiros olharam-se assombrados desta possibilidade deliciosa. Sim, quem o havia de deitar abaixo? A sua influência no exército era já grande: dispondo agora das promoções, das condecorações, caramba! essa influência seria medonha! Os interesses do General confundiam-se com os interesses do exército; o General na presidência do Conselho era, ipso facto, o exército na presidência do Conselho. O ministério não era um homem, eram dez mil, quinze mil marmanjos, armados até aos dentes. Quem iria derrubar essa multidão formidável?

Alípio, muito abalado, murmurou:

– Mas a opinião...

Fradinho e o coronel, ao mesmo tempo, bradaram numa nota aguda:

– Ora, a opinião!

E o Doutor, numa nota grave, repetiu:

– Ora, a opinião!

Mas Alípio Abranhos, com o faro subtil dos verdadeiros homens de Estado, insistia:

– Nada, este ministério não dura...

(continua...)

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