Por Lima Barreto (1909)
Todos os circunstantes ouviram estuporados a breve narração do repórter. Depois de um curto silêncio, choveram as perguntas. Lemos nada sabia; recebera a notícia do Teixeira que estivera na polícia, onde pouco mais sabiam. A notícia viera de Santa Cruz pelo telégrafo... Leporace, que raramente saia de sua natureza de celentério, pôs-se nervoso e começou a dar as providências, a explorar o caso:
— Já um boletim... Já!
E logo rapidamente, Adelermo começou a traçar em letras garrafais a notícia que o Lemos trouxera. Eu fui pregá-lo à porta; da sacada, Leporace avaliava o efeito. O primeiro curioso que passou, parou e quedou-se a ler. Vieram outros e em breve uma multidão estacionava em frente do jornal. A notícia espalhou-se rapidamente, com uma rapidez de telégrafo, com essa rapidez peculiar às noticias sensacionais que, nas grandes cidades, se transmitem de homem a homem quase com a velocidade espantosa da eletricidade. O doutor Loberant entrou, atravessando a custo por entre a multidão. Tinha ouvido qualquer coisa e correu ao jornal. Que houve? perguntou. Contaram-lhe. A sua fisionomia abriu-se risonha, sorridente, e feliz. Ia vender mais mil ou dois mil exemplares. Chegou à janela e viu a multidão crescer sempre. Veio até à sala da redação e perguntou com império:
— Quem está fazendo a “cabeça”?
Chama-se “cabeça” nos jornais às considerações que precedem uma notícia. Feita com a moral de Simão de Nantua e a leitura dos folhetins policiais, a “cabeça” é a pedra de toque da inteligência dos pequenos repórteres e dos redatores anônimos.
Para dar um exemplo, vou reproduzir aqui trechos de uma “cabeça”.
Tratava-se de uma briga entre amantes e o repórter, após intitular a notícia — “o eterno ciúme” — começou a filosofar, com muita lógica e inédita psicologia:
“O ciúme, esse sentimento daninho que embrutece a imaginação humana e a arrasta à concepção de crimes, cada qual mais trágico e horripilante, não cessa de produzir seus efeitos maléficos”.
Continuava, após um período intermediário:
“No caso de que nos vamos ocupar, trata-se da briga entre dois amantes, motivada de uma parte pelo ciúme e da outra pela repulsa natural de quem se sente ofendido e maltratado”.
São assim, com poucas variantes, as “cabeças”.
No Despacho havia um especialista nesse gênero jornalístico que era tido por gênio.
— Não há como o Matoso! Que facilidade! Que rapidez! Escreve trinta tiras em uma hora! diziam os colegas.
Isto lhe valia uma fama e um conceito, entre os seus, superiores aos que o Conselheiro Rui Barbosa goza em todo o Brasil. É preciso saber-se que as tiras no jornal são menores e levam menos palavras que as redigidas por qualquer pessoa não afeita ao oficio. São escritas com grandes intervalos entre as linhas e grandes espaços entre as palavras, para facilitar a composição.
Demais eram as banalidades, os conceitos familiares sobre o crime e os criminosos que ele desenvolvia com a convicção de quem estivesse fazendo um estudo profundamente psicológico e social. Oh! A vaidade dos desconhecidos da imprensa é imensa! Todos eles se julgam com funções excepcionais, proprietários da arte de escrever, acima de todo o mundo. Não reconhecem que são como um empregado qualquer, funcionando automaticamente, burocraticamente, e que uma notícia é feita com chavões, chavões tão evidentes como os da redação oficial. Quase todos os repórteres e burocratas dos jornais desprezam a literatura e os literatos. Não os grandes nomes vitoriosos que eles veneram e cumulam de elogios; mas os pequenos, os que principiam. Estranha ignorância de quem, por intermédio dos artigos dos que sabem, copia os processos dos romancistas, as frases dos poetas e deturpa os conceitos dos historiadores, imitando-lhes o estilo com uma habilidade simiesca...
Leporace, apanhado em falta, respondeu timidamente, ao diretor:
— Ninguém.
— Pois já deviam ter pensado nisso... Vá, “Seu” Adelermo, faça a “cabeça”; e o senhor, “Seu” Lemos, já para Santa Cruz!
— Só há trem daqui a uma hora e com certeza não apanho o que volta de lá às sete e quarenta e cinco...
— Não faz mal. Vá, durma lá, telegrafe... Passe na caixa e diga ao Pranzini que lhe dê duzentos mil-réis...
O diretor retirou-se e Adelermo começou a escrever.
— Qual será o título? fez ele suspendendo a pena.
— “Crime no Pampa”, gritou o Oliveira.
Oliveira, Carlos Oliveira, era da Bahia. Maneiroso, mesureiro, captara a amizade e o compadresco do diretor, de Aires d'Ávila e Losque; fizera-se grande influência no jornal, no qual já colocara dois redatores, Adelermo e Losque, e muitos repórteres. Ganhava como redator importante; mas o seu serviço era trazer noticias da Estrada de Ferro e dos Telégrafos. Na redação, limitava-se a escrever: “Foram concedidos passes aos telegrafistas F. e S.; a linha de Vista Alegre, 9.° distrito, está interrompida, devido, etc.”; na rua, porém, entre os auxiliares de escrita e os diretores, fazia constar que escrevia artigos e crônicas. Vendia a sua pomada .
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.