Por Eça de Queirós (1878)
E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa, desapareceu! Sentiu um alivio, um grande desejo de tranqüilidade. Era absurdo, realmente, com um marido como Jorge, pensar noutro homem, um leviano, um estróina!...
Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperação, correu ao escritório de uma folha de papel, escreveu à pressa:
Querido Basílio.
Por que não vens? Estás doente? Se soubesse os tormentos por que me fazes passar...
A campainha retiniu. Era ele! Amarrotou o bilhete, meteu-o no bolso do ficou esperando, palpitante. Passos de homem pisaram no tapete da sala. Entrou com o olhar faiscante... Era Sebastião, um pouco pálido, que lhe apertou muito as mãos. Estava melhor? Tinha dormido bem?
Sim, obrigada, estava melhor. Sentara-se no sofá, muito vermelha. Mal sabia o que dizer.
Repetiu com um sorriso vago:
- Estou muito melhor! - E pensava: - "Não me deixa agora a casa, este maçador!"
- Então, não saiu? - perguntou Sebastião, sentado na poltrona, com o chapéu desabado nasmãos.
Não, estava um pouco fatigada ainda.
Sebastião passou devagar a mão pelos cabelos, e com uma voz que o embaraço engrossava:
- Também agora tem sempre companhia pela manhã...
- Sim, meu primo Basílio tem aparecido. Há tanto tempo que nos não víamos! Fomos criados depequenos, quase... Tenho-o visto quase todos os dias.
Sebastião fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a voz:
- Eu mesmo tinha vindo para lhe falar a esse respeito...
Luísa abriu um olhar surpreendido.
- A respeito de quê?
- É que se repara... A vizinhança é a pior coisa que há, minha rica amiga. Repara em tudo. Já setem falado. A criada do lente, o Paula. Até já vieram à tia Joana. E como o Jorge não está... O Neto também reparou. Como não sabem o parentesco... E como vem todos os dias...
Luísa ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado:
- Então eu não posso receber os meus parentes sem ser insultada? - exclamou.
Sebastião levantou-se também. Aquela cólera súbita nela, uma pessoa tão doce, atarantou-o como um trovão que estala num céu claro de verão.
Pôs-se a dizer, quase ansiosamente:
- Oh, minha rica senhora! Mas repare, eu não digo... É por causa da vizinhança!...
- Mas que pode dizer a vizinhança?
A sua voz tinha uma vibração aguda. E batendo com as mãos, apertando-as, exaltada:
- Isto é curioso! Tenho um parente único, com quem fui criada, que não vejo há uns poucos deanos, vem-me fazer três ou quatro visitas, está um momento, e já querem deitar maldade!
Falava convencida, esquecendo as palavras de Basílio, os beijos, o cupê...
Sebastião, acabrunhado, enrolava o chapéu nas mãos trêmulas. E com uma voz abafada:
- Eu, tinha-me parecido prudente avisar; o Julião também...
- O Julião? - exclamou ela. - Mas que tem o Julião com isso? Com que direito se metem no quese passa em minha casa? O Julião!
A intervenção, as decisões de Julião pareciam-lhe um acréscimo de afronta. Caiu numa cadeira, com as mãos contra o peito, os olhos no teto.
- Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! Se ele aqui estivesse, Santo Deus!
Sebastião balbuciou aniquilado:
- Era para seu bem...
- Mas que mal me pode suceder?
E erguendo-se, indo de um móvel a outro, numa excitação:
- É o meu único parente. Fomos criados ambos; brincávamos juntos. Em casa de mamã, na Rua da Madalena, estava lá sempre. Ia lá jantar todos os dias. fôssemos irmãos. Em pequena traziame ao colo...
E amontoava detalhes daquela fraternidade, exagerando uns, inventando acaso, na improvisação da cólera.
- Vem aqui - acrescentava - está um bocado; fazemos música; ele toca ente, fuma um charuto,vai-se...
Instintivamente justificava-se.
Sebastião estava sem idéia, sem resolução. Parecia-lhe aquela uma outra Luísa, diferente, que o assustava; e quase curvava os ombros sob a estridência da sua voz, que nunca conhecera tão forte, vibrando numa loquacidade trapalhona.
Erguendo-se enfim, disse com uma dignidade melancólica:
- Eu entendi que era o meu dever, minha senhora.
Fez-se um silêncio grave. Aquele tom sóbrio, quase severo, obrigou-a a corar um pouco dos seus espalhafatos; baixou os olhos; disse embaraçada:
- Perdoe, Sebastião! Mas realmente!... Não, acredite, juro-lhe, estou-lhe muito obrigada em meavisar. Fez muito bem Sebastião!
Exclamou logo, vivamente:
- Para evitar qualquer calúnia dessas línguas danadas! Pois não é verdade?
Justificou então a sua intervenção, com muita amizade: às vezes por uma palavra arma-se uma intriga, e quando uma pessoa está prevenida...
- Decerto, Sebastião! - repetiu ela. - Fez perfeitamente bem em me avisar. Decerto!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.