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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Naquele mesmo dia Evaristo de Holanda mudou-se para um hotel no Campo da Aclamação. -—"Bastava de fidalgos..." Não quis levar os trastes, porque — dizia ele — não lhe pertenciam; recolheu apenas os baús que trouxera do norte, um ou outro objeto que comprara depois, inclusive um grande quadro de Tiradentes e os livros, meia dúzia de volumes encadernados.

Quando às seis horas o carro parou à porta de Furtado, a vizinhança toda chegou à janela. O desembargador Lousada, com o indefectível gorro, a mulher e a filha também apareceram, D. Sinhá, branca de pó-de-arroz, falava tão alto que se ouvia dos extremos da rua. — Só nessas ocasiões aquele trecho do bairro animavase um pouco; o mais simples episódio, um incidente qualquer fora do comum dava às casas aspecto novo de quarteirão em festa, excitando a curiosidade dos moradores, transmitindo-lhes aos nervos uma sensação especial de alegria, de bom humor e de íntima aliança entre o corpo e o espírito. Era necessário que um sopro de escândalo varresse a atmosfera estagnada dos brasões e do preconceito fidalgo para que o longínquo recanto de Botafogo sentisse um calor de vida, um frêmito de existência animal nas artérias.

Bastava o rodar de uma carruagem: todo o mundo esquecia obrigações para satisfazer uma necessidade imperiosa do espírito e do olhar. As varandas enchiamse, mil cabeças surgiam como peixes à tona d'água. Era a avidez do escândalo, a eterna bisbilhotice de operários e ociosos, de homens e mulheres, acordando para a faina do dizia-se, para a mistificação do boato.

Um carro à porta dos Furtado! Ainda se fosse o do visconde... mas não — não era o cupê do Santa Quitéria... Talvez alguma visita de cerimônia... Entretanto — coisa notável! — as janelas do primeiro andar estavam fechadas e não havia ninguém na varanda do secretário!

A filha do desembargador cravava os olhos na alta frontaria do sobrado:

— "Ninguém"!

E aquele "misterioso" veículo de segunda ordem, atrelado com animais de ínfima espécie, causava arrepios de curiosidade — era como um ponto de interrogação erguido a fidalgos e burgueses no meio de uma rua sombria.

Luís Furtado passeava de um lado para o outro, na sala de jantar. Incomodava-o a brusca retirada do amigo, não obstante as insinuações odiosas da mulher. D. Branca enchera-lhe os ouvidos: que fora desacatada pelo bacharel, que o marido "da Sra. D. Adelaide" era um grosseirão; que antes nunca os tivesse admitido em sua casa; que o culpado era ele, Furtado, homem de muitas facilidades e de pouca experiência...

O secretário ouvia tudo com uma resignação de carneiro imolado, sem proferir palavra, sem a mais leve queixa. Não foi pedir explicações ao amigo: esperou os acontecimentos com a mesma calma de homem que sabe ajuizar dos homens e crê numa fatalidade que a tudo resiste e tudo domina na ordem moral e nas relações sociais.

O Evaristo era um pancada, ele o sabia melhor que ninguém: para que provocá-lo? Esperava, até que o bacharel se resolvesse a um acordo, a uma conciliação honrosa para ambos. Nenhum dos dois tinha a lucrar com um rompimento escandaloso e menos digno de cavalheiros que se prezam. Imaginava Adelaide sucumbida, os olhos em pranto, o coração intumescido de desgosto — pobre senhora! - às voltas com um homem de gênio pirrônico e macambúzio, sem o necessário equilíbrio para a vida doméstica - exagerando tudo, revoltando-se contra todos.

Como ela havia de estar sofrendo, aquela pomba sem fel!

E o secretário do Banco Industrial forrava-se de uma tranqüilidade assombrosa para não dar a perceber a D. Branca o pesar, o grande pesar que lhe causavam a história do ataque e a narrativa do episódio com o bacharel na presença de Adelaide.

Ela, coitada, ela também sentia muito, a jovem esposa de Evaristo; habituarase àquele viver, àquela existência em comum com os Furtado e doía-lhe, agora, como um punhal que lhe enfiassem nas carnes tenras, o abandono de todas as comodidades, a separação brusca das duas famílias tão intimamente unidas no princípio, quando ela chegara ao Rio de Janeiro... E por quê? Por nada, por coisíssima alguma, por um simples capricho, por uma fatalidade!

Evaristo desceu ao lado da mulher, guiando-a na escada, todo cauteloso, carregando-a quase.

— Não te despedes?... — lembrou ela. — Eu?!

E com uma ironia na voz:

— Queres me debicar...

Adelaide não insistiu: foi-se deixando levar até embaixo, à porta da rua, como uma convalescente.

O boleeiro abriu, com um movimento estabanado, a portinhola do carro e ela entrou. Foi como se entrasse numa prisão para nunca mais sair; tudo escureceu ao redor dela, como se lhe tapassem a vista com um pano negro; faltava-lhe o ar, faltava-lhe a lucidez do espírito, fugia-lhe a clarividência das coisas, fugia-lhe tudo! Apenas um objeto perdurava na sua imaginação; — triste esfinge na aridez de um deserto — a figura do secretário, mais do que nunca tentadora, numa auréola deslumbrante que o divinizava, olhando-a, todo voltado para ela, todo dela...

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