Por Eça de Queirós (1870)
— Pobre criatura! — dizia eu na solidão dos meus pensamen tos. — Pobre criatura! Vaispara a mais profunda das covas, para a sepultura errante das águas. Uma febre de amor consumiu-te na vida, uma tempestade eterna te agitará na morte! Condiz o túmulo com aexistência! Como o mar, tu foste bela, orgulhosa e ruidosa. Como o mar, tu tiveste as tuas tormentas, as tuas calmarias ocultas, as tuas grutas, os teus monstros secretos, a tua elevação religiosa, a tua espuma imunda. Como sobre o mar, sobre o teu cérebro correram as docesideias geniais e puras como velas de pes cadores; as pesadas ambições modernas, rápidas e incisivas como rodas de paquetes; as brutais exigências do temperamento, estú pidas evitoriosas como monitores armados. Despedaçaste-te de encontro à fria reserva de um amorque se extingue, como ele se esmigalha contra a escura insensibilidade das rochas. Como ele tem o vento que é o seu tirano, tu tiveste a paixão. Vai, pobrezinha, repousar em paz, nofundo das algas verdenegras! Triste destino! Quem mais do que tu, sentiu, amou, estremeceu, corou, quis, ven ceu? Quantas lágrimas causaste! Quantas loucas palpitações!Quantos desejos para ti voaram como bandós de pombas! Quantas vozes perdidas te chamaram! Quanta fé fizeste renegar! Quanta altivez fizeste sucumbir! E tanta vida, tanta acção, tanta vontade, um tão grande centro vital como tu foste, um grumete amarra-lhe duasbalas aos pés e atira com ela ao mar! E aqui jaz o ruído do ven to, e aqui jaz a espuma da onda!
«De que te serviu o ser, o que fizeste ao sangue, à vontade, aos nervos, ao pensamento,que trouxeste do seio da matéria? Que ideia deixaste, que memória, que piedade? Que foste tu mais do que um corpo belo, desejado e fotografado? Fizeste parte, durante a vida,daquelas insensíveis belezas naturais, que o homem usa e arremessa. Foste como uma camélia, ou como a pena de um pavão. Foste um adorno, não foste um carácter. Nunca tiveste um lugar definido na vida, como não terás um túmulo certo na morte! Adeus, pois,para sempre, oh doce efémera! O teu destino é a dispersão!
«Por isso aqui estás só! Os que te amaram onde estão? Onde es tão os que tu amaste?Aqui estás só, vestida com o teu penteador branco, na tua manta de xadrez, sobre o convés de um navio, só, sempre nomeio de homens, como na vida! Não há uma flor aqui que se te deite em cima, nem uma renda em que se te envolva a face morta. Morres entre cordagens,nomeio de rudes marinheiros, que vêm agora da sua ração de aguardente. Nem um padre católico tens que te fale dos anjos, doces camaradas da tua mocidade. Nem um parente,sequer, te comporá a dobra do teu lençol! Não se can tará nenhum responso em volta do teu caixão. Não farás cismar as noivas que te vissem passar no teu enterro. As mãos alcatroadas de velhos marinheiros te arremessarão ao mar!«Pois bem, minha pobre amiga! Que importa? Estás na lógica do teu destino, que é a revolta. Viveste longe das estreitas conveniên cias humanas, morres em plena liberdade danatureza.
«Não verás o teu leito cercado de parentes ávidos, de criados in diferentes, de padres que te dêem os santos óleos bocejando, num quarto escuro e abafado, entre o cheiro dosremédios: morres dian te do céu, aos embalos domar, ao cheiro da maresia, entre velhos marinheiros da Índia, que te choram, sob o sublime céu, na plena liberdade dos elementos!«Não serás vestida com velhas sedas, não levarás na cabeça an tigas coroas fúnebres, não te cobrirão com galões de ouro falso; irás com o teu penteador branco, como para uma alegria nupcial!
«Não te pregarão num caixão estreito, nem te apertarão como um fardo; terás o contacto das coisas vivas; as lágrimas do mar cor rerão sobre os teus cabelos; poderás toucarte de algas; os raios do Sol poderão ir procurar-te como antigos amantes dos teus olhos, e atampa do teu esquife será o infinito azul.
«Não sentirás em volta de ti, no teu enterro, cantos em mau latim, o som das campainhas, a voz aguda dos meninos do com, os comentários estúpidos da multidão, asgrosseiras enxadadas do coveiro. Serás lançada à tua cova do mar nomeio de um silêncio militar, levando por mortalha a bandeira inglesa, ao cantochão infi nito dos ventos e daságuas.
«Não ficarás para sempre apertada em cinco palmes de terra, sentindo a boca das raízes pastar o teu seio e a multidão dos ver mes entrar no teu corpo como numa cidadelavencida. Não! a tua morte será uma perpétua viagem; viverás nas grutas transparen tes da luz, guardarás os tesouros misteriosos, visitarás as cidades de coral que luzem no fundo domar,amarás o corpo encantado de algum louro príncipe, outrora pirata normando! Andarás dispersa no elemento, sombra infinita, alma da água!
«Sobre o teu túmulo não virão sentar-se os burgueses, benzer-se os sacristãos,cacarejar as galinhas; sobre a tua azul sepultura errará o vento, melancólico velho que visita os seus mortos.«Não terás um epitáfio metrificado por um poeta elegíaco, e aprovado pela Câmara Municipal; serão os reflexos inefáveis das estrelas que se encruzarão para formar sobre a tua sepultura as letras do teu nome...»Um marinheiro bateu-me no ombro:
— São 11 horas — disse ele. Ergui-me em sobressalto, e pensando nas vês quimeras que setinham estado formando no meu cérebro, naquele triste cismar, disse comigo:
— Pobre de mim! Tinham-me esquecido os tubarões.Eram 11 da noite. Não havia estrelas. Todos estavam reunidos na tolda. Tinham-se posto lanternas nas cordagens, e acendido archotes.
Dois marinheiros tomaram o cadáver nos braços. O padre abençoou-o. Ligou-se-lhe aocorpo com uma corda a bandeira in glesa. Os grumetes trouxeram duas balas. Um a foi amarrada aos pés, outra ao pescoço. As botinhas dela, de seda preta, apareciam fora da orlado vestido e da bandeira que a envolvia. As luzes dos archotes faziam tremer sobre o mar vagas claridades. No silêncio sentia-se o estalar da resina.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.