Por Coelho Neto (1906)
A negra foi vestir-se e, pouco depois, saíam muito juntas, conversando tranqüilamente. Felícia não conhecia as casas de penhores e esteve a dar voltas pelo Largo do Rocio, atarantada, a olhar, até que resolveu perguntar a um homem que lhe indicou uma travessa, mostrando-lhe a casa iluminada. A negra, que deixara Dona Júlia à espera, junto ao teatro, correu a buscá-la.
— Vamos, minh'ama. — A velha seguiu-a, muito tímida, evitando os transeuntes, cosendo-se com a parede até que alcançaram a casa. — É aqui. Vosmecê entre; eu espero na porta.
Dona Júlia entrou, metendo-se em um dos cubículos. Ao lado falavam, era um murmúrio vago de palavras indistintas, pronunciadas como no mistério da confissão. Um súbito receio gelou-a: "E se o homem, vendo-a tão pobre e com aquela jóia rara, tomasse-a por uma ladra?!"
Trêmula, pôs-se a desembrulhar a medalha e foi com um fio de que respondeu à pergunta: "que precisava de quatrocentos mil réis. "O homem retirou-se com a medalha e, à luz, abriu-a, examinou-a detidamente, virando-a, revirando-a, sacudindo-a na palma da mão; pesou-a numa pequena balança, depois, tomando ao balcão, disse secamente:
— Duzentos mil-réis.
— Só!? exclamou a viúva espantada.
— Os brilhantes são muito pequenos.
— E trezentos? — Duzentos.
E ia deixando a medalha quando ela suspirou resignada:
— Leve. Os senhores não têm pena da gente.
O homem retirou-se e ela, sentindo fortíssimas agulhadas nas pernas, encostou-se ao tabique e ficou a olhar a parede fronteira cheia de relógios — uns parados, outros trabalhando, quadros, vasos artísticos em peanhas, um oratório de jacarandá, com um fundo azul de céu.
Eram os reféns da miséria que ali se juntavam, eram as alegrias do pobre que ficavam cativas pelo pão e pelo remédio, e ela pensava em outros infelizes, quantos! sofrendo mais do que ela, por esse mundo vasto e descaridoso.
Sentindo que empurravam a porta do cubículo voltou-se assustada e viu um velhinho engelhado, com um embrulho debaixo do braço. O intruso atrapalhou-se, murmurou uma desculpa e passou adiante. O homem apareceu com um livro para que ela assinasse: tomou da pena e, tremulamente, deixou o nome, a rua e o número da sua casa. Esteve ainda algum tempo à espera até que ele reapareceu com a cautela e o dinheiro.
Felícia esperava à porta, a olhar os carros estacionados junto á calçada.
— Então, minh'ama?
A velha murmurou caminhando:
— Duzentos mil-réis, Felícia, por uma medalha que custou ao velho uma fortuna. Eu sei: ele viu-me assim pobre... — E suspirando: E eu que contava levar todo o dinheiro de que careço. Nem chega para te pagar. Tem paciência até o princípio do mês, quando eu receber do Tesouro.
— Não faz mal, minh'ama: eu tendo para o meu fumo...
— Agora se precisas de alguma coisa...?
— Não, senhora; eu vou-me arranjando. Quando vosmecê receber.
— Pois sim. O que eu quero é ficar livre daquele homem. Não sei dever, não está em mim: fico que só Deus sabe. E Paulo não se emprega. Não sei que há de ser de nós. Amanhã, bem cedo, hás de levar o dinheiro à senhoria.
— Sim, senhora. Mas vosmecê não se amofine, minh'ama; Deus é muito grande!
— E Paulo? Onde andará? Pois então aquele menino não sabe que sou doente? Como é que sai assim sem dizer uma palavra? Isto até parece castigo de Deus. Pois eu nunca fiz mal a ninguém...
— Não é só minh'ama que sofre.
— Ora o quê? mas como eu tenho sofrido, Felícia?! — Deus é grande! Mais tem ele pra dar, minh'ama.
Quando chegaram a casa a vizinha, que cantarolava à janela, disse "que o moço estivera ali muito tempo, batendo". As duas mulheres ficaram perplexas.
— E para que lado foi, minha senhora? perguntou a velha.
— Ele subiu. Creio que tomou um bonde.
— E agora, Felícia?
— Ele volta, minh'ama.
Efetivamente, como se rondasse perto, à espreita, pouco depois delas haverem entrado, Paulo bateu. Dona Júlia apressou-se e, vendo-o, iluminou-se-lhe o rosto. Longe de o recriminar recebeu-o contente, sorrindo. O estudante, deixando o chapéu sobre a mesa, sentou-se esparramadamente no sofá, abrindo os braços no encosto:
— Com certeza já estava aflita com a minha demora?
— Ah! não... não havia de estar.
— Pois eu andei na lida: a procurar a senhora minha irmã.
— E então?
— Qual! Um companheiro do Mamede, maquinista da Estrada. disse que a vira em Mendes, com um estrangeiro. Fui lá. Efetivamente encontrei uma moça muito parecida com ela, um pouco mais cheia. — Entrou no quarto e declarou desanimado: Qual! aquela não aparece tão cedo, se aparecer... O velho Fábio esteve aqui, mamãe?
— Não. Por quê?
— Avarento! — rosnou reaparecendo em mangas de camisa.
— Estiveste com ele?
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.